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Será que conseguimos ler quando nos sentimos tristes, desanimados e até descrentes de nós mesmos?

Realmente, é difícil imaginar que nos momentos, em que o estado de ânimo é abalado por dificuldades, a leitura ajudaria a abstrair e trazer algum alívio do peso que sentimos.

A ideia mais cultivada sobre o que nos alivia quando estamos exaustos, fatigados ou vulneráveis é a de que a leitura é tarefa árdua, inócua e ainda mais tensionadora.

A proposta aqui é rever o modelo mental que nos leva a ter essa impressão e descobrir que a experiência de ler nas horas desafiadoras traz forte alento. Nessas horas, ler pode ter o efeito de uma oração; pode ser uma diversão que abrirá um portal para a evasão das ideias obsessivas que teimam em se repetir como espiral insana na preocupação.
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Obra de Fongwei Liu,
Transportar-se para territórios inusitados …

Ler é viajar. 

Essa afirmação tão corriqueira, certamente, refere-se às sensações de afastamento da realidade e prazer evocadas na experiência da leitura. Mas, se repararmos com atenção, é possível ver que a leitura em si é apenas um transporte. A viagem é obra do viajante, no caso, o leitor.

Cada leitor é um peregrino alado. Suas asas são a imaginação e a curiosidade. Asas que nos alçam às alturas da compreensão e sensibilidade que a leitura proporciona.

Todo viajante precisa de um plano de viagem, sendo leitores, precisamos de um ‘plano de voo’.

É impossível ler tudo o que queremos no tempo que almejamos. São tantas as escolhas possíveis, dentre a massa de títulos que compõem os estoques de livrarias, sebos, e bibliotecas. A saída é buscar atalhos que nos ajudem a abreviar esforço e tempo. Talvez, este seja o motivo do sucesso das listas de livros recomendados e de publicações do tipo ”livros para ler antes de morrer”, ‘livros para amar’ , ‘livros mais lidos pelos grandes escritores’.

E é justo reconhecer que essas ‘recomendações’ têm valor como indicadores que podem ser úteis para alcançarmos formas mais produtivas e prazerosas de ler.

Acontece que cada leitor precisa fazer viagens que o levem a lugares congruentes com as suas metas de médio e curto prazo ou com seu propósito de vida. E essa congruência é o que, antes de tudo, dará sentido e consistência às leituras.

Cada leitor, a partir de seus propósitos, firma um julgamento do que é a leitura e qual a sua finalidade.

Glustave Flaubert dizia que a gente lê para viver. Ele atribuía profundo sentido existencial à leitura. Franz Kafka dizia que a gente lê para fazer perguntas. Ou seja, o criador de ‘Metamorfose’, via a leitura como estímulo à capacidade crítica. Alberto Manguel, autor de ‘Uma História da Leitura’, explora a amplitude do ato de ler quando afirma: ‘Ler as letras de uma página é apenas um dos muitos disfarces da leitura.”

Apesar de cada leitor ter uma visão singular do valor e utilidade da leitura, há uma base comum de finalidades em cada gênero literário que permite traçar orientações que podem ser ponto de partida de bons ‘planos de voos’.

Vejamos algumas.

Quando o desejo é aprofundar o conhecimento de áreas técnicas, a opção é investir tempo na leitura de artigos, periódicos técnicos e manuais científicos. Eles fornecem o cabedal de informações que ajudam a manejar ideias teóricas com maior desembaraço. Se quisermos soltar a imaginação, a ficção é a melhor escolha. Se a ideia é aprimorar a capacidade reflexiva nos temas que nos são valiosos, a pedida é mergulhar nos ensaios que por sua natureza ampla permitem visualizar uma mesma temática sob múltiplos prismas.

Caso a leitura objetive o ganho de mais fôlego na compreensão filosófica da vida, então não há saída que não passe pela leitura de mestres da Filosofia, dos Socráticos aos Contemporâneos e Pós-modernos. Se o destino final é aumentar ou descobrir a própria capacidade de captar e expressar a realidade com sensibilidade, as linhas sensíveis da poesia são ótima trilha. Por último, se quisermos incrementar a capacidade de apreciação estética, os textos de dramaturgia e os livros de arte e fotografia são velhos e sábios amigos.

Agora, se você quer ler para escrever melhor, então, prepare-se. Sua pauta de leitura pode ser infinita. Considere tudo, dos clássicos aos últimos lançamentos. Literatura Nacional e Estrangeira – Romance, Ficção Científica, Terror. E ainda, Correspondências, Biografias, Viagens, Culinária, Poesia com ou sem rima, Mangá e gibi. Vai escrever ficção? Então, ler crítica literária é fundamental. Quer ser um bom ensaísta? Não há outro jeito a não ser mergulhar nos artigos, ensaios e críticas. Enfim, não há e não deve haver restrição, simplesmente leia com vontade de desembaciar suas lentes ou como dizia Marcel Proust de ‘Olhar para o seu mundo com os olhos do escritor’.

Seria possível continuar elencando opções, mas paremos aqui. Antes de finalizar, entretanto, nunca é demais lembrar que quando se trata de leitura, preconceito não ajuda. Quanto mais abrimos as portas da percepção e diversificamos a leitura, mais o ato de ler traz benefícios. Nada mais saudável do que, de vez em quando, deixar o ‘plano de voo’ de lado e entregar-se a um desses livros que de repente nos chegam às mãos.

Afinal, nada acontece por acaso, especialmente, quando se trata da magia de ler.

Obra de Iman Maleki
O leitor é um ser alado …