Annabel Sleeping, obra de Lucien Freud.
Não ignorar o que nos afeta

As paixões impactam a forma como reagimos à realidade, daí, o profundo interesse que a temática desperta entre leigos e estudiosos do comportamento humano.

É comum associar à palavra paixão, somente os sentimentos envolvidos no amor-romance em que os amantes se querem loucamente e vão, contra tudo e todos, vivendo um intenso romance. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda são histórias que exemplificam esse amor ao estilo ‘até às últimas consequências’.

Entretanto, a palavra paixão tem sentido mais amplo, uma vez que pode nomear múltiplos tipos de manifestações emocionais e sentimentais.
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Obra de Iman Malek
O que as suas palavras refletem?

Você já pensou nas palavras que diz e escuta todos os dias?

É sempre útil pensar sobre isso, pois, entre nós e nossas metas estão as palavras.

Aprender a manejá-las, portanto, pode poupar caminho no percurso que nos levará aonde precisamos chegar.

É fato. O homem não prescinde do uso de palavras. Ditas, escritas ou representadas por sinais e gestos, elas nos pronunciam diante do mundo e nos incluem no jogo de influências indispensável às trocas humanas.

Incontáveis vezes, escutamos o seguinte pedido: ‘Por favor, me deixa vender meu peixe?’. A razão dessa frequência é que (mais…)

Detalhe de o Beijo de Gustav Klimt.
As relações têm o incrível poder de nos lançar aos céus ou …

Se pudéssemos ouvir as queixas nas sessões de terapia, seria possível constatar que muitas reclamações giram em torno das dificuldades relacionais.

As relações entre pais e filhos e as ligações amorosas destacam-se como focos de queixas.

As relações parentais ganham importância pela intensidade e permanência do vínculo entre pais e filhos. Já o amor romântico e sensual, com seu forte poder de causar sensação de completude nos amantes, tem peso quando julgamos se alguém é ou não feliz.  Não é à toa que os namorados costumam se referir aos parceiros como a ‘cara-metade’. (mais…)

A metamorfose de Narciso
O que pensamos ser? O que somos?

O mundo é um palco.

Você já deve ter ouvido essa expressão tão popular.

Repetida em rodas de conversas, ela traduz a visão de senso comum sobre como expressamos nossa personalidade nos papéis sociais assumidos.

Quando falamos em papéis, nos referimos ao conjunto de expectativas sociais que os grupos nos atribuem, quanto a condutas que precisamos ter para adequação às necessidades grupais.

O impacto dessas condutas na sociabilidade tem sido objeto constante no estudo de psicólogos e cientistas sociais. E a razão disso é que adotar tais comportamentos define muito nossa história.

Erving Goffman, cientista social canadense, deu grande peso às implicações psicológicas e sociais da forma como agimos em sociedade. Ele chamava de ‘máscaras expressivas ou representações sociais’ aos atributos que assumimos para nos transformarmos em seres sociais. Segundo Goffman, apenas em momentos íntimos é que caem as máscaras expressivas do cotidiano.

Papéis e aceitação social são fenômenos quase inseparáveis. Os grupos esperam atuações distintas de seus membros e consideram notáveis, as que mais correspondem às maiores expectativas quanto às condutas valorizadas.

Por tais razões, dizemos que há certa pressão para nos conformarmos às expectativas sociais. Esse caráter de obrigatoriedade é tão evidente que, não raro, na busca de aprovação social, adotamos comportamento discrepante quanto à nossa identidade.

E a pressão não é acidental, pois é assumindo papéis que ultrapassamos a feição subjetiva intrínseca e nos projetamos na realidade. Eles permitem que entremos no jogo social sob diferentes formas.

Cada um como rica subjetividade atua de forma singular pela expressão de sua personalidade. Esse aspecto permite que nas trocas grupais, nos identifiquemos com os grupos aos quais pertencemos, sem perder essência.

A palavra personalidade é originada do termo ‘persona’. Expressão que dava nome às máscaras usadas no teatro grego do período clássico.

As máscaras escondiam o rosto do ator e o distanciavam de sua identidade real, permitindo que atuasse com maior fidelidade. No caso, o uso da máscara revelava o papel, mas disfarçava a identidade.

Mas e quando isso ocorre na vida social, quando para nos firmarmos como atores sociais, precisamos mascarar o que de fato somos?

Esse ponto constitui uma das principais questões humanas: até que ponto, as máscaras expressivas revelam identidades ou as falseiam em troca de prestígio social?

Realmente, para corresponder às expectativas como ator social definido, não raro, revestimo-nos de aparência e condutas incongruentes com valores e desejos pessoais.

Para fazer frente a tal dilema, é preciso estar consciente para não mergulhar no egocentrismo solitário, nem submeter-se à massificação esmagadora embutida nas armaduras simbólicas que a cultura de massa impõe.

Falsear a própria identidade é tornar-se uma não-pessoa. É assumir máscaras vazias – mordaças da subjetividade. ‘Personas’ que, longe de adornarem o que somos, são fachadas ocas que não nos refletem como atores únicos na dramaturgia humana.

É inegável: precisamos desempenhar papeis. Eles são moedas nas trocas sociais. Mas, é necessária a consciência do preço a pagar e de quanto essas moedas são autênticas ou são mentiras sociais que nos tornam impostores de nós mesmos. Dinheiro falsificado comprando um pouco de aceitação e prestígio social.

O que nos torna personalidades coerentes é assumir papéis de forma refletida e responsável, zelando pela  integridade do que nos torna sujeito social singular e lúcido.

Enfim, no teatro da vida, a questão não é aprisionar-se obstinadamente em si mesmo, é ser um ator honesto no drama que nos faz humanos.

O Sonho de Salvador Dali

Deformar-se  para conformar-se?

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Invocar proteção é ato propriamente humano

É natural. Nos momentos decisivos, queremos nos manter longe de perigos ou atrair sorte.

Também em horas de tropeços e vicissitudes, queremos acreditar que as coisas voltarão ao normal. E quando tudo dá certo, cremos que fomos bafejados pela sorte ou sustentados por misteriosa força protetora.

Assim, por mais perfeitos que nos consideremos, há em nós, certa consciência instintiva de que somos incompletos e por isso, precisamos de guarda e proteção.

E é essa condição tão própria dos humanos que nos leva a ter a esperança visceral de que existem forças propiciadoras de sorte e que por algum motivo, há um véu de proteção que nos salvaguarda e livra dos laços de ações e escolhas ruins.  

Um verso de Clarice Lispector ensina sobre isso ao dizer: “Ai daquele que cai na tragédia da nudeza de seu véu”.  E há um provérbio que apregoa: ‘aí daquele jogado à própria sorte’.

Tanto o verso de Clarice quanto o dito popular falam dessa intuição que mora recôndita no pensamento e nos alerta de que, talvez, não nos bastemos para realizar nossa força total.

Carl Jung, psicólogo suíço, por exemplo, defendia que  anjos e outras entidades protetivas são realidades psíquicas. Expressões personificadas de realidades inconscientes que propiciam experiências psíquicas de segurança profunda.

É perceptível, então, que não é acaso a crença amplamente disseminada, em seres protetores e a prática comum, em quase todas as culturas, de recorrer a essas forças.

A propósito, a fé em anjos, como seres destinados à proteção individual, é uma das crenças mais difundidas em inúmeras religiões. Na cultura cristã, a hora do anjo (6,12 ou 18 horas) é celebrada com preces e pedidos de proteção por milhões de pessoas.

Certamente, conceber seres vigilantes zelando ações e desejos individuais, mesmo para quem não acredita em mistérios sobrenaturais, é emocionalmente reconfortante e aditivo da autoconfiança.

Mas, e se pensássemos em cada pessoa como um anjo ou ser protetor? E se os anjos não fossem apenas uma legião celeste e remotos à nossa existência? E se houvesse outros anjos, ao alcance da mão? 

Creia. Esse é um sonho possível.

É assim: se cada pessoa exercitar empatia, compassividade, solicitude e assumir compromisso com a grandeza da  condição humana haverá uma legião de seres vigilantes e protetores de si próprios e de seus semelhantes.

E o resultado dessa corrente humana de proteção seria de tal magnitude que o resultado de mil anos de civilização humanitária poderia ser alcançado em pouco tempo, com efeitos benéficos para toda a humanidade.

Assumir a condição de anjos concretos, não alados, mas capazes de fazer voarem fortes as asas da felicidade humana se dá por meio da assunção de três atitudes: proteger-se, proteger, abrir-se à proteção.

Proteger-se. É preciso agir de forma refletida, a irreflexão leva a escolhas equivocadas. Desenvolver consciência do  próprio potencial. Conhecer forças e limites da própria ação para ampliar suas fronteiras ou aceitar limitações com serenidade. 

Boas lições de autoproteção estão nos textos de Santo Agostinho que nas suas ‘Confissões’ diz: ‘o desregrado produz sua própria desventura’ e em Aristóteles que ensinava o caminho da temperança, do bom senso e da reação proporcional aos acontecimentos da vida como fórmula para o viver sábio e feliz.

Proteger. Assumir que somos existências interdependentes. Que nossas ações impactam a vida dos pares humanos; que quando zelamos por interesses para além de apenas ambições individuais; quando exercitamos a compaixão, aprendemos, desenvolvemos habilidades que nos fortalecem como seres autônomos. Portanto, mais capazes de cuidar de si próprios e de ajudar a forjar a grandeza humana.

Finalmente, abrir-se à proteção. Expressar as dores sentidas. Os medos. Receber a cooperação alheia com humildade; admitir que temos momentos vulneráveis; que às vezes, nossa capacidade de julgar e agir está diminuída e incapaz de nos beneficiar.

Abrir-se à proteção favorece a proximidade com os nossos pares e alicerça a confiança dos outros em nós mesmos. Enfim, estabelece relações de parceria.

Nietzsche, o filósofo alemão, no livro: ‘Humano, demasiado humano’, dizia que existe um futuro seguro para a humanidade quando depurarmos da vida tudo o que não seja humano. E nada nos habilita mais como humanos do que a condição de seres cuidados e cuidantes.

O filósofo diz que tudo o que nos afasta uns dos outros são fraquezas humanas. Ele termina o livro com a poesia ‘entre amigos’ que diz assim: ‘É belo calar-se juntos, mais belo rir juntos, sob a ternura de um céu de seda… Rir afetuosamente com amigos, riso claro e mostrar-se mutuamente dentes brancos….’

Os versos do filósofo falam de: reciprocidade, confiança, aceitação mútua, amizade. E não é isso a substância que nos transforma em seres angelicais e poderosos?

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Ser proteção, proteger-se, proteger

Obra de Leonid Afremov
Elevar-se acima de si mesmo

Motivação. Eis um tema que atrai público a palestras no mundo todo.

Todos querem saber como mobilizar alguém ou a si mesmo na direção de objetivos. 

Como manter-se mais focado? Qual a melhor forma de estimular funcionários a aderir às metas da empresa? Como fazer valer as promessas de transformação pessoal?
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Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.
Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.

Cuidamos da nossa imagem social. Queremos produzir emoções  positivas no nosso círculo de convivência.

Com essa finalidade, procuramos usar trajes que nos identifiquem com signos de novidade e aceitação social. Com o lar não é diferente. É natural receber amigos cuidando para dar à casa um bonito e renovado visual.

Mas, e quanto aos  sentimentos? Cuidamos das vestimentas dos afetos? Tiramos o pó acumulado sobre velhos julgamentos? Iluminamos o recôndito da  alma com a luminária da compreensão? Enfeitamos relações com a beleza da empatia? Enfim, atualizamos sentimentos?

Atualizar sentimentos traz incontáveis benefícios à saúde e alarga a porta que leva à felicidade; renova visões, oxigena ideias, reconstrói afetos, propicia autoconhecimento e transformações.

Mas, se é assim, por que é difícil revisitar as emoções que ditam relacionamentos? Como ignorar que julgamentos condicionam pensamentos e ações? Por que não fazer uma apreciação renovada dos vínculos, sejam de atração ou aversão?

Deve parecer estranho falar em laços, quando tratamos de emoções aversivas. Mas o fato é que estamos ligados afetivamente a todos com quem nos relacionamos. Seja pelas emoções de amor ou seus opostos, cada um é parte de uma teia emocional. E, não raro, investimos muita energia em prejuízo da expressão de afetos positivos

A mágoa e o isolamento amargo são ervas daninhas da vida emocional; o rancor diminui a franqueza espontânea. São afetos que deflagram atitudes hostis e produzem relações empobrecidas.

Há pessoas que se vendo impotentes para expelir a raiva, projetam hostilidades contra si mesmas. E há os que não explicitam raivas arraigadas que se manifestam em doenças somáticas (dores de cabeça, pruridos, psoríases) e outros escapes de hostilidades represadas.

E de onde vem o estoque de rancor? Os rancores têm origem em mágoas mal resolvidas; ressentimentos não considerados. Ignorar emoções é inútil, pois sua vocação natural é se expressar. De um jeito ou de outro.

Por essa razão é preciso refletir, entrar em contato com as próprias emoções para integrá-las de forma consciente a ações e reações.

No texto, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Freud diz que ‘alguns afetos evocam reações tão inapropriadas que se chocam com o movimento natural do desenvolvimento humano’. Talvez possamos dizer que o ressentimento persistente  tem esse efeito.

O filósofo clínico Lou Marinoff  diz que devemos ser protagonistas e não, coadjuvantes da vida emocional. Ele afirma que uma pessoa pode nos ofender, mas se a ofensa se transformará em dano, é decisão pessoal. Segundo o filósofo, a ofensa vem do outro, mas  é a força atribuída a ela que a transforma em dano para seu alvo

Ainda na visão de Lou Marinoff, há um fenômeno psicológico denominado reciprocidade negativa de julgamento e intenções, que está na base do ressentimento persistente. O mecanismo atua assim: pessoas com baixa tolerância à frustração e suscetíveis ao julgamento social tendem a julgar e reagir à presença do outro, conforme seu nível de autoexigência.

É um círculo vicioso: pessoas críticas e intolerantes com as falhas alheias esperam reciprocidade no julgamento (rigor), portanto, além de reagirem mal a críticas, têm dificuldades de expressar sentimentos quanto a críticas recebidas. Isso favorece o ressentimento que se transforma em rancor.

O rancor é uma emoção autorreferente. Explico. O rancoroso sente raiva  continuamente e sofre os efeitos nocivos dessa corrente emocional. É possível afirmar que o rancor é uma agressão contínua e silenciosa a si próprio.

O psicólogo social Leonard Berkowitz diz que as agressões mal sucedidas intensificam a raiva, daí é possível afirmar que o rancor é um comportamento que se alimenta continuamente.

E como escapar desse circuito emocional que pode condenar relações? Os psicólogos apontam a compreensão dos próprios sentimentos como o primeiro passo. E orientam o reexame dos critérios de julgamentos ao firmarmos antipatias e simpatias nas relações.

É preciso atentar para o peso de atitudes para estabelecer bom ou mau clima relacional e para fixar a percepção alheia positiva quanto ao nível de bem-estar emocional que nossa presença exprime.

Aristóteles, um dos sábios gregos, ensinava que para afastar o ressentimento e semear boas relações é preciso fazer esforço para enxergar o outro como ‘um outro eu’. Para ele, a superação da inimizade pede piedade e solicitude. Na compreensão filosófica de Aristóteles, para romper a corrente de afetos maléficos, é preciso dar o primeiro passo e agir almejando grandes sentimentos e sendo dignos deles.

Para o pensador francês René Descartes, somente a generosidade leva à grandeza das relações. Assim, a superação do rancor só é possível quando o julgamento da ação alheia preza pelos valores humanos que julgamos caros a nós mesmos.

Então, para uma existência menos tóxica, fica um convite à faxina dos sentimentos ruins.

 Reconstruir o sentido de comunidade humana ...

Reconstruir o sentido de comunidade humana …