Você planeja suas leituras?

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Um roteiro pessoal de leituras

Os leitores mais assíduos costumam seguir um itinerário de leituras.

De forma geral, eles têm uma pauta mínima sobre o que vão ler em determinado período.

Uma pauta de leitura é uma relação previamente elaborada dos livros que, na visão do próprio leitor, devem ser lidos em certo espaço de tempo, conforme critérios definidos.

Hoje, todas as atividades das diferentes áreas da existência humana assimilam cada vez mais conhecimento e impõem maciça necessidade de constante atualização. Realidade que faz do planejamento, prática cada vez mais comum.

O leitor pode estar buscando aprendizagem especializada, formação geral, amadurecimento intelectual ou apreciação estética, mas independente de seus objetivos, ele não poderá prescindir de uma carga de leituras que deve seguir um roteiro que torne a jornada menos sinuosa. Continuar lendo

Você tem uma lista secreta de livros?

Uma lista para a pauta...

livros para a pauta …

Quando interrogados sobre os livros prediletos, é comum revelarmos a lista que deixará no ouvinte, a melhor impressão quanto ao nível da qualidade de nossas escolhas como leitor. A situação é similar ao processo de divulgação de fotos pessoais, escolhemos as que  revelam os melhores ângulos.

Não há nada de errado quanto às duas situações. Em relação aos livros, apenas vamos passar uma imagem um pouco incompleta quanto ao tipo de leitura que realizamos. Mas, é uma questão pessoal.

O próprio Freud admitiu que a lista que forneceu como sendo de seus livros favoritos, na realidade, era composta por autores que ele considerava esplêndidos, mas não continha, necessariamente, as obras que lhe deixaram as mais fortes lembranças.

Ainda segundo o psicanalista vienense, se partisse do critério da agradabilidade, talvez aquela relação fosse alterada para incluir Emile Zola, Gomperz e Mark Twain, além de outros. Fica evidente que Freud não tinha muito do que lamentar da qualidade de sua lista, digamos ‘secreta’.

Mas, para os ‘simples mortais comedores de letras’ como eu, a história não é bem assim. Admito que quando sabatinada sobre preferências, também sou  seletiva. Costumo declarar as leituras às quais atribuo alto valor literário, grande poder informativo ou pelo inestimável valor humano do seu conteúdo.

Percebo que na lista não aparecem livros que me arrebataram pelo tipo de leitura fácil e prazerosa. Talvez devido a certa responsabilidade quanto às influências que posso imprimir nos outros, excluo, até injustamente, algumas experiências de leitura.

Assim. muitas vezes, deixo de declarar o quanto senti prazer, por exemplo, lendo: O Perfume  de Patrick Suskind; A Cidadela de autoria de A. J. Cronin; O Vale das Bonecas de Jackeline Susann; Servidão Humana de Somerset Maugham, A Boa Terra de Pearl S. Buck e Pássaros Feridos de Colleen McCullough, entre outros inesquecíveis pela forma que prenderam minha atenção, sem esforço e com muito prazer.

Sei que minha lista nem é tão trash, mas procurei ser honesta quanto ao nível de arrebatamento e comodidade na leitura. Puro deleite de leitor que busca apenas, momentos de evasão.

O que motivou essa reflexão é certa inquietação que sinto quanto à estreiteza de critérios, na seleção de leituras, que muitas vezes impomos a nós e aos outros. Mas, o valor da leitura, não está apenas no livro em si, está também nas emoções e impressões que nos provoca.

Por isso, mesmo quando nossa pauta de leitura estiver atrasada ou com grandes lacunas, não devemos nos privar de, de vez em quando, nos lambuzarmos com uma leitura deliciosa que faça tremer a alma, sorrir da graça solta ou nos deixe bisbilhotar uma história frívola sem muito peso dramático ou valor literário.

É como pegar uma panela de deliciosos brigadeiros e, de vez em quando, fugir da dieta de pão integral e hortaliças. Vale a pena abandonar a atenção ao ímã dessas leituras. Deixar-se levar por obras que proporcionam momentos de  intimidade com  autores que adoram seduzir seus leitores.

Victoria de Henri Fantin-Latour

Livros para as pausas…

A Peneira da Eficácia

Os vales são filhos das montanhas...

Os vales são filhos das montanhas…

Escalar os obstáculos até chegar ao pico de nossos propósitos. 

Eis o desejo humano universal.    

Ocorre que dissipamos força mental e vigor físico com tarefas e sentimentos que, além de nos afastarem dos alvos que miramos, sugam energia vital e desperdiçam tempo de que precisamos para a caminhada até o cume.  James Allen, escritor inglês do século XIX, escreveu: ‘A eliminação calculada de itens não essenciais da vida diária é um fator vital em todas as grandes realizações.’

De fato, o modo como conduzimos nossos passos pode funcionar como um sistema que conjuga objetivos, princípios, relacionamentos e métodos, ou podemos seguir desordenadamente e ficarmos reféns do acaso. Colecionando atos erráticos que podem nos levar a algum lugar que talvez não tenha significado para nós.

Se pudéssemos utilizar uma peneira para eliminar os detritos da ineficácia, o que encontraríamos?

Talvez, seja impossível dizer com precisão. Mas, se pudéssemos vasculhar a peneira da eficácia, encontraríamos pelo menos, três elementos prejudiciais à ação inteligente: hábitos improdutivos, emoções nefastas e aplicação difusa de energia.

E o que faríamos com esses elementos tão prejudiciais ao êxito e ao bem-estar?

A primeira ação seria revisitar hábitos. Não alteramos o resultado das coisas, agindo da mesma forma em relação a elas. É preciso rever o modelo mental que alimenta nosso modo de agir. Saiba a razão do que você faz repetidamente e veja se vale a pena dedicar tanto tempo a esse  jeito de agir. Esse é o início do caminho que leva à eficácia.

A segunda tarefa seria lançar um olhar carinhoso para as emoções. Que sentimentos nutrimos em relação ao que fazemos. Como afetamos as pessoas com quem convivemos? Alimentamos positivamente nossos pensamentos? As emoções positivas nos conectam a pessoas e coisas de uma perspectiva construtiva.

Sentir como direcionamos nossa energia vital é a terceira e não menos importante providência. Fazemos tempestade em copo d’água? Praticamos a moderação? Abster-se de coisas desnecessárias e procurar não contaminar-se com dificuldades supérfluas  ajuda a manter o foco no que realmente nos leva ao encontro dos nossos propósitos.

É preciso valorizar o que realmente importa. Somente assim, podemos direcionar força e vitalidade para a tarefa principal: saber viver com força de caráter, bem-estar emocional e autoeficácia. É o mesmo James Allen que nos diz: ‘A calma é a energia concentrada’.

A peneira da eficácia é artefato do bom senso e da autoconsciência. Só pode ser utilizada com habilidades adquiridas pela reflexão e atenção à ação. Quanto mais desenvolvemos autoconsciência, descobrimos aptidões e competências que vão nos ajudando a identificar o que nos impulsiona na escalada até o ‘nosso lugar’. 

Enfim, mantemos à mão a peneira da eficácia quando concentramos forças. Quando não desperdiçamos energia e  nos movemos pelas emoções com maior nitidez e autoconfiança quanto aos obstáculos a ultrapassar.

Sirva-se do que há de melhor entre as virtudes...

Sirva-se do que há de melhor entre as virtudes…

 

Caminhos para a boa leitura …

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Somente a leitura cria o leitor …

 A leitura é base da formação cognitiva, do enriquecimento cultural e do aprimoramento profissional.

O hábito de ler também está associado à ampliação da consciência individual quanto à nossa função político-social e ao crescimento espiritual, sendo visto como fator inalienável quando o objetivo é a promoção dos níveis de qualidade de vida

Confrontadas com tal realidade, as pessoas sentem-se cada vez mais convocadas a rever hábitos a fim de criar cenário pessoal favorável à prática da boa leitura. 

Quando a decisão é arregaçar as mangas, digo, os olhos,  e abraçar a vontade de transformar-se em leitor assíduo, algumas observações são básicas e poderiam compor qualquer cartilha de estímulo à formação do leitor.

Arrisco-me a elencar algumas dessas medidas.

Inicialmente, analise seus interesses. Procure textos e livros que o aproximem de assuntos afins e correlatos. O interesse exerce força de atração que nos ajuda a perseverar na leitura.  Com o tempo, vá diversificando autores, temas e estilos. Há leitores que leem muito do mesmo, o que pode levar à monotonia e desistência. 

Na leitura de ficção, opte por obras com valor literário; às vezes, mesmo quando a história é interessante, o texto está expresso de forma pobre. Nesse caso, o ato de ler diverte, mas não contribui para o enriquecimento da linguagem. De vez em quando, não é proibido ler obras pela simples busca de evasão e diversão, mas se puder aliar diversão e qualidade cultural, você só tem a ganhar.

Inclua no orçamento, algum valor que permita a compra de um livro, pelo menos a cada três meses. Isso, inclusive, pode ajudar na dieta.

Alguns livros clássicos, lançados por edições de bolso ou populares, muitas vezes, custam menos do que alguns sanduíches do tipo fast-food. Você se enriquece culturalmente, aumenta o repertório de ideias, torna-se uma companhia mais estimulante e alimenta o próprio espírito.

Livre-se dos preconceitos. Aproveite todas as oportunidades para ler. Adote uma atitude experimental e tente ler livros que estejam abandonados na estante. Aquele livro velho ou de capa pouco atraente pode reservar ótimas surpresas.

Se você tem dificuldades de manter a atenção, leia livros com capítulos curtos. Quando surgir a vontade de abandoná-lo, imponha-se a missão de só parar, quando finalizar o capítulo e marque o dia do novo ‘encontro’.  Essa estratégia vai impedir que você largue a leitura. Cada livro que a gente abandona enfraquece o desejo de iniciar e finalizar outro.

Fuja da pressa. No início, leia pausadamente, pronunciando mentalmente as palavras, isso facilita a compreensão e estimula a continuidade da leitura. Com  o tempo você vai desenvolvendo técnicas que dão velocidade à leitura sem perda de qualidade.

Veja televisão, mas não ocupe todo o seu tempo. Groucho Marx, o brilhante comediante e ator americano, costumava dizer: “Acho a televisão muito educativa. Toda vez que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e abro um livro.”.

A televisão tem realmente grande apelo plástico e disponibiliza muita informação, contudo, não nos dá tempo para reflexão. Somos bombardeados por informações que acabam sendo eliminadas pelos centros de cognição sem muita utilidade para o exercício da capacidade crítica-reflexiva que a leitura, por exemplo, proporciona, de forma significativa.

A poetisa Emily Dickinson dizia que “Não há melhor fragata do que um livro, para nos levar a terras distantes.”

Embarcando nessa inspiração, interrompo, aqui, essa conversa e convido-lhe a ir à estante, pegar um livro, folheá-lo e quem sabe iniciar a viagem ao mundo encantado que só os leitores conseguem visitar.

Ler é estar acompanhado.

Ler é estar acompanhado.

Os sentidos da leitura

 

A leitura cria possibilidades..

A leitura cria possibilidades..

Leitura. Eis um assunto cuja anunciação pode produzir atração ou repulsa.

Aos leitores devotados, tudo o que se refere a livros, leitores e escritores é valioso e digno de atenção. Às vezes, até de adoração. Já para os que não percebem o sentido do ato de ler, a leitura é vista quase como sacrifício.

E que motivos nos dividem, de forma tão marcante, quanto ao gosto pela leitura, entre leitores e não-leitores?

Se enxergarmos a leitura apenas como um ato mecânico de decifrar sinais, a fuga da leitura pode estar ligada ao ato de ler em si. Ler exige esforço e concentração e nos faz permanecer em posição corporal fixa. Além disso, a leitura força-nos a pensar de forma mais ordenada e elaborada. E pensar é trabalho árduo.

Além dos desafios clássicos, a formação de leitores sofre os efeitos da cibercultura: o livro é um suporte sem os apelos de sonoridade e movimento, mas disputa espaço com textos de suportes eletrônicos capazes de proporcionar múltiplos estímulos ao leitor.

Mas, para além das contingências externas, somente ampliando o olhar é possível perceber a leitura como trabalho de apropriação do mundo, seja cultural, estética ou espiritual e compreender que a leitura é ato com infinitas possibilidades de criar e recriar sentidos.

É bom lembrar, também, que a leitura é um ato relacional. Um mesmo texto não produz a mesma reação. Os hábitos e o nível de compreensão produzem expectativas e julgamentos diferentes nos leitores. E até um mesmo livro provoca, em um mesmo leitor, sensações distintas em momentos diferentes.

A formação de leitores regulares implica uma reflexão sobre o próprio sentido atribuído à leitura que foi sedimentado na educação da pessoa. Esse sentido precisa ser ressignificado? Ou apenas reavivado?

Todo grande escritor é um grande leitor. Por essa razão, vasculhar o que levou essas pessoas a estabelecer uma relação tão rica com os livros auxilia na compreensão dos sentidos que a leitura pode ter.

A sabedoria popular também aponta sentidos fundamentais à leitura. Há um provérbio chinês que diz: ‘Um livro é como um jardim no bolso‘. Ele enfatiza a beleza e a utilidade que brotam da leitura.

Alguns escritores atribuem à leitura papel decisivo para o autoconhecimento; outros preferem a utilidade que a leitura possa ter; tantos outros buscam encantamento ou enlevo. Há quem queira entretenimento e evasão da realidade. Mas, para cada um a leitura é prática criativa e distinta.

Cliftoon Fadiman, grande intelectual, defendia que ‘Quando lemos um bom livro vemos mais em nós mesmos do que havia antes.‘. Ralph Waldo Emerson, o brilhante ensaísta, dizia: ‘O bom livro é o que me faz ser útil.’ Robert Louis Stevenson, o genial autor de A Ilha do Tesouro,  propalava: ‘Os livros são bons por si sós, mas são um grande substituto para a vida.

Ler é recomeçar. Clarice Lispector dizia que a leitura tem sentido inaugural. Ela tinha razão. No ato de ler há sempre um  descerrar de véus para o que antes parecia destituído de significados. O erudito  francês  Michel de Certeau afirmava que “O leitor é um caçador que percorre terras alheias”. E a leitura é realmente desbravamento. Seja ela de natureza técnica ou ficcional.

Toda leitura encerra um quê de invasão e mistério. O que se esconde ao final da página? E do capítulo? E o mais incrível é que quando desvelamos a informação que estava lá, esperando para ser lida, descobrimos, também, que o mundo já não é mais o mesmo. A realidade surge com traços que antes não eram percebidos.

Ler é uma das formas mais rápidas e eficazes de mudarmos a nós e à realidade. Cada vez que fechamos um livro pela última vez, nos despedimos de quem éramos quando o abrimos. A cada livro lido somos alguém com mais filtros para pensar a realidade e mais perspectivas para colorir o mundo.

Há sempre um sentido de desbravamento no ato de ler...

Há sempre um sentido de desbravamento no ato de ler…

 

Construção do potencial: ser, estar e fazer

Remar, descobrir, chegar a paraísos …

A Divina Comédia é a obra maior de Dante Alighieri. É um poema composto por um canto introdutório e três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada uma das partes é formada por trinta e três cantos que o autor gostaria que resumissem os saberes filosóficos, teológicos e científicos de seu tempo.

Engajei-me na leitura minuciosa de Continuar lendo