Uma lista para a pauta... livros para a pauta …

Quando interrogados sobre os livros prediletos, é comum revelarmos a lista que deixará no ouvinte, a melhor impressão quanto ao nível da qualidade de nossas escolhas como leitor. A situação é similar ao processo de divulgação de fotos pessoais, escolhemos as que  revelam os melhores ângulos.

Não há nada de errado quanto às duas situações. Em relação aos livros, apenas vamos passar uma imagem um pouco incompleta quanto ao tipo de leitura que realizamos. Mas, é uma questão pessoal.

O próprio Freud admitiu que a lista que forneceu como sendo de seus livros favoritos, na realidade, era composta por autores que ele considerava esplêndidos, mas não continha, necessariamente, as obras que lhe deixaram as mais fortes lembranças.

Ainda segundo o psicanalista vienense, se partisse do critério da agradabilidade, talvez aquela relação fosse alterada para incluir Emile Zola, Gomperz e Mark Twain, além de outros. Fica evidente que Freud não tinha muito do que lamentar da qualidade de sua lista, digamos ‘secreta’.

Mas, para os ‘simples mortais comedores de letras’ como eu, a história não é bem assim. Admito que quando sabatinada sobre preferências, também sou  seletiva. Costumo declarar as leituras às quais atribuo alto valor literário, grande poder informativo ou pelo inestimável valor humano do seu conteúdo.

Percebo que na lista não aparecem livros que me arrebataram pelo tipo de leitura fácil e prazerosa. Talvez devido a certa responsabilidade quanto às influências que posso imprimir nos outros, excluo, até injustamente, algumas experiências de leitura.

Assim, muitas vezes, deixo de declarar o quanto senti prazer, por exemplo, ao ler: O Perfume  de Patrick Suskind; A Cidadela de autoria de A. J. Cronin; O Vale das Bonecas de Jackeline Susann; Servidão Humana de Somerset Maugham, A Boa Terra de Pearl S. Buck e Pássaros Feridos de Colleen McCullough, entre outros inesquecíveis pela forma que prenderam minha atenção, sem esforço e com muito prazer.

Esses títulos, realmente, produziram em mim, grande arrebatamento e fluxo confortável de leitura. Puro deleite de leitor que buscava apenas, momentos de evasão.

O que motivou essa reflexão é certa inquietação que sinto quanto à estreiteza de critérios, na seleção de leituras, que muitas vezes impomos a nós e aos outros. Mas, o valor da leitura, não está apenas no livro em si, está também nas emoções e impressões que nos provoca.

Por isso, mesmo quando nossa pauta de leitura estiver atrasada ou com grandes lacunas, não devemos nos privar de, de vez em quando, nos lambuzarmos com uma leitura deliciosa que faça tremer a alma, sorrir da graça solta ou nos deixe bisbilhotar uma história frívola sem muito peso dramático ou valor literário.

É como pegar uma panela de deliciosos brigadeiros e, de vez em quando, fugir da dieta de pão integral e hortaliças. Vale a pena abandonar a atenção ao ímã dessas leituras. Deixar-se levar por obras que proporcionam momentos de  intimidade com  autores que adoram seduzir e inebriar.

Victoria de Henri Fantin-Latour Livros para as pausas…

Fonte de sabedoria, a história dos sábios são livros abertos à nossa espera.

Reconhecendo o caráter formativo da leitura, quem não gostaria de conhecer os livros preferidos de ídolos e mestres?

Os hábitos e preferências de um leitor dão indícios sobre sua personalidade e forma de pensar. Por essa razão, a biblioteca pessoal ou conjunto de leituras já realizadas por alguém fornece um mapa existencial que pode orientar outros leitores a iniciar ou avançar num caminho de formação.

Assim sendo, conhecer as fontes de conhecimento de sábios e realizadores extraordinários pode ajudar na obtenção de modelos de pensamento mais eficazes e processos mais nítidos de formulação de ideias. 

E quem há de negar que com um processo de pensamento mais claro, os critérios de escolhas, julgamento e decisão sobre a realidade tornam-se mais eficientes, permitindo um curso de ação bem-sucedido?

Portanto, não duvide: seus mestres, ídolos ou heróis liam e tinham um propósito ao escolher suas leituras.

Pesquise um pouco e verá que inúmeras personalidades e vultos históricos têm dado declarações de como as leituras e métodos de estudo de mestres e ídolos tiveram poderosa influência nas suas trajetórias.

Exemplos disso não faltam.

Immanuel Kant,o maioral do Iluminismo, admitiu:‘Confesso que David Hume me despertou, pela primeira vez, do meu sono dogmático’. E quando Nietzsche leu ‘O mundo como vontade e representação’ de Schopenhauer, sentiu-se atraído pelo pensamento ali expresso. A leitura teve realmente repercussão definitiva na elaboração das ideias e na própria vida do autor de ‘Assim Falava Zaratustra’, que por sua vez, influenciou os existencialistas.

Freud, por seu lado, citava a ‘versatilidade de talentos e extensão do saber’ de Leonardo da Vinci tendo pesquisado as fontes de leitura do criador da Monalisa.

Por falar em Sigmund Freud, o que será que lia tão eminente figura? Que obras foram marcantes para o vienense que descobriu o inconsciente?

Basta ler uma das obras de Freud e, de pronto, querer saber o que ele lia. Sua grande erudição, sua capacidade de estabelecer ricas relações entre várias áreas de conhecimento, para dar clareza didática à expressão das ideias. Além desse aspecto, suas explicações são tecidas de forma ampla em textos, cujos conceitos estão cercados multilateralmente, antecipando objeções.

Ali, tudo indica o trabalho de um estupendo leitor.

E tendo sido grande leitor, é quase impossível nomear todas as obras que se destacaram para Freud; mas no volume IX das Obras Completas da Edição Standard Brasileira, ele próprio nomeia essas obras.

São elas: a Ilíada e a Odisseia de Homero; as tragédias de Sófocles; o Fausto de Goethe, Hamlet e Macbeth de Shakespeare; a Descendência do Homem de Darwin; o Paraíso Perdido de Milton; o Lázaro de Heine; o Livro da Selva de Rudyard Kipling; as Poesias de Anatole France; Fécondité de Émile Zola; e tudo o que escreveu Mark Twain.

Figuram ainda entre aquelas obras primas, as do poeta, médico e historiador alemão Friedrich Schiller e uma biografia de Da Vinci, de autoria de Dmitry Merezhkovsky.

Esse levantamento pode ser visto como um exercício banal ou inútil, mas também pode ser um estímulo aos que queiram incrementar sua jornada pessoal de formação.

O caminho de Freud é uma amostra de que nenhuma jornada prescinde de esforço, mas que é possível usar percursos modelares no enfrentamento das vicissitudes do caminho escolhido com maior lucidez.

Os livros são portas abertas.
Os livros são portas abertas.

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Somente a leitura cria o leitor …

 A leitura é base da formação cognitiva, do enriquecimento cultural e do aprimoramento profissional.

O hábito de ler também está associado à ampliação da consciência individual quanto à nossa função político-social e ao crescimento espiritual, sendo visto como fator inalienável quando o objetivo é a promoção dos níveis de qualidade de vida

Confrontadas com tal realidade, as pessoas sentem-se cada vez mais convocadas a rever hábitos a fim de criar cenário pessoal favorável à prática da boa leitura. 

Quando a decisão é arregaçar as mangas, digo, os olhos,  e abraçar a vontade de transformar-se em leitor assíduo, algumas observações são básicas e poderiam compor qualquer cartilha de estímulo à formação do leitor.

Arrisco-me a elencar algumas dessas medidas.

Inicialmente, analise seus interesses. Procure textos e livros que o aproximem de assuntos afins e correlatos. O interesse exerce força de atração que nos ajuda a perseverar na leitura.  Com o tempo, vá diversificando autores, temas e estilos. Há leitores que leem muito do mesmo, o que pode levar à monotonia e desistência. 

Na leitura de ficção, opte por obras com valor literário; às vezes, mesmo quando a história é interessante, o texto está expresso de forma pobre. Nesse caso, o ato de ler diverte, mas não contribui para o enriquecimento da linguagem. De vez em quando, não é proibido ler obras pela simples busca de evasão e diversão, mas se puder aliar diversão e qualidade cultural, você só tem a ganhar.

Inclua no orçamento, algum valor que permita a compra de um livro, pelo menos a cada três meses. Isso, inclusive, pode ajudar na dieta.

Alguns livros clássicos, lançados por edições de bolso ou populares, muitas vezes, custam menos do que alguns sanduíches do tipo fast-food. Você se enriquece culturalmente, aumenta o repertório de ideias, torna-se uma companhia mais estimulante e alimenta o próprio espírito.

Livre-se dos preconceitos. Aproveite todas as oportunidades para ler. Adote uma atitude experimental e tente ler livros que estejam abandonados na estante. Aquele livro velho ou de capa pouco atraente pode reservar ótimas surpresas.

Se você tem dificuldades de manter a atenção, leia livros com capítulos curtos. Quando surgir a vontade de abandoná-lo, imponha-se a missão de só parar, quando finalizar o capítulo e marque o dia do novo ‘encontro’.  Essa estratégia vai impedir que você largue a leitura. Cada livro que a gente abandona enfraquece o desejo de iniciar e finalizar outro.

Fuja da pressa. No início, leia pausadamente, pronunciando mentalmente as palavras, isso facilita a compreensão e estimula a continuidade da leitura. Com  o tempo você vai desenvolvendo técnicas que dão velocidade à leitura sem perda de qualidade.

Veja televisão, mas não ocupe todo o seu tempo. Groucho Marx, o brilhante comediante e ator americano, costumava dizer: “Acho a televisão muito educativa. Toda vez que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e abro um livro.”.

A televisão tem realmente grande apelo plástico e disponibiliza muita informação, contudo, não nos dá tempo para reflexão. Somos bombardeados por informações que acabam sendo eliminadas pelos centros de cognição sem muita utilidade para o exercício da capacidade crítica-reflexiva que a leitura, por exemplo, proporciona, de forma significativa.

A poetisa Emily Dickinson dizia que “Não há melhor fragata do que um livro, para nos levar a terras distantes.”

Embarcando nessa inspiração, interrompo, aqui, essa conversa e convido-lhe a ir à estante, pegar um livro, folheá-lo e quem sabe iniciar a viagem ao mundo encantado que só os leitores conseguem visitar.

Ler é estar acompanhado.
Ler é estar acompanhado.

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Os livros nos impulsionam

Existe uma ligação dos livros com o futuro?

Uma velha mestra dizia aos alunos que tudo o que eles precisavam saber para construir seus futuros estava ‘escondido’ na biblioteca da escola. Eles só precisariam frequentá-la para ‘descobrir’ o tesouro.

E a sábia professora sabia do que falava. Afinal, sem os livros, o que seria da transmissão de informações e da construção dos saberes?

Mas, em que pese seu valor social e educativo, o apreço pela leitura não é unânime. Há quem a ignore por não enxergar sua ‘utilidade e a nossa realidade estudantil registra o leitor ‘cativo’, tangido à prática apenas pelas obrigações escolares.

Felizmente, existem os leitores costumeiros. Pessoas que desenvolveram o hábito da leitura pela consciência do seu papel. Gente que frequenta bibliotecas, troca, doa e pede livro emprestado. Enfim, faz tudo para ler.

No universo dos que costumam ler, há inúmeros tipos de leitores pelo modo como se relacionam com os livros. E sabemos o peso que a formação de leitores (sociedade, família, escola) tem para definir o modo como cada um se liga aos livros e desenvolve sua prática de leitura.

Há devoradores de best-sellers. Leitores optantes por leitura fluída, que não exige muito esforço de elaboração mental. Consomem livros como se estivessem num supermercado. Vão direto às prateleiras de produtos aprovados pelo grande público.

Há os leitores que consomem livros como ferramentas. Eles investem em livros de caráter técnico, afinados às suas necessidades profissionais. Em contrapartida, existem leitores que veem o livro como objeto de deleite. São guiados pela vontade de cultivar erudição; desfrutar dos clássicos, elevar-se nas asas da poesia ou viajar em biografias, ficção, memórias

Mas o que dizer dos leitores épicos? Modelos exemplares pela forma como suas histórias de vida foram definidas pelo hábito de leitura.

Jorge Luis Borges, escritor argentino, pode ser um considerado um desses leitores modelares. Seus textos, sua vida, seus hábitos, tudo o que o representava se definia pelo fato de ele ser um voraz leitor.

Em 1978, Borges fez uma palestra memorável, na qual declarou sua devoção pelos livros e o hábito de devorar enciclopédias. Vitimado pela cegueira, nunca desistiu do contato físico com os livros e dizia de si próprio: ‘sou um leitor de páginas que meus olhos já não podem ver’.

E nós? Como nos relacionamos com esses objetos que são naves mágicas que fazem, lentamente, nossa travessia até o futuro? Que tal nos reinventarmos como leitores?

Miguel Sanches Neto, autor do livro Herdando uma Biblioteca, diz que enquanto não é lido, o livro é simplesmente papel impresso, pois são os olhos do leitor que o inauguram.

Realmente, é a leitura que transmuta o livro de simples objeto físico em instrumento de transformação. Mas é bom não esquecer: um livro aberto mantém a esperança de que a qualquer momento, nasce um leitor.

Então, voemos, mais e mais alto, nas páginas dos livros.

Obra de Richard Geiger
Os livros estão sempre bem acompanhados…

A leitura é um exercício de liberdade...
A leitura é exercício de liberdade…

Leitura. Eis um assunto cuja anunciação pode produzir atração ou repulsa.

Aos leitores devotados, tudo o que se refere a livros é valioso e digno de atenção. Às vezes, até de adoração. Já, para quem não percebe sentido no ato de ler. Para eles, ler é quase um sacrifício.

E que motivos nos dividem, de forma tão marcante, quanto ao gosto pela leitura, entre leitores e não-leitores? (mais…)

Gestão pessoal do conhecimento ...

(Este ensaio foi publicado em janeiro de 2009 e agora, é reeditado. Sucesso entre os leitores, essa reflexão sobre a navegação no universo do conhecimento objetiva ajudar na tarefa de gestão pessoal do conhecimento, cada vez mais árdua)

 
 

É inegável. Depois que Gutenberg inventou a primeira impressora, no século XV, a história da humanidade não foi mais a mesma. (mais…)