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A pergunta ‘o que é autorrealização?’ deveria ser a primeira a ser ensinada ao ser humano. E o motivo é simples. A autorrealização é o objetivo primordial e é comum a todos nós.

Autorrealizar-se é realizar o sentido da própria vida, com a firme percepção de que o esforço despendido para vivê-la casa com os desejos e valores que nos movem.

Há quem ache que a autorrealização só é alcançada em relação à espiritualidade. Mas não é o caso. O senso de autorrealização pode dirigir-se a qualquer área da existência.

Ações, convivência, trabalho, esforço de cultivo intelectual, fruição estética, gozo espiritual, ócio e lazer, entre outras áreas de possibilidades de realização, podem mobilizar esforços realizadores desse anseio primordial que nos move.

Anseio primordial que dirige impulsos e motivações para jornadas que comporão a caminhada para a realização pessoal. Se não fôssemos movidos para a autorrealização, não teríamos espírito criativo, curiosidade e disposição para comportamentos ativos.

Podemos dizer que o anseio para a autorrealização é uma força recôndita pulsante que mantém a disponibilidade à experimentação, ao desejo de descobrir e de agir eficientemente para edificar conquistas.

Tal anseio nunca cessa, nos acompanhando até a hora final, por isso, não existe ninguém definitivamente realizado. Estamos sempre em constante recomeço. Não é de admirar que até a morte, nos movemos para um propósito.

Um episódio que ilustra isso, é o que se conta sobre a hora final de Goethe. O gênio da Literatura alemã. No seu momento extremo, Goethe pediu ‘mais luz, mais luz’, como se quisesse coroar sua busca constante em vida por mais discernimento e compreensão.

O trágico é que, nem sempre, temos consciência de que somos detentores do anseio de autorrealização e pior, não percebemos que a inconsciência nos condena a não alcançarmos a plenitude realizadora, mesmo quando obtemos êxito e satisfação.

A saída é manter a consciência autorrealizadora ampliada para que nossa personalidade esteja em constante abertura para a totalidade realizadora que leva à plenitude. 

E é esse sentimento de plenitude que coroa as jornadas bem sucedidas e as conecta à utopia que leva cada um pelo itinerário de jornadas mais ricas e próximas do que as remete ao infinito.

 

Obra de Modigliani
Autodeterminação

Tocar a vida com desembaraço exige boa dose de ousadia. Característica tão necessária quanto desconhecida na sua real essência.

O fato é que muitos confundem ousadia com desregramento, impulsividade ou ação destemperada e olham as ações ousadas com desconfiança. Existe até quem cultive certa aversão ao ímpeto e às posturas menos convencionais ou atrevidas.

O resultado é que as pessoas que ousam ou agem de forma mais livre quanto a convenções e rótulos sociais costumam receber crítica ácida e serem alvos de reprovação social e estigmas. Faça um breve exame histórico e verá que os inovadores e pioneiros atraíram muita hostilidade até se notabilizarem por não se prenderem a padrões. (mais…)

The_Lady_and_the_unicorn_Desire
Cada um tem um unicórnio escondido no baú de fantasias.

A realidade é a base mais sólida da existência. Ela é a plataforma na qual fincamos pés para construir uma vida feliz e realizada. Entretanto, apesar de termos de enfrentar a realidade, esta não se apresenta igual para todos.

Há quem viva uma vida tranquila. Há os que precisam vencer batalhas para sobreviver. Existem os que, mesmo sem preocupações materiais, enfrentam os sofrimentos das perdas; os que sofrem angústias e ansiedades originadas dos diferentes tipos de medos e, ainda, quem não vê perspectiva pessoal alguma.

O fato é que, independente de como está a vida de cada um, para todos nós, encarar a realidade é desafiador. E se nunca foi fácil para ninguém, hoje, com o avanço do tempo, viver tornou-se mais exigente.

Desde os primórdios, o homem buscou espaços de diversão para abrandar as pressões  da realidade. Os espaços de convivência coletiva: praças, casas de banho; os jogos, atividades e torneios ao ar livre eram muito procurados para essa finalidade.

Hoje, as pessoas se vêm cada vez mais compelidas ao lazer que cresce em importância. Elas percebem que é indispensável criar meios de ´suspensão’ da rotina para abstrair a carga de exigências que recai sobre elas.

A grande diferença das práticas de lazer da atualidade, pelo menos das mais procuradas, é o papel de destaque que ganham as atividades voltadas para a fantasia e para o caráter de evasão e fuga da realidade.

Parece contraditório, mas não é. Quanto mais a realidade nos arrasta para provas árduas, mais utilizamos válvulas de escape que nos levam ao mundo da irrealidade. Desse modo, é sintomático desse fenômeno, o crescimento das formas de lazer que proporcionam atmosfera mágica, fabulosa e distante do mundo real.

Esse fenômeno é uma defesa do psiquismo. Funciona como descompressão que ajuda a renovar energia psíquica para a volta à rotina de forma mais relaxada.

Nesse cenário, diversão e arte passam cada vez mais a ser territórios habitados por seres fictícios e extraordinários. Buscamos mundos imaginados repletos de unicórnios, vampiros, dragões, zumbis, fadas e magos.

O fantástico ou surreal passa a ser preferência nas temáticas da Literatura, do cinema e  dos jogos. Os hábitos de lazer se confundem com grandes debandadas para ilhas de fantasia.

Assim, entre as famílias e jovens são comuns: a imersão em maratonas de séries televisivas; as caravanas de viagens a lugares fabulosos; o mergulho na atmosfera de filmes fantásticos e o  consumo de objetos adornados com figuras míticas.

Dentre essas figuras míticas, não é por acaso, que o unicórnio faça tanto sucesso. Ele é um ser fabuloso e seu significado mais popular, é o de ter a virtude de fazer o impossível. Os chifres do unicórnio representam, exatamente, o poder de  domínio sobre todas as dificuldades.

E viver não é realizar diariamente o impossível?

Os unicórnios que vemos estampados em tantos objetos ou reproduzidos como brinquedos, adornos ou talismãs simbolizam, exatamente, o prazer trazido por esse escapismo para um mundo mágico que nos faz pensar que, como os seres míticos, somos capazes de realizar no mundo real, com unhas e dentes, as tarefas que nos cabem.

É assim. Somos seres reais dotados de potencial realizador, mas enfrentamos uma realidade que se apresenta de forma aguda. Daí termos a necessidade de mergulhar na irrealidade ou na pseudorrealidade para reforçar o sonho de que somos capazes de encarar a insanidade que é viver vinte e quatro horas pressionados pelas tarefas humanas.

Por tudo isso, é preciso cuidar muito bem do nosso unicórnio, ou seja, precisamos realmente sonhar, fantasiar, ter lazer, usufruir do belo e do sensível.

O único cuidado é não mergulhar e permanecer para sempre no mundo da irrealidade.

Quando vamos ao fantástico a passeio, o mundo da irrealidade nos inunda do belo e do sensível; nos abastece de sonhos. Mas, quando queremos morar lá, construímos um mundo de delírios e irrealizações que nos enfraquecem para lidar com o mundo real.

E não há saída. As fugas para a fantasia são fonte essencial de fortalecimento emocional, mas a matéria prima da realização é extraída do real.

Enfim, bom mesmo é morar no real e, de vez em quando, montar no nosso unicórnio e fantasiar por aí.

 

 

 

 

Rembrandt - Retrato de Tito
Sozinho – envolto em si, por si e para si

O egoísmo é a atitude de quem dá predominância somente aos próprios interesses e juízos, sem considerar necessidades e ideias alheias. O adjetivo ‘egoísta’, desse modo, se aplica à pessoa que, de forma sistemática, põe interesses pessoais acima de qualquer circunstância e se recusa à troca benévola de ajuda e boa vontade. 

A expressão egoísmo foi criada no século XVIII e, ás vezes, é utilizada como sinônimo de egocentrismo. Mas há diferença.

O egocentrismo é mais a falha na compreensão ampla da realidade que uma questão moral. O egocêntrico tem a compreensão deformada de perspectiva de mundo. Assim, ele sempre parte da visão pessoal na leitura de contexto, uma vez que acha que o mundo gira em torno de si.

Na evolução da linguagem infantil, o egocentrismo é forte no período dos cinco até, mais ou menos, oito anos. A criança não reconhece um interlocutor diferente dela. Não há a compreensão de que ela precisa se fazer entender, então seu discurso é voltado para si.

O egoísmo, por sua vez, é um aspecto do caráter pessoal, uma vez que não se limita à leitura egocêntrica da realidade. O egoísta põe seus interesses sempre acima das circunstâncias em detrimento do direito alheio. Ele ‘deforma’ a realidade para que nela caibam seus ganhos e vantagens.

Essa característica do egoísta no trato com as transações e relações com que se depara, o levam a manter relações objetais. Ou seja, pessoas são instrumentos para o uso dele, que se aproveita do afeto que nelas suscita para obter benefícios.

É bom anotar que todos, em algum momento, temos atitudes egoísticas, mas isso não nos faz egoístas patológicos. As pessoas empáticas, quando agem com egoísmo, sentem drama de consciência. Pedem desculpas. Reparam erros. Não é o caso do egoísta. Ele sente-se bem agindo como age. Acha-se esperto e julga bobos todos os seres empáticos.

Podemos afirmar que há uma gradação no egoísmo. Há pessoas egoístas que querem exercer supremacia e obter vantagens, mas têm algum freio moral e limitam suas investidas. Elas não agridem fisicamente, nem querem prejudicar diretamente o outro.

Mas há um nível mais deletério e cruel de egoísmo. Neste, não há freios. A sanha egoística usa até meios ilícitos e violentos para neutralizar obstáculos.

Não é fácil relacionar-se com uma pessoa egoísta, por isso, o egoísta tem dificuldades para manter relações duradouras. E a razão é simples: a reciprocidade, a confiança e a consideração mútua são requisitos relacionais para as parcerias e não se  espera tais atitudes de alguém que vive embriagado de si mesmo.

As pessoas fogem dos egoístas. Elas sabem que na primeira situação em que haja o menor conflito de interesses, o egoísta vai desequilibrar a relação com atitudes de ingratidão, usurpação e mesquinhez.

Talvez por essa razão, quando nos lembramos de alguém que achamos egoísta, a primeira emoção que emerge é a raiva por sabermos que ele supõe ser justo manter relações tão assimétricas do ponto de vista da consideração.

Contudo, se olharmos friamente, veremos que os egoístas são pessoas com relações afetivas cercadas por desconfiança e suspeição e, portanto, emocionalmente pobres.

É notório. Os egoístas são seres isolados e desconfiados. Estão sempre à espreita. Habitam um mundo particular de espelhos facetados que refletem somente a eles próprios e seus interesses (geralmente materiais). E quando um destes espelhos se quebra, eles percebem a estreiteza e solidão de seu espaço afetivo.

Talvez se encontrássemos um egoísta na sua hora extrema e lhe segurássemos a mão, sentiríamos mãos rígidas, desajeitadas para o carinho, mas sedentas por recebê-lo.

Recomeçar para reencaminhar-se a si mesmo.

Todos nós, em algum momento, precisamos ou precisaremos recomeçar.

E os motivos para os recomeços são variados: o dinheiro acabou; a paciência se esgotou; o estilo de vida virou uma roupa apertada que já não serve; valores esquecidos precisam ser retomados; é urgente livrar-se do peso da opressão da opinião pública; limites foram ultrapassados; certezas estão abaladas.

Entretanto, é preciso dizer que a motivação para os recomeços nem sempre surge em horas de dolorosa luta interior ou situações de conflito externo.

Os recomeços também podem ser iniciativa de quem quer maior realização e felicidade e para tanto, busca transformações evolutivas nas próprias aspirações, no estilo de ação ou ainda no modo de relacionar-se. (mais…)

Melancolia, obra de Edvard Munch
A melancolia é o choro da alma.

Queremos atingir metas que nos levem direto ao alcance de propósitos que darão sentido às nossas vidas.

Mas há obstáculos que impedem muitas jornadas que poderiam resultar vitoriosas.

Dentre esses obstáculos, o medo, por seu caráter imobilizante, talvez seja o elemento que mais cause transtornos.

O curioso é que o medo é um afeto adaptativo, que, em tese, deveria ser apenas benéfico. No seu aspecto adaptativo, o medo funciona como um alerta para riscos e perigos. Permiti-nos avaliar se seremos atingidos por eventos da realidade.

Isso mesmo. O medo tem função protetiva. Sem ele não formaríamos a percepção de até que ponto, somos capazes de enfrentar desafios. Funciona como um sensor que nos ajuda a retroceder, reavaliar a cena para criar estratégia mais adaptada. (mais…)

The-Memory of Fountain. Obra do artista mexicano Gabriel Pacheco.
O ato de presentear é fonte de troca afetiva.

Presentear é um ato milenar. Compõe o esforço de integração e convívio social do homem para firmar-se como ser capaz de estabelecer conexões humanas.

Entrega e presença são palavras que resumem o que está implícito nesse ato, uma vez que ao presentear, a entrega não se limita ao objeto em si. Entregamos carinho, apreço, consideração. Enfim, nos entregamos e fazemo-nos ‘presentes’.

E a origem etimológica da palavra ‘presente’ refere-se exatamente ao tempo presente. Dar um presente é querer materializar-se no aqui e agora e perdurar como presença afetiva diante de alguém. Dessa forma, presentear é um convite para conectar-se e reforçar laços. (mais…)