Equilibrar-se na vida. Superar obstáculos tendo noção das dádivas e pesos carregados.

Todos nós acreditamos que vivemos uma vida com propósito. E essa pressuposição faz sentido. Precisamos crer nos pontos cruciais que formam nossa identidade – síntese que dá suporte para visualizar anseios e firmar um projeto de vida.

Nosso propósito é uma estrela-guia nos mares da existência. Há quem diga que todos temos apenas um propósito: (mais…)

Damião Martins
O trabalho entrelaça pessoas

Entre os profissionais da área de orientação profissional,  é consenso que as redes de relações firmadas no trabalho trazem impactos profundos à forma como as carreiras são edificadas.

Especialistas em comportamento organizacional também mostram como as redes de relacionamentos e a forma como expressam competências relacionais são indissociáveis dos resultados construídos nas empresas

As relações construídas a partir de experiências profissionais em comum formam  uma network. Uma configuração de relações tecida pela coincidência de percursos que insere pessoas num grupo de profissionais.

Uma network se estrutura por diversos motivos. Formação acadêmica similar, área de atuação comum, proximidade geográfica. São exemplos de porque vamos nos juntando no mundo do trabalho.

Uma network, entretanto, não se firma apenas pela coincidência de percursos, é preciso que haja consciência de pertencimento e trocas humanas visando a manutenção e saúde dos laços estabelecidos.

Compor certa rede de relações de trabalho é sentir-se parte de um grupo com histórias conectadas por elo significativo ao exercício profissional.

Uma das redes de que faço parte, é a de psicólogos que trabalham para deixar mais humanos os processos de seleção de pessoal nas organizações.

Há mais de vinte anos, sou colaboradora em R&S do maior banco do país. Entrei para o quadro por meio de seleção interna.

Inscritos no certame, mais de quinhentos psicólogos queriam ampliar sua área de atuação na empresa.

Foram várias etapas. Um processo rigoroso.

Primeira fase: análise de currículo comentado. Declaração do nível de conhecimento de tarefas próprias de Recrutamento e Seleção.

Na segunda etapa, éramos pouco mais de duzentos. Nesse universo, havia  freudianos, rogerianos, lacanianos, reichianos, behavioristas, ecléticos, plurais.

Após a segunda etapa, realizada em Brasília, éramos setenta e duas pessoas que passariam por um curso de preparação. Os cursos foram realizados em duas turmas. Uma em Brasília e a outra, no Rio de Janeiro.

Então, foi começar a trabalhar. Trabalho sério, carinho, respeito e admiração mútua. E muito aprendizado com tanta gente competente e querendo fazer o trabalho perfeito.

Quantos profissionais dispersos em diferentes estados, mas juntos na vontade e orgulho de fazer parte daquele grupo. Nomes, histórias de vida e lugares encontrando-se, reencontrado-se.

Quando me perguntam sobre Network, um dos primeiros grupos que me vem à mente é o daquele grupo de psicólogos.

Colheita de flores do campo.Damião Martins
Toda colheita entrelaça histórias de vida

 

 

Envolvimento e coerência tornam a ação perfeita…

Novembro. Penúltimo mês do ano. Começam as inquietações quanto às promessas feitas  na passagem do ano.

E o balanço é positivo? O que foi realizado é satisfatório? o que foi adiado? E o que impediu a materialização dos compromissos firmados?

O balanço anual não retrata apenas uma porção de desejos. Ele revela muito do jeito de ser e atuar de quem prometeu.

O ritual da lista de desejos é benéfico. É bom estabelecer um período  para demarcar o que buscamos. Desdobrar propósitos em objetivos força-nos a avaliar a materialização progressiva dos propósitos de vida.

Estamos no que fazemos. As promessas de fim de ano são projeções de nós, da forma como nos movemos para o futuro. As ações são o próprio sentido do que somos. Seja a criança que brinca, o filosofo em reflexão, a pessoa comum na sua rotina ou  o artista em processo criativo, todos construímos futuro realizando ações.

E o futuro depende em muito do poder realizador e da eficácia das ações realizadas.

Se precisamos agir e agir com eficácia, há um modo de agir imanente às realizações eficazes?

Talvez um imagem ajude a responder à pergunta. Vamos pensar em um menino brincando com o um pião. O garoto olha o brinquedo buscando compreender a sua lógica. Apreende-a encantado com a possibilidade de ele próprio ser capaz de por o objeto em movimento estável. Então, firma o dedo indicador no pino e os demais dedos prendem o cordão em volta do pião. Cria-se uma grande intimidade entre desejo, maõs, objeto, olhar e movimentos e ele consegue imprimir estabilidade do giro do piao. Então, o girar silencioso e fixo do pião irá extasiar não apenas os seus olhos, mas entranhará alegria na sua própria alma. Ele se sentirá capaz e satisfeito com o que realizou.

Essa imagem encarna qualidades essenciais do agir que levam à eficácia:  foco, envolvimento e coerência.  Na imagem, o pião, o menino, o chão e o cordão estão em profunda imanência, como devem estar as ações, as metas e os propósitos que nos ligam ao que precisamos  realizar. Não se trata de querer a perfeição inatingível que imobiliza e leva a uma coleção de promessas frustradas, mas a compreendo de que quanto mais focada, consciente e decidida for a ação, maior a predisposição para a boa luta e maior senso de realização no final.

Bernard Shaw mostrava-se descrente quanto à capacidade humana de aprimorar-se. Ele dizia que os homens só conseguiriam fazer algo de realmente bom se pudessem viver até os 300 anos. Mas, talvez em sua declaração ele quisesse criticar não uma suposta natureza humana fadada à imperfeição, mas à ação irrefletida que não busca o aperfeiçoamento.

A força do pensamento positivo tem sido proclamada como o segredo da realização infalível. Mas  nada substitui o espírito focado e a ação decidida.  Talvez o segredo não seja apenas um. Quem sabe o verdadeiro mistério seja descobrir que precisamos aliar pensamento positivo, visão focada e ação eficaz.

Nos Lusíadas, Camões valoriza esse tipo de ação. Ele as exalta em versos como esse: “E aqueles, que por suas obras valorosas se vão da lei da morte libertando.” Linhas poéticas ensinando-nos que as ações são capazes de nos conferir eternidade pela grandeza e qualidade e imprimem grandeza à existênciaé conferida pela grandeza com que encaramos as tarefas que precisamos realizar.

Agora, é colher a lição dos mestres e revisitar as promessas feitas no início do ano. Quem sabe ainda há tempo de realizá-las parcialmente ou replanejá-las? Quem sabe é possível fechar o ano, não com um baú de frustrações, mas como um celeiro de planos realísticos e coerentes com a história  que queremos construir?

Toda ação tem o seu próprio e necessário esforço…

Chegar lá...

Quero vencer na vida!

Quem não pronunciou essa frase em algum momento da vida?

E sabe por quê?  Todos querem fazer valer o espaço de tempo que passarão neste planeta. Deixar sua marca. Somos seres singulares e querer vencer na vida significa, sobretudo, querer afirmar nossa singularidade na comunidade humana.

E não importa para onde navegamos. Todos queremos acertar o rumo. Aportar no (mais…)

Garota diante do espelho obra de Picasso
Ver e conviver

Há tantas respostas para essa questão quanto há tipos de pessoas.

Mas é possível resumir essa variedade em um núcleo de qualidades que tem levado seus detentores a causar admiração: amor, saber, beleza, fortuna.

Em cada época, esses atributos se expressam de jeito diferente, mas parece não haver dúvida: eles atraem admiração. E como na base da aceitação social há algum nível de admiração, de um modo ou de outro, buscamos o que pode nos tornar pessoas admiráveis.

Mas, tornar-se alguém admirável exige esforço, por isso, todos queremos diminuir caminhos para alcançar metas. Talvez sejamos como Lóri, uma personagem de Clarice Lispector. No livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, ela deseja ardentemente ser amada, mas quer ir direto ao ponto certeiro.

No livro, a narradora diz sobre Lóri: ‘Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o seu! E como buscava com sofreguidão o seu melhor modo de ser, o seu atalho.’

É nessa busca que vamos vida afora. Uns mais perdidos, outros mais orientados, mas, de um jeito ou de outro, o que nos marca como seres com histórias em comum é o desejo de ser aceito no clube de pessoas admiráveis ou, pelo menos, das não rejeitadas.

Eu diria que um bom atalho para ‘entrar no clube’ é observar pessoas admiráveis. Aproximar-se delas. Reconhecê-las com humildade e sem medo de parecer inferior.

A receita é antiga. Na Idade Média, os aprendizes “colavam” nos mestres de ofícios para aprenderem sua arte e até superá-los. Os alunos de Hipócrates, o pai das artes médicas, não desgrudavam do hábil professor. Os discípulos de Sócrates o rodeavam como andorinhas em volta do entardecer. As jovens mulheres do Oriente observavam suas mães e avós na arte de seduzir e manter um esposo conforme os costumes. Já os jovens chineses acompanhavam os pais para se tornarem exímios plantadores de arroz.

A história é pródiga em exemplos de como a proximidade com pessoas admiráveis pode ser benéfica. Mas se é assim, então, por que nos afastamos cada vez mais dessa receita milenar?

O individualismo, a ambição exagerada, a pressa e o afrouxamento dos valores têm nos castrado como seres que aprendem pela imitação. Estamos sempre em disputa por algo concreto ou pelo simples prazer de competir, e isso parece ter virado hábito inevitável. Não que a competição seja ruim em si mesma. É que aprendemos um jeito de disputar que exclui o reconhecimento do outro. Esquecemos que a competição é apenas uma forma de sociabilidade, mas não a esgota.

Admirar, na sua origem etimológica, vem das partículas ad e mirar. Ad significa aproximação no tempo e no espaço. Mirar é originado de mires e quer dizer: digno de contemplação. Então, admirar é se aproximar do que é merecedor de ser visto e contemplá-lo para apreender seu  valor.

Já a palavra inveja deriva do latim invidus significando inviso ou que não pode ser visto. Assim, a inveja é o sentimento de desgosto ou pesar pelo bem do outro que nos impede de enxergá-lo.

A admiração é um princípio filosófico. Os filósofos dizem que é impossível conhecer sem admirar. Os homens se interrogam somente sobre o que admiram. Nesse sentido, o invejoso é o contrário do filósofo, pois é incapaz de contemplar a quem inveja.

A presença do invejado dói. É duro demais para ele admitir que o outro é mais, sabe mais, tem mais, ama mais ou é mais feliz. O que lhe resta é ‘cegar’, ou seja, afastar-se ou hostilizar o objeto de sua inveja.

A questão é que ao fugir do outro, ele se condena a não aprender com ele. No medo de confrontar-se com o invejado, ele esquece que pessoas invejáveis são, em geral, pessoas admiráveis. Perde de vista que pessoas admiráveis podem ensinar atalhos. E assim, vai tateando no escuro.

Para o invejoso, parece haver um elo direto entre o sucesso do outro e o fracasso dele próprio.

Um velho provérbio diz: ‘é mais fácil sentir piedade do coitadinho do que reconhecer o êxito do capaz’. É duro admitir, mas praticamos muito tal máxima. Esquecemos de que uma noite estrelada é mais bonita do que um céu de única e ofuscante estrela. A inveja é um afeto inerente ao homem. Todos em um momento ou outro a sentem. Contudo, precisamos ficar vigilantes sobre como é vivenciada.

Você deve estar se questionando se esse texto é sobre admiração ou sobre inveja. É que é quase impossível falar de seres admiráveis sem fazer referência ao sentimento de inveja que eles provocam. Então, como lidar com esse afeto tão humano e com repercussões tão negativas?

Podemos aprender com o seu oposto: a admiração. É possível adotar atitude de aproximação humana e fazer exercícios de admiração. Como?

Para ultrapassar a inveja e viver a admiração, há que se: não afastar de pessoas por preconceito; reconhecer; elogiar os méritos alheios; ter prazer em conviver com as diferenças; ter abertura de espírito para ultrapassar sentimentos hostis, que às vezes nos acometem por motivos banais; não considerar o sucesso alheio uma ameaça.

Além dessas lições, podemos, outra vez, pedir emprestada a sabedoria instintiva de Clarice Lispector. Naquele livro, Lóri tem um insight que encerra a compreensão da interdependência humana.

Essa compreensão é a primeira e fundamental lição para quem quer viver sabiamente o sentimento da admiração. A conclusão de Lóri nos diz: “Sabia de uma coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salva. E pensaria: eis o meu ponto de chegada”.

A lição de Lóri é perfeita tradução da aprendizagem que vem da admiração.

Perceber o outro como fonte de amorosidade e saber. Este é um ‘passo certeiro’ para ser emocionalmente estimulante, renovador dos próprios afetos e dos que estão próximos.

Um grande passo para ser, enfim, alguém admirável.

Inveja ou admiração?

Pratique a gentileza...
Pratique a gentileza...

A palavra civilização nomeia as formas mais elevadas dos usos e costumes de um povo.  É dela que deriva o termo civilidade, como a capacidade de agir observando padrões elevados de boa educação, gentileza e cortesia. Em tese, quanto mais civilizado um povo, mais seu sistema de convivência torna-se facilitado, uma vez que todos seguem as regras para o bem coletivo e respeitam os direitos individuais.

No dia a dia, a civilidade se apresenta na forma de atitudes gentis, na prática da cortesia e da delicadeza implícitas no cuidado para não transgredir normas simples, mas sinalizadoras de um grau elevado de formações humana e espiritual alcançadas por determinada sociedade.

Palavras simples traduzem atitudes de (mais…)

 

Não descuidar da "criança interna"
Não descuidar da “criança interna”

Entre as muitas lições que nos dá Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, uma toca profundamente.  É quando Riobaldo, personagem do romance, faz uma síntese perfeita sobre como precisamos ampliar a visão para acompanharmos os movimentos da realidade.

Na passagem, o jagunço diz: A cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas e diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça para o total.

Com esse jeito tão próprio de falar, Riobaldo faz, na realidade, um discurso sobre  a flexibilidade.  Atributo humano  que nos permite examinar a realidade de perspectivas amplas para transformações comportamentais necessárias à mudança atitudinal.

E sabe porque o tema é central para todos que optaram pelo caminho do autoaperfeiçoamento? (mais…)