A primeira vez que entrei num centro cultural foi um assombro. Fiquei encantada. Como poderia existir um lugar com tanta arte sem ser um museu? Lembro-me de que havia uma exposição de bucólicos casarios pintados por vários artistas em um salão e, no outro, uma mostra de arte efêmera. Aquilo pulsou em mim com a força de uma pincelada de Rembrandt.

Depois desse dia, virou hábito. Quando chego a uma cidade, é o primeiro local que tenho vontade de ir. Não sei se o desejo vem da atração ampla e difusa que a arte exerce sobre todos nós; ou por minha vontade de ver as particulares manifestações artísticas de tempos e pessoas distintas. Sei que aos meus olhos tudo pulsa. Seja numa peça ou numa complexa instalação; seja numa pintura. Pode ser até numa crônica sobre o poder da arte. Não importa, é sempre experiência de arrebatamento e saio acrescida de algo que me faz sentir parte da civilização.

Tem gente que deixa de ir a eventos artísticos alegando só frequentar parques verdes e locais ao ar livre. Esses programas são, de fato, momentos em que nos confraternizamos com a mãe natureza tão maltratada. Mas será que isso exclui a chance de visitar uma casa de artes?

Eu, particularmente, acho que há um consórcio inseparável entre natureza e arte. Nesta, de repente, pode haver, como numa gota d’água, a junção perfeita entre proporção e equilíbrio na divina manifestação de caos deliberado que move a mão de todo artista.

Talvez por isso, diante de obras de arte, sinto-me sempre como se estivesse ao ar livre; pisando em folhagens num dia dourado que estende o tempo até que a tarde se torne lívida e caia uma noite estrelada pintada pelo próprio Van Gogh sob meu olhar feliz.

Há um papel formativo na experiência estética.
O papel formativo da experiência estética.

Além da função primária da arte de provocar nas pessoas certo arrebatamento sensível, qual seria seu papel no processo educativo? 

Os estudos das Ciências Humanas sobre as funções da arte têm levado à percepção da sua força como experiência estimulante com efeito benéfico no processo educativo.

Tanto o deleite estético, quanto a prática e o conhecimento artísticos extraem e fomentam em nós uma potência criadora, uma vez que nos instigam a exercitar as capacidades de representação e expressão que são básicas, estando presentes nos diversos tipos de competências.

Quando examinamos a própria etimologia da palavra educação, percebemos que ela tem origem etimológica dupla ligada a essas duas funções: representar e expressar.

Senão, vejamos. O primeiro significado de educação vem de educare significando a condução do sujeito de um ponto a outro, num movimento que precisa ser feito (representado) para o seu desenvolvimento. O segundo sentido vem do termo educere ligado ao esforço a ser dedicado para expressão do potencial de dentro para fora.

Adotando um ou outro significado, veremos que a arte não é fator coadjuvante na formação humana. A experiência estética condiciona rotas de formação pessoal capazes de instrumentalizar o esforço de autorrealização.

A centralidade da experiência estética para a educação pode ser vista no próprio exame da tradição filosófica ocidental. Em Platão e Aristóteles, é possível verificar obras que já abordam a criação artística como área de estudo no esforço de educar e politizar.

E são tantos os meios para o enriquecimento estético! 

Ir a um museu. Ler prosa ou poesia. Assistir a filmes e peças de teatro. Folhear com disposição analítica um livro de arte, sejam pinturas ou fotografias. Ir a exposições: ver escultura, pintura, arte performática, artesanato. Observar as belezas naturais buscando sua qualidade harmônica. Ampliar o conhecimento sobre a Arte.

São fartos os caminhos. Todos levam ao acúmulo de um tesouro de vivências práticas e sensíveis com ação aglutinadora das demais experiências.

A arte expressa a capacidade organizativa e adaptativa do homem em relação ao mundo, nos põe em contato com a potência humana realizadora. Por isso, a contemplação e experimentação artísticas são reforçadores do senso de valor pessoal.

De fato, desfrutar da arte é um fortificante da autoestima. É quase automático. Quando desfrutamos da arte, ratificamos a capacidade criativa dos semelhantes, firmamos consciência de que fazemos parte do gênero humano e, portanto, somos criadores e realizadores em potencial.

Will Gompertz, editor de artes da BBC de Londres, diz que ‘o homem produz arte para dar forma ao caos e pôr a vida sob controle’. E de fato, a aridez estética é incompatível com a avidez humana por experiências sensíveis.

Em síntese, se pensarmos na amplitude de tipos de manifestações estéticas e o alcance e efeito que elas apresentam sobre a alma e a percepção do homem, é difícil não reconhecer a essencialidade da arte.

A aridez estética é incompatível com a avidez humana por experiências sensíveis.
A aridez estética é incompatível com a avidez humana por experiências sensíveis.