A presença é eterna ....
A presença é eterna ….

Uma leitora pediu-me um texto sobre o sentimento de pesar. Ela passava por grande perda e queria ampliar a compreensão do luto.

O pedido mobilizou meus mais caros sentimentos, mas trouxe um desafio: como explorar essa angústia humana fundamental? O que escrever sobre a travessia do luto e tudo aí envolvido?

No esforço de compreender o assunto, focalizei dois pontos. Primeiro que é impossível passar pela vida sem contabilizar alguma perda. O segundo é que as perdas trazem além do sofrimento, elementos de promoção do crescimento humano?

A vida é tecida na alternância de ganhos e perdas. São duas faces da moeda da existência e nos movemos entre elas. E as duas ocorrências exigem transformações, acomodações enfim, aprendizagens. Mas aqui, vamos andar pelo terreno das perdas, procurando enxergar frestas de luz para além do sensação de vazio.

Há diferentes tipos de perdas. Frustração, prejuízo, desilusão e a perda mais profunda, a que exige a travessia do luto e cada uma dessas experiências é vivenciada de forma singular para cada pessoa.

Cada  perda é vivida sob o foco da percepção de quem a sofre. Assim, perder o emprego do qual depende a sobrevivência trará transtornos, mas a estatura e o modo como isso será vivenciado serão tão distintos quanto impressões digitais.

E a despeito do caráter devastador de algumas dores, a perda definitiva de entes queridos é o episódio que mais suscita sentimentos de desamparo e tristeza profunda. Pode haver um torvelinho de sentimentos que vão desde a perplexidade, passando por uma mistura de aflição, agonia, revolta, culpa e remorso. E cada um lida com esse processo com suas ferramentas afetivas e emocionais.

Não raro, há pessoas que na intolerância da experiência de perda, combinam autoagressão a certa descrença quanto ao valor da própria vida e muitas delas precisam de ajuda profissional para superar o momento.

Algo que se repete é a sensação de desamparo que parece estar na base das reações presentes no  luto, é uma sensação que nos faz sentir como se tivéssemos sido arrancados de tudo que que nos fazia sentir seguros e daí advém o desespero. Ou seja, acreditamos que não temos mais nada a desejar e, portanto, não podemos esperar mais nada.

Quando perdemos um ente querido, realmente sentimos como se não pudéssemos desejar nada além da restauração de sua presença. O sentimento de perda da ligação  profunda que tínhamos é tão alto que sufoca qualquer coisa que pudéssemos almejar.

O amor nos faz temer a morte; mas, também, religa-nos de volta à vida. Por mais profundo que seja o sofrimento que se abate sobre a pessoa enlutada, algo parece alimentar seu desejo de  buscar sentidos, para além da  existência de quem se foi. E esse algo é  a  necessidade  que os entes queridos que não partiram continuam sentindo do nosso amor e os apelos que vêm dessa  carência. A necessidade de partilhar  amor  não morre com aquele que perdemos, por mais essencial que fosse sua presença. E é a  consciência  absoluta dessa carência que vai suavizando a dor e  permitindo a transformação. A dor vai transmutando-se em vida nova.

E é essa transição de afetos que ressignificará a dor da perda. São essenciais as trocas afetivas nas famílias ou grupos que se mantém unidos e  confortando-se mutuamente. Esses intercâmbios afetivos favorecem a superação com mais saúde e menor mal-estar. É o exercitar desse amor que vai nos levando a perceber que a presença dos que amamos é eterna e independe da existência física.

Continua na parte 2

A dor é densa, mas transforma-se ...
A dor é densa, mas transforma-se …

Deixar aflorar sentimentos ...
Deixar aflorar os sentimentos …

A travessia. É fundamental não castrar expressões de luto. O lamento é um exercício de intimidade com  a dimensão espiritual, com Deus ou qualquer força que consideremos maior do que nós. O lamento, seja como choro, prece, queixume, ou qualquer outra  manifestação de inconformismo traz alívio à dor. Contribui para a recuperação de estado emocional mais próximo de como nos sentíamos antes da perda.

Freud, em ‘Totem e Tabu’ reafirma o papel curativo do luto. Ele nos diz : “o luto tem uma função psíquica de desligar dos mortos as lembranças e esperanças dos sobreviventes.”. Para o Pai da Psicanálise, quando há a elaboração satisfatória do luto, os mortos se transformam em doces lembranças, em ancestrais ou entes reverenciados para os quais dedicamos não apenas carinho, mas aos quais nos voltamos, inclusive, por meio de pedidos de ajuda, direção e alento em horas difíceis. Para Freud, a adequada elaboração do luto afasta-nos do remorso e da autocensura que costumamos nutrir por continuarmos vivos, após a partida de quem éramos parte.

De qualquer forma, viver a ausência do ente querido em perspectiva alentadora cria atmosfera de conforto. A expressão conforto significa “com-força” e é propícia à compreensão das atitudes a cultivar na dor. Kierkegaard ainda dizia que ao desespero só é frutífero confrontar o amor e a fé. E de fato, quando visualizamos os mortos de uma perspectiva distanciada da morte como  signo de ausência absoluta, tendemos a sair mais inteiros da paralisia emocional que se instala nessas horas obscuras.

Há distintas formas de viver o luto. Há quem sublime a dor e a transfira para longe do sentido de sofrimento, vivenciando-a como experiência elevada de dedicação a causas humanitárias. Há os que  se voltam à espiritualidade. São formas que o espírito humano encontra para lidar com o sofrer. E todas terão repercussão no que seremos dali por diante. Mas nenhuma expressão que busque a dignidade na dor será menos sublime.

C. S. Lewis, autor das  Crônicas de Nárnia, diz que a saudade é uma incandescência quase invisível. O escritor achou uma linda forma para tratar da saudade eterna. Ele sabia de que sentimento falava, pois viveu o luto de forma intensa, ao perder  a esposa. Ele registrou esses sentimentos no livro: A  anatomia de uma dor – Um luto em observação. O livro foi o jeito encontrado para expressar  o lamento pela perda de sua alma gêmea.

No filme Nada é para sempre (A River Runs Trough it), de 1992, a temática das perdas também é tratada com sensibilidade e lirismo. Na película, o pai que perde um dos filhos  (talvez o mais querido) diz uma frase que resume sua  compreensão de que além da tristeza que atravessa, a presença do filho estará sempre em sua vida: “Em algumas rochas há gotas de chuva eternas”. É um lamento poético que mostra a sabedoria de quem já aprendeu a encontrar sentidos para as próprias perdas.

Reacender a vida. Sartre dizia que somos condenados à liberdade, sinalizando que sempre há escolhas possíveis em qualquer situação, mesmo diante da morte. Mas, talvez, seja possível afirmar que nós, seres humanos, somos condenados também às perdas; sejam as trazidas pelo tempo, pelas partidas ou até pelas incompreensões que nos distanciam uns dos outros (mesmo em vida).

E exatamente por esse aspecto inapelável do risco de perdas é que é possível lidar com elas de forma construtiva. Perceber que tudo é eternizado nas lembranças dos momentos que montam nossa história já é um ótimo começo. E isso só será possível se não deixarmos de lançar um olhar compreensivo sobre nós mesmos. Não nos culparmos ou nos mortificarmos. Se apenas mantivermos aceso o farol do amor e do desejo para realizar a travessia sem danos adicionais às cicatrizes.

É preciso lembrar que a presença sobrevive à existência e que os entes queridos serão sempre chamas acesas em nossas vidas.

Varrer a angústia e deixar o coração limpo para os recomeços...
Varrer a angústia. Deixar o coração limpo para os recomeços…

A esperança é o portal do tempo ...
A esperança é o portal do tempo …

Ao leitor assíduo ou eventual do BlogdoTriunfo, desejo ardentemente que em 2015:

Os amigos sejam leais, carinhosos e atentos em reciprocidade à atenção que você dedicar à amizade como bem precioso e humano.

A saúde esteja como presença diária recebendo-lhe em cada despertar como  terna, gentil e diligente avó.

O amor venha como compromisso de aliança realizando o projeto de calor e ternura com a vida de forma intensa e duradoura.

A família, tendo o jeito que tiver, firme-se como ninho cujos ovos são promessas confirmadas de aconchego, realizações e cuidado.

O trabalho seja o tecer de uma existência com sentido, prática que lhe lance à autorrealização. E permita que às novas gerações seja entregue o valor da contribuição de cada um na construção do projeto humano na Terra – útero propiciador do nascimento comum.

Que a fé, com ou sem religião, esteja gravada na sua mais íntima convicção interna como certeza de que somos vontades lançadas ao eterno e enraizadas no coração do Universo e portanto, precisamos nos mover pela grandeza, como seres espirituais que somos.

Mais que dinheiro, suas necessidades do corpo, da alma e do coração sejam atendidas com generosidade e que esta provisão seja regida pelas leis do respeito, da justiça e da equidade.

A política seja o partilhar do mundo com empenho solidário,  respeito à geografia humana e zelo com a dignidade  de cada habitante em sua diversidade.

Desejo-lhe que você deseje ardentemente, pois o desejo é a chama que nos lança no futuro.

Seja! Realize quem você pode ser com autenticidade, mas  mova-se em sintonia com quem compartilha cada precioso instante com você

Sobretudo, viva cada dia como se fosse um doce fruto colhido em árvore regada pelo cuidado de mãe devotada, pelo amparo de pai presente e com a fraternidade própria do companheirismo de infância docemente compartilhada.

Enfim, feliz ano novo, feliz você feliz.

A ponte para o futuro é construída com o compasso de cada um ...
A ponte para o futuro é construída com …

Cada pequeno ato vai bordando matizes do que somos....
Cada pequeno ato vai bordando matizes da nossa jornada….

O farol do tempo aponta a luz para um ano novo.

Como será nossa viagem no tempo que se avizinha? Embarcaremos em jornada pessoal de crescimento ou seremos náufragos num mar de indecisões e desesperenças?

Antes de procurar respostas, que tal por lentes otimistas para ver o que a linha do tempo nos reserva?

É certo que todos buscamos fluir na direção da felicidade. Quem não quer remar com alegria e, tal qual Ulisses, o herói destemido da Odisséia, romper obstáculos, descobrir saídas e depois constatar que a travessia foi possível?

Entretanto, é fato que nas viagens costumamos alternar momentos de alegria e confiança com horas de cansaço e desânimo. É que toda jornada tem seus próprios desafios e ao encará-los, fica fácil cair no desespero e entregar-se ao pessimismo virulento que mortifica o ânimo.

E nesses momentos há duas atitudes mais frequentes que podem ser observadas. Há os que flertam com quimeras e ilusões traiçoeiras que trazem consolo instatâneo, mas  não os impulsionam à ação resolutiva, ao contrário, os deixam à deriva qual barcos sem porto aonde chegar.  Há, também a atitude oposta, mantemos firme o leme da vontade e prosseguimos, vendo o que se apresenta a cada maré, com visão esperançosa e ação substantiva como âncoras que fincam conquistas no território das realizações.

Descerrar as cortinas do tempo é uma dádiva e como tal exige coragem e esperança para seu completo usufruto. Pede medir realidade e sonhos com olhos bem abertos e balança equilibrada.

A vida é feita de realidade e de sonhos. Viver é contrapor as duas dimensões. É balancear senso de realidade com o entusiasmo próprio de crianças rasgando o papel que as separa do presente de Papai Noel.

Há que sonhar, acreditar no caminho e guiar a caravana da vida para diante.  Ariano Suassuna diz que o sonho é uma luz que nos puxa para a frente. Shakeaspeare versejava: ‘o importante não é a noite, mas os sonhos.

É bom afiar ouvidos e escutar esses dois sábios sonhadores. Afinal o que é viver, senão por sonhos em movimento?

Buscamos dia a dia, a alegria, a essência da própria felicidade dos sonhos. E, realmente,  é difícil negar que estar vivo tem algo onírico. E a razão é simples: contra todas as desilusões, remando contra ondas de indecisão, desafiando as dores da solidão e o açoite do desamparo, não importa, estamos vivos e simplesmente por isto, podemos deixar o vento morno da esperança bater no nosso rosto como carícia de mãe. Podemos caminhar direcionando ação e energia para onde nos puxam os sonhos.

É preciso sagrar-se companheiro da vida. Banir o pessimismo. Envolver-se pela imanência do pensamento afirmativo, sopro de quem não teme o medo e por isto, se eleva com a alma movida pelos músculos da perseverança.

Sem dúvida, há anos mais difíceis e outros mais felizes. Para cada um de nós a malha do tempo apresenta diferentes bordados. Entretanto, as matizes dos sentimentos que vamos imprimir às experiências é obra autoral. Sim, podemos usar a energia contida nos sonhos mais profundos  e fazer romper um tempo cheio da  energia do dia que nasce a despeito do desespero da noite.

E o que somos senão seres guiados pelos faróis dos próprios sonhos? Fernando Pessoa enxergava seus sonhos como um céu particular e os cantava em versos: ‘Cada qual tem seu devaneio, sou igual. E por detras disso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.’

Os sonhos são a matéria que nos solidifica e o ar que bafeja a esperança. A vida é bela. Criemos uma atmosfera em torno dessa convicção, pois a atmosfera que criamos à nossa volta é a alma da nossa existência.

 

Fiar o tecido que borda nossa história no tempo…

Escreve-me o que escrevo?
Escreve-me o que escrevo?

O maior desafio de cada pessoa é decifrar os enigmas da própria personalidade. E eles, os enigmas pessoais, existem e têm impacto sobre nós.

Um interessado nesses segredos foi Sigmund Freud, o psicanalista vienense que descobriu os processos inconscientes da mente humana.

Quando descreveu os processos inconscientes, Freud sistematizou informações cruciais à ampliação da nossa capacidade de autoconhecimento.

O autoconhecimento é processo fundamental paras a felicidade pessoal. Não é por acaso, que o conhecer a si mesmo é considerado o primeiro requisito de inteligência emocional e muitas personalidades das artes e ciências buscaram incessantemente conhecer o que ia na própria alma.

Rembrandt, por exemplo, pintava exaustivamente autorretratos. Os desenhos penetrantes que ele fazia da própria fisionomia são expressões da profunda necessidade de mergulhar nos sentimentos humanos por meio de si mesmo.

Sigmund Freud, Pai da Psicanálise, elaborou uma técnica psicológica durante sua autoanálise e era impiedoso consigo mesmo ao expor vulnerabilidades.

Clarice Lispector entregava a pena aos fluxos da própria consciência. E era tão intensa a procura de si, que sua escrita revela  borrões do inconsciente e divide misteriosos aspectos de sua alma com os leitores que os reconhecem como pedaços íntimos de suas essências. Virgínia Woolf, por sua vez, escrevia diários, anotações nas quais buscava intimidade não apenas com a arte de escrever, mas consigo própria.

E a exemplo de Virgínia, não são poucas as pessoas que escrevem diários. Mas será que todos têm ideia do poder que esses escritos pessoais apresentam de ajudar no autoconhecimento?

Possivelmente, são poucos os que percebem que manter cadernos íntimos com registros  de fatos e acontecimentos da  rotina é mais que derramar tinta no papel em branco ou digitar palavras na tela luminosa do PC. 

Um diário pessoal são letras que nos escrevem com honestidade, nos enredam, contam o que somos. Traz além do registro de fatos que serão trilhas da memória, rabiscos inéditos da própria personalidade. Estudos de Psicologia da Personalidade mostram que o desejo de escrever diários revela que a alma quer se rabiscar no que a memória insiste em registrar. E os diários conseguem deixar marcações de aspectos valiosos da intimidade que revela muito de nós.

Então, não custa tentar. Comece agora.

Existem inúmeras maneiras de manter um diário. Cada pessoa escreve à sua maneira. Levamos à escrita diária nosso jeito de ser com manias e métodos e é isso que torna cada diário uma pessoa singular e de valor inestimável.

Há quem goste de aproveitar restos de velhos e preciosos cadernos. Há quem escreva em caderninhos ilustrados com capas inspiradoras; existem os que são maníacos por Moleskines práticos e os que não abrem mão de brochuras ou caderninhos ilustrados.

Enfim, a escrita pessoal pode ser prática curativa e exercício de autocompreensão. Escrever nos dá pistas das melhores trilhas pra seguir em frente rumo a desejos e objetivos e, às vezes, pode até nos desviar das dores.

 Gravar impressões na pele do caderno....

Gravar impressões na pele do caderno….

Dedico este texto a Joana Benigno, a irmã mais velha e dona de uma letra de caderno de caligrafia. A visão de seus cadernos escolares rabiscou as primeiras impressões do efeito da escrita na minha alma.