De certos livros, a leitura nunca cessa

Com quantos livros se faz um escritor? Ou, quantos livros alguém precisa ler para abraçar a escrita com proficiência?

Certa vez, li um artigo que se propunha a responder tal questão. O texto deixou-me pensativa.

O autor iniciava com uma declaração que dizia mais ou menos assim: ‘Digo a quem pretende começar a escrever agora, que não importa quantos livros tenha lido, já está com um déficit de leitura de pelo menos seis mil títulos’.

Confesso. O aspirante a escritor que habita em mim ficou assustado. Bateu-me um sentimento de raiva. Perguntava-me se o autor não teria a secreta intenção de levar à desistência, todos os que almejavam o ofício da escrita. (mais…)

 

Obra de Annick Bouvattier
A leitura desnuda o que ignoramos.

Quem nunca ouviu essa pergunta?

O motivo em torno da curiosidade sobre preferências de leitores é que os hábitos de quem lê dá indícios valiosos sobre quem ele é: ideias, preferências, curiosidades. Há mesmo quem diga que a leitura revela traços de personalidade.

De fato, quando respondemos sobre preferências pessoais, utilizamos critérios particulares do que seja um livro que deixe um registro duradouro na memória afetiva.

Nesse sentido, os livros de cabeceira revelam, realmente, aspectos singulares de quem os prefere.

Mas, o que é um livro de cabeceira? (mais…)

Qual é o alimento da alma?
Qual é o alimento da alma?

Como incentivar o hábito da Leitura?

Fazer exortações sobre o valor da leitura parece não ser eficaz para incentivar sua prática. Será mais efetivo demonstrar que o esforço de crescimento não prescinde de um programa de leituras regulares e pertinentes. 

As pessoas gostam de atividades que lhes tragam benefícios palpáveis e se possível, imediatos. Por isso, geralmente, quando se convida alguém a incrementar o hábito de ler, ouvimos argumentos que trazem implícita a seguinte pergunta:

‘E o que a leitura pode fazer por mim?’

Qualquer resposta a tal pergunta precisa incluir no seu conteúdo, os benefícios trazidos pelo hábito de ler. E quais são essas vantagens?

As faculdades desenvolvidas na leitura são transferíveis. Isso significa que quando lemos, aprimoramos habilidades que podem ser utilizadas em outras áreas de atuação.

Por meio da leitura, competências determinantes ao sucesso em qualquer setor são trabalhadas. Vale destacar algumas: a organização de ideias tende a ficar mais elaborada; a comunicação ganha maior expressividade; há maior consistência no argumentar. Além disso, a criticidade torna-se aguda e é expressa com nitidez e tato.

É importante lembrar que o bom estudante e o grande leitor têm vantagens intercambiáveis. Uma pessoa que lê regularmente terá facilidade para compreender e fixar com eficácia e menor esforço o que estuda.

A leitura convida ao estudo. Um caminho para formar bons estudantes é começar formando pequenos leitores. Lendo, vamos aprendendo a noção de esforço sem ansiedades e percebendo que retiramos da solidão e do silêncio, a concentração e não, necessariamente, o tédio.

A despeito de todos os benefícios práticos da leitura, talvez seja sua dimensão estética, como ação sensível e de prazer que dê grandeza ao ato de ler. Viver a leitura como experiência de sensibilidade é compreender o seu alcance para transformar-nos em alguém maior do que somos.

A leitura traz conhecimentos que nos ajudam a ultrapassar a dimensão prosaica da existência. Quando perguntado sobre qual seria o alimento da alma, Sócrates disse: o conhecimento. Para o pensador grego, o conhecimento era palavra mágica e sem leitura, o conhecer será sempre menos rico do que poderia ser. 

A leitura dá acesso ao conhecimento. Sua prática nos reveste de poderes como as palavras pronunciadas por super-heróis para terem dons extraordinários.

Nada de espadas, capas ou anéis mágicos, é o conhecimento que nos chega pela leitura que agiganta a capacidade de compreender e usufruir o real.

O bom hábito traz vantagens. E o hábito da leitura traz benefícios incomparáveis. Quando os gregos antigos queriam fazer mal aos inimigos, desejavam que adquirissem um mau hábito. Certamente, os gregos não queriam que os inimigos fossem grandes leitores.

Relatos de infância, mostram que personalidades notáveis descobriram o poder dos livros precocemente. No conto Felicidade Clandestina, Clarice Lispector refere-se ao livro: Reinações de Narizinho como ‘um livro para ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o’. Para ela, um livro é o amor pelo mundo. Jean Paul Sartre conta que, menino, vagabundeava pela biblioteca do avô e ‘dava assalto à sabedoria humana. Foi ela (a biblioteca) quem me fez’.

A leitura não substitui os atos humanos capazes de forjar o espírito e o caráter, mas é experiência de compreensão ampla da realidade. O ato de ler é como o abrir portais para mundos de significados e possibilidades.

No livro A menina que roubava livros, por exemplo, uma pequena judia utiliza livros como mapas para guiar sua existência numa Alemanha infectada pelo nazismo. A vontade de ler deu propósito a uma vida marcada pela fome e pela angústia de uma criança num mundo sem esperança.

De certa forma, os que apreendem o sentido da leitura são movidos pelo mesmo propósito:  desvendar os mapas da condição humana nos mundos que criamos.

O hábito da leitura traz benefícios incomparáveis.
O hábito da leitura traz benefícios incomparáveis.