Obra de Modigliani
Autodeterminação

Tocar a vida com desembaraço exige boa dose de ousadia. Característica tão necessária quanto desconhecida na sua real essência.

O fato é que muitos confundem ousadia com desregramento, impulsividade ou ação destemperada e olham as ações ousadas com desconfiança. Existe até quem cultive certa aversão ao ímpeto e às posturas menos convencionais ou atrevidas.

O resultado é que as pessoas que ousam ou agem de forma mais livre quanto a convenções e rótulos sociais costumam receber crítica ácida e serem alvos de reprovação social e estigmas. Faça um breve exame histórico e verá que os inovadores e pioneiros atraíram muita hostilidade até se notabilizarem por não se prenderem a padrões. (mais…)

Recomeçar para reencaminhar-se a si mesmo.

Todos nós, em algum momento, precisamos ou precisaremos recomeçar.

E os motivos para os recomeços são variados: o dinheiro acabou; a paciência se esgotou; o estilo de vida virou uma roupa apertada que já não serve; valores esquecidos precisam ser retomados; é urgente livrar-se do peso da opressão da opinião pública; limites foram ultrapassados; certezas estão abaladas.

Entretanto, é preciso dizer que a motivação para os recomeços nem sempre surge em horas de dolorosa luta interior ou situações de conflito externo.

Os recomeços também podem ser iniciativa de quem quer maior realização e felicidade e para tanto, busca transformações evolutivas nas próprias aspirações, no estilo de ação ou ainda no modo de relacionar-se. (mais…)

Melancolia, obra de Edvard Munch
A melancolia é o choro da alma.

Queremos atingir metas que nos levem direto ao alcance de propósitos que darão sentido às nossas vidas.

Mas há obstáculos que impedem muitas jornadas que poderiam resultar vitoriosas.

Dentre esses obstáculos, o medo, por seu caráter imobilizante, talvez seja o elemento que mais cause transtornos.

O curioso é que o medo é um afeto adaptativo, que, em tese, deveria ser apenas benéfico. No seu aspecto adaptativo, o medo funciona como um alerta para riscos e perigos. Permiti-nos avaliar se seremos atingidos por eventos da realidade.

Isso mesmo. O medo tem função protetiva. Sem ele não formaríamos a percepção de até que ponto, somos capazes de enfrentar desafios. Funciona como um sensor que nos ajuda a retroceder, reavaliar a cena para criar estratégia mais adaptada. (mais…)

Annabel Sleeping, obra de Lucien Freud.
Não ignorar o que nos afeta

As paixões impactam a forma como reagimos à realidade, daí, o profundo interesse que a temática desperta entre leigos e estudiosos do comportamento humano.

É comum associar à palavra paixão, somente os sentimentos envolvidos no amor-romance em que os amantes se querem loucamente e vão, contra tudo e todos, vivendo um intenso romance. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda são histórias que exemplificam esse amor ao estilo ‘até às últimas consequências’.

Entretanto, a palavra paixão tem sentido mais amplo, uma vez que pode nomear múltiplos tipos de manifestações emocionais e sentimentais.
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Invocar proteção é ato propriamente humano

É natural. Nos momentos decisivos, queremos nos manter longe de perigos ou atrair sorte.

Também em horas de tropeços e vicissitudes, queremos acreditar que as coisas voltarão ao normal. E quando tudo dá certo, cremos que fomos bafejados pela sorte ou sustentados por misteriosa força protetora.

Assim, por mais perfeitos que nos consideremos, há em nós, certa consciência instintiva de que somos incompletos e por isso, precisamos de guarda e proteção.

E é essa condição tão própria dos humanos que nos leva a ter a esperança visceral de que existem forças propiciadoras de sorte e que por algum motivo, há um véu de proteção que nos salvaguarda e livra dos laços de ações e escolhas ruins.  

Um verso de Clarice Lispector ensina sobre isso ao dizer: “Ai daquele que cai na tragédia da nudeza de seu véu”.  E há um provérbio que apregoa: ‘aí daquele jogado à própria sorte’.

Tanto o verso de Clarice quanto o dito popular falam dessa intuição que mora recôndita no pensamento e nos alerta de que, talvez, não nos bastemos para realizar nossa força total.

Carl Jung, psicólogo suíço, por exemplo, defendia que  anjos e outras entidades protetivas são realidades psíquicas. Expressões personificadas de realidades inconscientes que propiciam experiências psíquicas de segurança profunda.

É perceptível, então, que não é acaso a crença amplamente disseminada, em seres protetores e a prática comum, em quase todas as culturas, de recorrer a essas forças.

A propósito, a fé em anjos, como seres destinados à proteção individual, é uma das crenças mais difundidas em inúmeras religiões. Na cultura cristã, a hora do anjo (6,12 ou 18 horas) é celebrada com preces e pedidos de proteção por milhões de pessoas.

Certamente, conceber seres vigilantes zelando ações e desejos individuais, mesmo para quem não acredita em mistérios sobrenaturais, é emocionalmente reconfortante e aditivo da autoconfiança.

Mas, e se pensássemos em cada pessoa como um anjo ou ser protetor? E se os anjos não fossem apenas uma legião celeste e remotos à nossa existência? E se houvesse outros anjos, ao alcance da mão? 

Creia. Esse é um sonho possível.

É assim: se cada pessoa exercitar empatia, compassividade, solicitude e assumir compromisso com a grandeza da  condição humana haverá uma legião de seres vigilantes e protetores de si próprios e de seus semelhantes.

E o resultado dessa corrente humana de proteção seria de tal magnitude que o resultado de mil anos de civilização humanitária poderia ser alcançado em pouco tempo, com efeitos benéficos para toda a humanidade.

Assumir a condição de anjos concretos, não alados, mas capazes de fazer voarem fortes as asas da felicidade humana se dá por meio da assunção de três atitudes: proteger-se, proteger, abrir-se à proteção.

Proteger-se. É preciso agir de forma refletida, a irreflexão leva a escolhas equivocadas. Desenvolver consciência do  próprio potencial. Conhecer forças e limites da própria ação para ampliar suas fronteiras ou aceitar limitações com serenidade. 

Boas lições de autoproteção estão nos textos de Santo Agostinho que nas suas ‘Confissões’ diz: ‘o desregrado produz sua própria desventura’ e em Aristóteles que ensinava o caminho da temperança, do bom senso e da reação proporcional aos acontecimentos da vida como fórmula para o viver sábio e feliz.

Proteger. Assumir que somos existências interdependentes. Que nossas ações impactam a vida dos pares humanos; que quando zelamos por interesses para além de apenas ambições individuais; quando exercitamos a compaixão, aprendemos, desenvolvemos habilidades que nos fortalecem como seres autônomos. Portanto, mais capazes de cuidar de si próprios e de ajudar a forjar a grandeza humana.

Finalmente, abrir-se à proteção. Expressar as dores sentidas. Os medos. Receber a cooperação alheia com humildade; admitir que temos momentos vulneráveis; que às vezes, nossa capacidade de julgar e agir está diminuída e incapaz de nos beneficiar.

Abrir-se à proteção favorece a proximidade com os nossos pares e alicerça a confiança dos outros em nós mesmos. Enfim, estabelece relações de parceria.

Nietzsche, o filósofo alemão, no livro: ‘Humano, demasiado humano’, dizia que existe um futuro seguro para a humanidade quando depurarmos da vida tudo o que não seja humano. E nada nos habilita mais como humanos do que a condição de seres cuidados e cuidantes.

O filósofo diz que tudo o que nos afasta uns dos outros são fraquezas humanas. Ele termina o livro com a poesia ‘entre amigos’ que diz assim: ‘É belo calar-se juntos, mais belo rir juntos, sob a ternura de um céu de seda… Rir afetuosamente com amigos, riso claro e mostrar-se mutuamente dentes brancos….’

Os versos do filósofo falam de: reciprocidade, confiança, aceitação mútua, amizade. E não é isso a substância que nos transforma em seres angelicais e poderosos?

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Ser proteção, proteger-se, proteger

Obra de Leonid Afremov
Elevar-se acima de si mesmo

Motivação. Eis um tema que atrai público a palestras no mundo todo.

Todos querem saber como mobilizar alguém ou a si mesmo na direção de objetivos. 

Como manter-se mais focado? Qual a melhor forma de estimular funcionários a aderir às metas da empresa? Como fazer valer as promessas de transformação pessoal?
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De onde vem nossa fortaleza interior?
De onde vem nossa fortaleza interior?

Quando nossos limites estão próximos da fronteira e as forças parecem esgotadas, de onde tiramos fortaleza de ânimo?

Nas situações críticas, sejam as exigências do trabalho, as delicadas solicitações do amor ou os momentos em que as decisões sinalizam ameaças, de onde vem a força que nos impulsiona?

O que nos leva a tocar o barco da existência com firmeza e esperança, ao invés de nos lançarmos ao próprio abandono ou à preguiça, quando as tarefas rotineiras parecem sacrificantes e sem sentido, seja por que estamos num dia ruim ou pela descrença no valor desses atos?

Nessas horas, cada pessoa tem suas próprias formas de buscar luz e força para  reacender a chama da disposição e responder aos desafios da existência. Algumas saídas são mais procuradas na busca de vigor e equilíbrio. Há o aconchego familiar, o amparo de amigos, a clarificação pela terapia, o cuidado mais acurado com a saúde, a dedicação primorosa ao trabalho ou o alento da religiosidade.

E, talvez, seja nesses momentos de busca do que nos fortalece, reconhecendo que  estamos enraizados em tudo o que nos rodeia, que vivenciamos com mais força a dimensão espiritual. A palavra espírito significa sopro. Então como vivenciamos a espiritualidade ou cultivamos o sopro que nos impele?

É costume confundir-se religiosidade com espiritualidade.

E é compreensível. A vivência da religiosidade é o aspecto que mais presentifica a consciência de que somos além do que somos. Contudo, a espiritualidade, como dimensão da existência humana pode ser mais ampla.

A espiritualidade se exercita na prática religiosa, mas também, se realiza quando apreciamos a arte; quando nos emocionamos  diante de um crepúsculo; nos momentos em que nos enternecemos com um sorriso de criança, quando nos transportamos ao sublime observando a natureza ou experimentamos um sentimento de conforto ao ouvirmos a cadência de uma prece. Tudo isso exemplifica movimentos de expansão; vivências que nos impelem para além.

Viver a espiritualidade é permitir-se a harmonia com o que existe e com o que sentimos a partir do que existe.

A espiritualidade é a capacidade de reconhecimento da impossibilidade da autossuficiência; é a consciência da profunda conexão entre nós e o que nos cerca. É a faculdade de entrar em contato com o todo e retirar daí os elementos que nos tornarão mais substantivos, capazes de seguir fortes e equilibrados.

Para o religioso, o sopro é a centelha divina e tudo o que advém da experiência mística; para o não religioso, pode ser a prática do cuidado ecológico, a solidariedade ou outras formas de demonstrar o profundo respeito ao mistério que ele credita às forças não divinas.

Contudo, todos esses movimentos evidenciam iniciativas do ser psicológico que somos, que nos lançam para além da noção mais pragmática da existência. Ajudando-nos a agir como seres capazes expandir-se como potência vocacionada ao crescimento.

No exercício religioso, temos as igrejas às quais nos ligamos para abrir caminhos para a força divina, conforme acreditamos. E de certa forma, quando fazemos isso, construímos uma igreja interior, erguemos pilares que sustentarão nosso espírito nos momentos de vulnerabilidade ou impulsionarão novas forças aos atos cotidianos.

Mas, no exercício da vivência espiritual, cada um constrói sua própria ‘catedral’.  Cada pessoa erige sua fortaleza interior, conforme seu desejo de transcendência e de acordo a fome de expansão da própria alma.

A espiritualidade não é, ela ‘está sendo’; é fonte de força, por isso é dinâmica. É busca contínua de expansão rumo ao infinito. E cada um sabe qual o mistério que o intriga, cada qual tem seu próprio encantamento diante do mistério;cada um sabe que cordas o sustentam para que possa caminhar com equilíbrio.

A vivência da espiritualidade reafirma os profundos respeito e zelo pela vida, pela natureza e pelo que conecta tudo isso ao projeto de cada um e ao propósito de todos.

O que fortalece nossas asas?
O que fortalece nossas asas?