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As ideias não nascem do vazio

‘Eu realmente preciso ler?’

Já ouvi muito essa pergunta. E, pasmem, até de alunos de cursos de pós-graduação.

Certa vez, um rapaz que acabara de concluir a graduação, confessou jamais haver lido um único livro. Perguntado sobre como cumprira a lista de leituras exigidas no vestibular, respondeu-me que havia lido resumos emprestados de uma colega.

O exemplo é desolador quanto às possibilidades de construção de formações profissionais sólidas e confiáveis, mas o fato é que há estudantes que não consideram a leitura, mesmo remotamente, uma atividade necessária. (mais…)

 

Leituras que nos formam

É impossível alcançar elevação intelectual prescindindo de leituras pertinentes ao crescimento que desejamos obter, seja em conhecimento ou habilidades.

Razão pela qual é inegável o papel da leitura em todo processo de formação.

Seja para fins de desenvolvimento humano ou no preparo profissional, precisamos de leituras que sedimentem competências cognitivas, sensíveis e práticas.

A questão é que nem toda leitura provoca impactos benéficos e duradouros, daí a importância de, de vez em quando, avaliarmos o emprego do tempo dedicado aos livros. (mais…)

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Um roteiro pessoal de leituras

Os leitores mais assíduos costumam seguir um itinerário de leituras.

De forma geral, eles têm uma pauta mínima sobre o que vão ler em determinado período.

Uma pauta de leitura é uma relação previamente elaborada dos livros que, na visão do próprio leitor, devem ser lidos em certo espaço de tempo, conforme critérios definidos.

Hoje, todas as atividades das diferentes áreas da existência humana assimilam cada vez mais conhecimento e impõem maciça necessidade de constante atualização. Realidade que faz do planejamento, prática cada vez mais comum.

O leitor pode estar buscando aprendizagem especializada, formação geral, amadurecimento intelectual ou apreciação estética, mas independente de seus objetivos, ele não poderá prescindir de uma carga de leituras que deve seguir um roteiro que torne a jornada menos sinuosa. (mais…)

A tentativa de responder se há ou não falsos leitores precisa considerar, antes, o que seria um leitor.

Há inúmeros critérios que definem quem pode ser considerado um leitor. Para o senso comum, o leitor é alguém que pode ler e faz uso dessa faculdade quando tem vontade ou necessidade.

Mas, há critérios técnicos para conceituar um leitor. Os institutos e clubes de difusão da leitura costumam ter parâmetros quantitativos para estabelecer suas próprias definições. O Instituto Pró-Livro, por exemplo, adota um critério quantitativo e considera leitor toda pessoa que leu pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos três últimos meses. (mais…)

Mallarmé por Edouard Manet, 1876
Mirar, apontar e transpor a leitura até a vitória final

O que é um livro intransponível?

É todo livro célebre que gostaríamos de ler, mas desistimos da leitura, por falta de disposição para ultrapassar as centenas de páginas que nos separam do seu ponto final.

E a razão para que os leitores rotulem os livros de intransponíveis é a crença de que um livro é volumoso por causa de problemas que apresenta e não pela sua importância.

É como se o livro extenso fosse automaticamente maçante. Como se, ao invés de anunciar o preparo ou criatividade do autor, denunciasse sua prolixidade e incapacidade de escrever com estilo vibrante.

Mas o que fazer para ‘embaçar’ essa visão? Como redimensionar o olhar e mudar as crenças que nos afastam da leitura? (mais…)

Às vezes, nos fechamos à leitura de certos livros...
Às vezes, nos fechamos à leitura de certos livros …

Quem nunca sentiu certo frio na barriga (ou seria nos olhos?) diante de uma prateleira na qual tenha se deparado com um ‘gigante’ da Literatura Universal?

Quem, numa biblioteca, jamais refreou a mão que se dirigia aos monumentos da Filosofia, num ataque súbito de insegurança, por receio de não ser um leitor à altura daquela obra?

Cada pessoa tem seus desejos e necessidades de estudos.

Entretanto, mesmo quando nos referimos à pauta pessoal de leitura, há dois fatos incontestáveis. Primeiro é que existem livros indispensáveis à nossa formação. Segundo, é impossível pensar em  aquisição do gosto pelo estudo que não passe pelo hábito de ler.

Então, dado o incontestável valor do estudo e da leitura para o nosso preparo, o  que nos leva, muitas vezes, a firmar resistência quando se trata da leitura de determinados livros?

A resposta à questão passa por um pensar mais detalhado sobre os fenômenos envoltos nessa resistência.

A cada um de nós, o livro se apresenta com atmosfera própria que lhe atribui certa aura. E é essa aura que nos leva a vê-lo como ímã  atraindo inexoravelmente a atenção ou como um ser detentor de sortilégio repulsivo, levando-nos a eliminá-lo como provável leitura.

E, talvez, seja pelo fato de essas resistências estarem ligadas a crenças, às vezes ilógicas, que para muitos de nós, é difícil se embrenhar nas páginas do livro ‘temido’.

E esse fenômeno é mais generalizado do que se pensa.

Não são poucos escritores, cientistas e até filósofos que relataram  resistência a certas obras. E pelo mesmo motivo. Eles atribuíam valor tão elevado às obras ou aos autores, que isso repercutia nas suas próprias crenças como pessoas capazes de  ‘dar conta’ da leitura.

O fato é que essas obras lhes pareciam intransponíveis. Seja pelo valor do autor; seja pelo volume de páginas; ou pela complexidade do conteúdo ou  textura  elaborada de sua redação.

E não há um tipo específico de livro que possa ser classificado como sendo ‘intransponível’. Contudo, os livros clássicos nas áreas de ciência, literatura e filosofia costumam ser os mais atingidos pelo fenômeno. A própria denominação ‘clássico’ traz um peso.

Trazendo exemplos dos efeitos desse fenômeno à nossa formação profissional, é possível constatar que: há advogados que jamais leram Montesquieu; psicólogos e psiquiatras que deixaram os volumes da coleção de Freud comendo poeira na estante; professores que nunca ‘ousaram’ ler as obras de Paulo Freire e Piaget; teólogos que ‘exorcizaram’ (desculpe o trocadilho infame) a leitura dos próprios livros religiosos e, até cientistas políticos que cassaram obras como A República (Platão) ou o Leviatã (Hobbes)  de seus regimes de estudo.

Os exemplos acima, apesar de arbitrários, podem se encaixar na realidade de muitos profissionais que, vítimas desse ‘temor’, deixam leituras obrigatórias à margem de seu processo formativo.

E qual seria o antídoto para esse fenômeno?

O fato é que não há panaceias. Mas, é possível deixar de lado o receio das dificuldades de compreensão e adotar disposição de ânimo curiosa e firme para virar a chave da mudança de hábitos. Só assim será possível, por mãos à obra na caça ao tesouro do saber. 

Algumas dicas podem ajudar.

Preferir edições que tragam elementos de contextualização da obra e do autor: apresentação, prefácio, notas explicativas. E iniciar a leitura, sempre, por esses elementos.

Ter em mãos (ou às vistas) bons dicionários.

Se possível, convidar um parceiro de leitura ou ler sob a supervisão de alguém que possa elucidar pensamentos mais complexos ou fazer uma exegese da obra.

Na continuidade, é desvendar segredos, extrair preciosidades e crescer na capacidade de leitura. Depois da primeira vez, se necessário, leia novamente. Alguns autores e obras existem para serem relidos.

Mas, nada se compara à primeira vez. Ela tem gosto de mistério e descoberta.

A leitura dá as asas que tornam o livro um anjo com missão própria.

Uma lista para a pauta...
livros para a pauta …

Quando interrogados sobre os livros prediletos, é comum revelarmos a lista que deixará no ouvinte, a melhor impressão quanto ao nível da qualidade de nossas escolhas como leitor. A situação é similar ao processo de divulgação de fotos pessoais, escolhemos as que  revelam os melhores ângulos.

Não há nada de errado quanto às duas situações. Em relação aos livros, apenas vamos passar uma imagem um pouco incompleta quanto ao tipo de leitura que realizamos. Mas, é uma questão pessoal.

O próprio Freud admitiu que a lista que forneceu como sendo de seus livros favoritos, na realidade, era composta por autores que ele considerava esplêndidos, mas não continha, necessariamente, as obras que lhe deixaram as mais fortes lembranças.

Ainda segundo o psicanalista vienense, se partisse do critério da agradabilidade, talvez aquela relação fosse alterada para incluir Emile Zola, Gomperz e Mark Twain, além de outros. Fica evidente que Freud não tinha muito do que lamentar da qualidade de sua lista, digamos ‘secreta’.

Mas, para os ‘simples mortais comedores de letras’ como eu, a história não é bem assim. Admito que quando sabatinada sobre preferências, também sou  seletiva. Costumo declarar as leituras às quais atribuo alto valor literário, grande poder informativo ou pelo inestimável valor humano do seu conteúdo.

Percebo que na lista não aparecem livros que me arrebataram pelo tipo de leitura fácil e prazerosa. Talvez devido a certa responsabilidade quanto às influências que posso imprimir nos outros, excluo, até injustamente, algumas experiências de leitura.

Assim. muitas vezes, deixo de declarar o quanto senti prazer, por exemplo, lendo: O Perfume  de Patrick Suskind; A Cidadela de autoria de A. J. Cronin; O Vale das Bonecas de Jackeline Susann; Servidão Humana de Somerset Maugham, A Boa Terra de Pearl S. Buck e Pássaros Feridos de Colleen McCullough, entre outros inesquecíveis pela forma que prenderam minha atenção, sem esforço e com muito prazer.

Sei que minha lista nem é tão trash, mas procurei ser honesta quanto ao nível de arrebatamento e comodidade na leitura. Puro deleite de leitor que busca apenas, momentos de evasão.

O que motivou essa reflexão é certa inquietação que sinto quanto à estreiteza de critérios, na seleção de leituras, que muitas vezes impomos a nós e aos outros. Mas, o valor da leitura, não está apenas no livro em si, está também nas emoções e impressões que nos provoca.

Por isso, mesmo quando nossa pauta de leitura estiver atrasada ou com grandes lacunas, não devemos nos privar de, de vez em quando, nos lambuzarmos com uma leitura deliciosa que faça tremer a alma, sorrir da graça solta ou nos deixe bisbilhotar uma história frívola sem muito peso dramático ou valor literário.

É como pegar uma panela de deliciosos brigadeiros e, de vez em quando, fugir da dieta de pão integral e hortaliças. Vale a pena abandonar a atenção ao ímã dessas leituras. Deixar-se levar por obras que proporcionam momentos de  intimidade com  autores que adoram seduzir seus leitores.

Victoria de Henri Fantin-Latour
Livros para as pausas…