Obra de Iman Malek
O que as suas palavras refletem?

Você já pensou nas palavras que diz e escuta todos os dias?

É sempre útil pensar sobre isso, pois, entre nós e nossas metas estão as palavras.

Aprender a manejá-las, portanto, pode poupar caminho no percurso que nos levará aonde precisamos chegar.

É fato. O homem não prescinde do uso de palavras. Ditas, escritas ou representadas por sinais e gestos, elas nos pronunciam diante do mundo e nos incluem no jogo de influências indispensável às trocas humanas.

Incontáveis vezes, escutamos o seguinte pedido: ‘Por favor, me deixa vender meu peixe?’. A razão dessa frequência é que (mais…)

A metamorfose de Narciso
O que pensamos ser? O que somos?

O mundo é um palco.

Você já deve ter ouvido essa expressão tão popular.

Repetida em rodas de conversas, ela traduz a visão de senso comum sobre como expressamos nossa personalidade nos papéis sociais assumidos.

Quando falamos em papéis, nos referimos ao conjunto de expectativas sociais que os grupos nos atribuem, quanto a condutas que precisamos ter para adequação às necessidades grupais.

O impacto dessas condutas na sociabilidade tem sido objeto constante no estudo de psicólogos e cientistas sociais. E a razão disso é que adotar tais comportamentos define muito nossa história.

Erving Goffman, cientista social canadense, deu grande peso às implicações psicológicas e sociais da forma como agimos em sociedade. Ele chamava de ‘máscaras expressivas ou representações sociais’ aos atributos que assumimos para nos transformarmos em seres sociais. Segundo Goffman, apenas em momentos íntimos é que caem as máscaras expressivas do cotidiano.

Papéis e aceitação social são fenômenos quase inseparáveis. Os grupos esperam atuações distintas de seus membros e consideram notáveis, as que mais correspondem às maiores expectativas quanto às condutas valorizadas.

Por tais razões, dizemos que há certa pressão para nos conformarmos às expectativas sociais. Esse caráter de obrigatoriedade é tão evidente que, não raro, na busca de aprovação social, adotamos comportamento discrepante quanto à nossa identidade.

E a pressão não é acidental, pois é assumindo papéis que ultrapassamos a feição subjetiva intrínseca e nos projetamos na realidade. Eles permitem que entremos no jogo social sob diferentes formas.

Cada um como rica subjetividade atua de forma singular pela expressão de sua personalidade. Esse aspecto permite que nas trocas grupais, nos identifiquemos com os grupos aos quais pertencemos, sem perder essência.

A palavra personalidade é originada do termo ‘persona’. Expressão que dava nome às máscaras usadas no teatro grego do período clássico.

As máscaras escondiam o rosto do ator e o distanciavam de sua identidade real, permitindo que atuasse com maior fidelidade. No caso, o uso da máscara revelava o papel, mas disfarçava a identidade.

Mas e quando isso ocorre na vida social, quando para nos firmarmos como atores sociais, precisamos mascarar o que de fato somos?

Esse ponto constitui uma das principais questões humanas: até que ponto, as máscaras expressivas revelam identidades ou as falseiam em troca de prestígio social?

Realmente, para corresponder às expectativas como ator social definido, não raro, revestimo-nos de aparência e condutas incongruentes com valores e desejos pessoais.

Para fazer frente a tal dilema, é preciso estar consciente para não mergulhar no egocentrismo solitário, nem submeter-se à massificação esmagadora embutida nas armaduras simbólicas que a cultura de massa impõe.

Falsear a própria identidade é tornar-se uma não-pessoa. É assumir máscaras vazias – mordaças da subjetividade. ‘Personas’ que, longe de adornarem o que somos, são fachadas ocas que não nos refletem como atores únicos na dramaturgia humana.

É inegável: precisamos desempenhar papeis. Eles são moedas nas trocas sociais. Mas, é necessária a consciência do preço a pagar e de quanto essas moedas são autênticas ou são mentiras sociais que nos tornam impostores de nós mesmos. Dinheiro falsificado comprando um pouco de aceitação e prestígio social.

O que nos torna personalidades coerentes é assumir papéis de forma refletida e responsável, zelando pela  integridade do que nos torna sujeito social singular e lúcido.

Enfim, no teatro da vida, a questão não é aprisionar-se obstinadamente em si mesmo, é ser um ator honesto no drama que nos faz humanos.

O Sonho de Salvador Dali

Deformar-se  para conformar-se?

Às vezes, nos fechamos à leitura de certos livros...
Às vezes, nos fechamos à leitura de certos livros …

Quem nunca sentiu certo frio na barriga (ou seria nos olhos?) diante de uma prateleira na qual tenha se deparado com um ‘gigante’ da Literatura Universal?

Quem, numa biblioteca, jamais refreou a mão que se dirigia aos monumentos da Filosofia, num ataque súbito de insegurança, por receio de não ser um leitor à altura daquela obra?

Cada pessoa tem seus desejos e necessidades de estudos.

Entretanto, mesmo quando nos referimos à pauta pessoal de leitura, há dois fatos incontestáveis. Primeiro é que existem livros indispensáveis à nossa formação. Segundo, é impossível pensar em  aquisição do gosto pelo estudo que não passe pelo hábito de ler.

Então, dado o incontestável valor do estudo e da leitura para o nosso preparo, o  que nos leva, muitas vezes, a firmar resistência quando se trata da leitura de determinados livros?

A resposta à questão passa por um pensar mais detalhado sobre os fenômenos envoltos nessa resistência.

A cada um de nós, o livro se apresenta com atmosfera própria que lhe atribui certa aura. E é essa aura que nos leva a vê-lo como ímã  atraindo inexoravelmente a atenção ou como um ser detentor de sortilégio repulsivo, levando-nos a eliminá-lo como provável leitura.

E, talvez, seja pelo fato de essas resistências estarem ligadas a crenças, às vezes ilógicas, que para muitos de nós, é difícil se embrenhar nas páginas do livro ‘temido’.

E esse fenômeno é mais generalizado do que se pensa.

Não são poucos escritores, cientistas e até filósofos que relataram  resistência a certas obras. E pelo mesmo motivo. Eles atribuíam valor tão elevado às obras ou aos autores, que isso repercutia nas suas próprias crenças como pessoas capazes de  ‘dar conta’ da leitura.

O fato é que essas obras lhes pareciam intransponíveis. Seja pelo valor do autor; seja pelo volume de páginas; ou pela complexidade do conteúdo ou  textura  elaborada de sua redação.

E não há um tipo específico de livro que possa ser classificado como sendo ‘intransponível’. Contudo, os livros clássicos nas áreas de ciência, literatura e filosofia costumam ser os mais atingidos pelo fenômeno. A própria denominação ‘clássico’ traz um peso.

Trazendo exemplos dos efeitos desse fenômeno à nossa formação profissional, é possível constatar que: há advogados que jamais leram Montesquieu; psicólogos e psiquiatras que deixaram os volumes da coleção de Freud comendo poeira na estante; professores que nunca ‘ousaram’ ler as obras de Paulo Freire e Piaget; teólogos que ‘exorcizaram’ (desculpe o trocadilho infame) a leitura dos próprios livros religiosos e, até cientistas políticos que cassaram obras como A República (Platão) ou o Leviatã (Hobbes)  de seus regimes de estudo.

Os exemplos acima, apesar de arbitrários, podem se encaixar na realidade de muitos profissionais que, vítimas desse ‘temor’, deixam leituras obrigatórias à margem de seu processo formativo.

E qual seria o antídoto para esse fenômeno?

O fato é que não há panaceias. Mas, é possível deixar de lado o receio das dificuldades de compreensão e adotar disposição de ânimo curiosa e firme para virar a chave da mudança de hábitos. Só assim será possível, por mãos à obra na caça ao tesouro do saber. 

Algumas dicas podem ajudar.

Preferir edições que tragam elementos de contextualização da obra e do autor: apresentação, prefácio, notas explicativas. E iniciar a leitura, sempre, por esses elementos.

Ter em mãos (ou às vistas) bons dicionários.

Se possível, convidar um parceiro de leitura ou ler sob a supervisão de alguém que possa elucidar pensamentos mais complexos ou fazer uma exegese da obra.

Na continuidade, é desvendar segredos, extrair preciosidades e crescer na capacidade de leitura. Depois da primeira vez, se necessário, leia novamente. Alguns autores e obras existem para serem relidos.

Mas, nada se compara à primeira vez. Ela tem gosto de mistério e descoberta.

A leitura dá as asas que tornam o livro um anjo com missão própria.

Uma lista para a pauta... livros para a pauta …

Quando interrogados sobre os livros prediletos, é comum revelarmos a lista que deixará no ouvinte, a melhor impressão quanto ao nível da qualidade de nossas escolhas como leitor. A situação é similar ao processo de divulgação de fotos pessoais, escolhemos as que  revelam os melhores ângulos.

Não há nada de errado quanto às duas situações. Em relação aos livros, apenas vamos passar uma imagem um pouco incompleta quanto ao tipo de leitura que realizamos. Mas, é uma questão pessoal.

O próprio Freud admitiu que a lista que forneceu como sendo de seus livros favoritos, na realidade, era composta por autores que ele considerava esplêndidos, mas não continha, necessariamente, as obras que lhe deixaram as mais fortes lembranças.

Ainda segundo o psicanalista vienense, se partisse do critério da agradabilidade, talvez aquela relação fosse alterada para incluir Emile Zola, Gomperz e Mark Twain, além de outros. Fica evidente que Freud não tinha muito do que lamentar da qualidade de sua lista, digamos ‘secreta’.

Mas, para os ‘simples mortais comedores de letras’ como eu, a história não é bem assim. Admito que quando sabatinada sobre preferências, também sou  seletiva. Costumo declarar as leituras às quais atribuo alto valor literário, grande poder informativo ou pelo inestimável valor humano do seu conteúdo.

Percebo que na lista não aparecem livros que me arrebataram pelo tipo de leitura fácil e prazerosa. Talvez devido a certa responsabilidade quanto às influências que posso imprimir nos outros, excluo, até injustamente, algumas experiências de leitura.

Assim, muitas vezes, deixo de declarar o quanto senti prazer, por exemplo, ao ler: O Perfume  de Patrick Suskind; A Cidadela de autoria de A. J. Cronin; O Vale das Bonecas de Jackeline Susann; Servidão Humana de Somerset Maugham, A Boa Terra de Pearl S. Buck e Pássaros Feridos de Colleen McCullough, entre outros inesquecíveis pela forma que prenderam minha atenção, sem esforço e com muito prazer.

Esses títulos, realmente, produziram em mim, grande arrebatamento e fluxo confortável de leitura. Puro deleite de leitor que buscava apenas, momentos de evasão.

O que motivou essa reflexão é certa inquietação que sinto quanto à estreiteza de critérios, na seleção de leituras, que muitas vezes impomos a nós e aos outros. Mas, o valor da leitura, não está apenas no livro em si, está também nas emoções e impressões que nos provoca.

Por isso, mesmo quando nossa pauta de leitura estiver atrasada ou com grandes lacunas, não devemos nos privar de, de vez em quando, nos lambuzarmos com uma leitura deliciosa que faça tremer a alma, sorrir da graça solta ou nos deixe bisbilhotar uma história frívola sem muito peso dramático ou valor literário.

É como pegar uma panela de deliciosos brigadeiros e, de vez em quando, fugir da dieta de pão integral e hortaliças. Vale a pena abandonar a atenção ao ímã dessas leituras. Deixar-se levar por obras que proporcionam momentos de  intimidade com  autores que adoram seduzir e inebriar.

Victoria de Henri Fantin-Latour Livros para as pausas…

Obra de Leonid-Afremov
O que nos reserva o tempo?

Chegou dezembro.

O tempo gira feito pião. Começam as inquietações quanto às promessas feitas ao ano que termina.

Nos festejos de dezembro do ano que acaba, firmamos uma lista de desejos e promessas.

Queríamos acertar o passo. Corrigir visões. Redefinir hábitos. E tudo isso, porque todos querem conquistar êxito e paz de espírito.

Mas, fiquemos atentos. As promessas feitas ao tempo são mais do que  desejos lançados ao vento. Elas revelam muito de quem prometeu.

Fazer um ritual para listar desejos é benéfico. É eficaz estabelecer um período  para fixar como nossos anseios se movem na passagem do tempo. Desdobrar objetivos em metas força-nos a avaliar progressos e involuções.

As ações  é que dão materialidade ao que somos. Razão pela qual, as promessas de fim de ano são projeções da forma como nos movemos em direção ao futuro. Seja a criança que brinca, o filosofo em reflexão, a pessoa comum em sua rotina ou  o artista em processo criativo, todos construímos o futuro realizando ações.

Portanto, o futuro depende do poder realizador e da eficácia das ações de quem as realiza. Então é preciso ficar atento e observar o modo de agir imanente às realizações eficazes.

E como seria esse agir próprio dos realizadores?

Vamos pensar em um menino brincando de pião.

Essa imagem ajuda a visualizar uma ação revertida de fatores que levam à eficácia. Foco, envolvimento, coerência.  O pião, o menino e o cordão em profunda ligação, como devem estar as ações, as metas e os propósitos que nos ligam à luta pela autorrealização.

É só observar: o garoto olha o brinquedo. Busca compreender sua dinâmica. A lógica dos movimentos. E encantado com girar estável do pião e visualizando a possibilidade de  ele próprio por o objeto em movimento, ele se lança à ação.

Então, acreditando-se capaz, ele firma o dedo indicador no pino e os demais dedos prendem o cordão em volta do pião. E pronto. Acontece.

E é a crença de ser capaz, ou a autoeficácia, que é a chama que aquece e dinamiza  projetos de vida. É comum, desistirmos de projetos por não acreditarmos na nossa capacidade realizadora.

Talvez seja essa a grande diferença entre desistentes e realizadores. Estes estabelecem uma fusão íntima entre desejo, compreensão e ação.

Autoeficácia. Sentir-se capaz. É esse o primeiro passo que torna possível imprimir estabilidade ao giro dos piões do tempo. Comemorar conquistas e encarar o que não foi possível realizar.

O tempo, tal qual um pião, gira silencioso e fixo. É preciso assumir o controle do calendário da existência. Utilizar sabiamente os dias para poder  extasiar os olhos diante da vida a girar no compasso pretendido e sentir-se fortalecido para lidar com as frustrações.

Oliver Wendell Holmes, um dos pensadores mais respeitados do século XIX, costumava dizer: ‘Para alcançar o porto pretendido, às vezes somos obrigados a velejar a favor do vento e às vezes contra, porém, é necessário velejar, e não ficar ancorados ou simplesmente flutuar.’.

Holmes resumiu nesta frase  as qualidades da realização plena. Vontade, foco, energia e ação.

Mover-se para o futuro com a decisão cheia de vontade e a alma leve alimentada pela esperança ...
Mover-se para o futuro com a decisão cheia de vontade e a alma leve alimentada pela esperança …

Obra de Tina Felice
Malefícios sob um olhar descrente…

Abra mão do hábito de preocupar-se excessivamente.

Além de não trazer benefícios, a contínua antecipação dos efeitos de problemas, que talvez nunca se materializem de fato, causa um sofrimento mental que nos rouba energia pessoal indispensável às reais batalhas diárias e, não raro, ocasiona terríveis danos psicossomáticos.

É fato. Seja tentando imprimir tempestividade à ação, seja na busca de aliviar tensões, a preocupação constante e excessiva acrescenta sofrimento mental devastador às inquietações próprias dos momentos de agir e decidir.

Outro efeito danoso da preocupação constante é que, preocupar-se pode virar hábito arraigado, portanto, difícil de eliminar. Como resultado, qualquer problema leva-nos a antecipações catastróficas, deflagradoras de emoções negativas, que levam o fracasso e a desesperança a formar o quadro mais perene à nossa frente. 

No estado de preocupação excessiva, a aceleração da expectativa aliada à intensificação exacerbada do impulso de agir sabota a capacidade de julgar num cenário de decisões e prejudica a habilidade de planejar com eficiência.

Tendo presente tal constatação, ceda o espaço ocupado pelo desgaste da preocupação obsessiva à serenidade própria de quem age firme e centrado.

Pare de transformar pensamentos ordinários sobre atos cotidianos em negatividade devastadora que traz a desesperança mórbida e que só permite visualizar riscos catastróficos e lembranças de escolhas malsucedidas.

Há atitudes que são antídotos para a desesperança: pensar com amplitude, tirar o foco do medo e imaginar a situação a enfrentar na perspectiva dos benefícios que trará.

Então, deixe-se guiar pela sua própria força interior. Exclua o pessimismo mórbido.

Como?

Substitua a corrente de pensamentos inquietantes pelo exame consciente da realidade e troque a preocupação doentia por esquemas de ação mobilizadores do melhor de seu potencial.

Em suma, quando a preocupação inútil persistir, lembre-se que a estrela da sorte está no pensamento claro, na ação planejada que ultrapassa receios infundados e nas emoções que impulsionam o agir e não o temor infundado do futuro.

Pintura de Alcides LopesO realismo vem da sensatez aliada à fé no futuro.

Obra de Fongwei Liu,
Transportar-se para territórios inusitados …

Ler é viajar. 

Essa afirmação tão corriqueira, certamente, refere-se às sensações de afastamento da realidade e prazer evocadas na experiência da leitura. Mas, se repararmos com atenção, é possível ver que a leitura em si é apenas um transporte. A viagem é obra do viajante, no caso, o leitor.

Cada leitor é um peregrino alado. Suas asas são a imaginação e a curiosidade. Asas que nos alçam às alturas da compreensão e sensibilidade que a leitura proporciona.

Todo viajante precisa de um plano de viagem, sendo leitores, precisamos de um ‘plano de voo’.

É impossível ler tudo o que queremos no tempo que almejamos. São tantas as escolhas possíveis, dentre a massa de títulos que compõem os estoques de livrarias, sebos, e bibliotecas. A saída é buscar atalhos que nos ajudem a abreviar esforço e tempo. Talvez, este seja o motivo do sucesso das listas de livros recomendados e de publicações do tipo ”livros para ler antes de morrer”, ‘livros para amar’ , ‘livros mais lidos pelos grandes escritores’.

E é justo reconhecer que essas ‘recomendações’ têm valor como indicadores que podem ser úteis para alcançarmos formas mais produtivas e prazerosas de ler.

Acontece que cada leitor precisa fazer viagens que o levem a lugares congruentes com as suas metas de médio e curto prazo ou com seu propósito de vida. E essa congruência é o que, antes de tudo, dará sentido e consistência às leituras.

Cada leitor, a partir de seus propósitos, firma um julgamento do que é a leitura e qual a sua finalidade.

Glustave Flaubert dizia que a gente lê para viver. Ele atribuía profundo sentido existencial à leitura. Franz Kafka dizia que a gente lê para fazer perguntas. Ou seja, o criador de ‘Metamorfose’, via a leitura como estímulo à capacidade crítica. Alberto Manguel, autor de ‘Uma História da Leitura’, explora a amplitude do ato de ler quando afirma: ‘Ler as letras de uma página é apenas um dos muitos disfarces da leitura.”

Apesar de cada leitor ter uma visão singular do valor e utilidade da leitura, há uma base comum de finalidades em cada gênero literário que permite traçar orientações que podem ser ponto de partida de bons ‘planos de voos’.

Vejamos algumas.

Quando o desejo é aprofundar o conhecimento de áreas técnicas, a opção é investir tempo na leitura de artigos, periódicos técnicos e manuais científicos. Eles fornecem o cabedal de informações que ajudam a manejar ideias teóricas com maior desembaraço. Se quisermos soltar a imaginação, a ficção é a melhor escolha. Se a ideia é aprimorar a capacidade reflexiva nos temas que nos são valiosos, a pedida é mergulhar nos ensaios que por sua natureza ampla permitem visualizar uma mesma temática sob múltiplos prismas.

Caso a leitura objetive o ganho de mais fôlego na compreensão filosófica da vida, então não há saída que não passe pela leitura de mestres da Filosofia, dos Socráticos aos Contemporâneos e Pós-modernos. Se o destino final é aumentar ou descobrir a própria capacidade de captar e expressar a realidade com sensibilidade, as linhas sensíveis da poesia são ótima trilha. Por último, se quisermos incrementar a capacidade de apreciação estética, os textos de dramaturgia e os livros de arte e fotografia são velhos e sábios amigos.

Agora, se você quer ler para escrever melhor, então, prepare-se. Sua pauta de leitura pode ser infinita. Considere tudo, dos clássicos aos últimos lançamentos. Literatura Nacional e Estrangeira – Romance, Ficção Científica, Terror. E ainda, Correspondências, Biografias, Viagens, Culinária, Poesia com ou sem rima, Mangá e gibi. Vai escrever ficção? Então, ler crítica literária é fundamental. Quer ser um bom ensaísta? Não há outro jeito a não ser mergulhar nos artigos, ensaios e críticas. Enfim, não há e não deve haver restrição, simplesmente leia com vontade de desembaciar suas lentes ou como dizia Marcel Proust de ‘Olhar para o seu mundo com os olhos do escritor’.

Seria possível continuar elencando opções, mas paremos aqui. Antes de finalizar, entretanto, nunca é demais lembrar que quando se trata de leitura, preconceito não ajuda. Quanto mais abrimos as portas da percepção e diversificamos a leitura, mais o ato de ler traz benefícios. Nada mais saudável do que, de vez em quando, deixar o ‘plano de voo’ de lado e entregar-se a um desses livros que de repente nos chegam às mãos.

Afinal, nada acontece por acaso, especialmente, quando se trata da magia de ler.

Obra de Iman Maleki
O leitor é um ser alado …