Melancolia, obra de Edvard Munch
A melancolia é o choro da alma.

Queremos atingir metas que nos levem direto ao alcance de propósitos que darão sentido às nossas vidas.

Mas há obstáculos que impedem muitas jornadas que poderiam resultar vitoriosas.

Dentre esses obstáculos, o medo, por seu caráter imobilizante, talvez seja o elemento que mais cause transtornos.

O curioso é que o medo é um afeto adaptativo, que, em tese, deveria ser apenas benéfico. No seu aspecto adaptativo, o medo funciona como um alerta para riscos e perigos. Permiti-nos avaliar se seremos atingidos por eventos da realidade.

Isso mesmo. O medo tem função protetiva. Sem ele não formaríamos a percepção de até que ponto, somos capazes de enfrentar desafios. Funciona como um sensor que nos ajuda a retroceder, reavaliar a cena para criar estratégia mais adaptada. (mais…)

Há sempre alguma escolha entre nós e nossos objetivos…

Escolher não é opção.

Da rotina mais banal ao projeto mais caro, decidir surge sempre como imperiosa necessidade. E toda decisão pressupõe escolhas.

Por isso mesmo, seja para obter benefícios ou minimizar riscos, somos seres condenados a escolhas e sujeitos às suas consequências.

Contudo, apesar do alcance das escolhas em nossas vidas, será que, nos momentos decisivos, dedicamos a necessária reflexão para antecipar resultados, projetar opções e saídas para os acidentes de percurso?

Será que não poderíamos nos livrar de decisões negligenciadas ou apressadas que nos trazem mal-estar e arrependimentos?

É fato. Não é incomum aligeirarmos escolhas e firmarmos resoluções impulsivas, frutos de ponderação rasa. Seguimos o caminho, esquecidos de que ao decidir, podemos exercitar aspectos superiores da inteligência e extrairmos informações que podem embasar o êxito de etapas futuras.

Naturalmente, nos momentos decisivos somos acometidos por certo nível de ansiedade, mas vale a pena ultrapassar a apreensão inicial e investir no controle mais racional dessas ocasiões.

Montaigne, filósofo francês, devotou muito de seu pensamento ao que está envolto nas escolhas humanas. Em um de seus ensaios, ele afirma que o ‘espírito indeciso’ é, muitas vezes, fruto do hábito de negligenciarmos o papel da reflexão como insumo para escolhas consistentes.

Com o ceticismo próprio de seu estilo irônico, Montaigne certamente exagerava quando dizia: ‘Se com idêntica necessidade de beber e comer, um espírito indeciso fosse colocado diante de uma garrafa e um presunto, não teria provavelmente outra solução senão morrer de fome’.

Exageros à parte é plausível constatar dificuldades implícitas nas escolhas humanas. Obstáculos que poderiam ser minimizados pela prática da reflexão como condição para embasar momentos decisivos em critérios sólidos.

A ação humana inclui atos e consequências, mas no comum, agimos como se estas não nos alcançassem.

Sobre o assunto, é útil lembrar as lições de Bertolt Brecht. O dramaturgo alemão alertava para o fato de que somos nós que pagamos a conta das decisões tomadas, então, segundo ele, é preciso calcular e tirar a prova das situações enfrentadas, sob a pena de prejuízos existenciais de difícil resgate.

Nas decisões refletidas, instala-se um círculo virtuoso que nos ajuda a extrair dados de cada escolha e a crescermos em consciência e preparo.

O contrário também é real. Agindo com menor consciência, recaímos em negligência, dissipação de esforço e inteligência. O resultado é sofrermos consequências que não previmos ou não almejávamos.

É quase fatal. Quanto mais negligenciamos o que define uma escolha, menor clarividência. E menor clareza leva a escolhas empobrecidas.

Entretanto, é possível basear processos decisórios no senso de realidade forjado pelo exame cuidadoso das situações, pois nas esquinas da vida, há sempre uma escolha à espreita.

Nem sempre é nítido, o caminho que nos leva à melhor decisão...
Nem sempre é nítido o caminho que leva à melhor decisão…

Obra de Tina Felice
Malefícios sob um olhar descrente…

Abra mão do hábito de preocupar-se excessivamente.

Além de não trazer benefícios, a contínua antecipação dos efeitos de problemas, que talvez nunca se materializem de fato, causa um sofrimento mental que nos rouba energia pessoal indispensável às reais batalhas diárias e, não raro, ocasiona terríveis danos psicossomáticos.

É fato. Seja tentando imprimir tempestividade à ação, seja na busca de aliviar tensões, a preocupação constante e excessiva acrescenta sofrimento mental devastador às inquietações próprias dos momentos de agir e decidir.

Outro efeito danoso da preocupação constante é que, preocupar-se pode virar hábito arraigado, portanto, difícil de eliminar. Como resultado, qualquer problema leva-nos a antecipações catastróficas, deflagradoras de emoções negativas, que levam o fracasso e a desesperança a formar o quadro mais perene à nossa frente. 

No estado de preocupação excessiva, a aceleração da expectativa aliada à intensificação exacerbada do impulso de agir sabota a capacidade de julgar num cenário de decisões e prejudica a habilidade de planejar com eficiência.

Tendo presente tal constatação, ceda o espaço ocupado pelo desgaste da preocupação obsessiva à serenidade própria de quem age firme e centrado.

Pare de transformar pensamentos ordinários sobre atos cotidianos em negatividade devastadora que traz a desesperança mórbida e que só permite visualizar riscos catastróficos e lembranças de escolhas malsucedidas.

Há atitudes que são antídotos para a desesperança: pensar com amplitude, tirar o foco do medo e imaginar a situação a enfrentar na perspectiva dos benefícios que trará.

Então, deixe-se guiar pela sua própria força interior. Exclua o pessimismo mórbido.

Como?

Substitua a corrente de pensamentos inquietantes pelo exame consciente da realidade e troque a preocupação doentia por esquemas de ação mobilizadores do melhor de seu potencial.

Em suma, quando a preocupação inútil persistir, lembre-se que a estrela da sorte está no pensamento claro, na ação planejada que ultrapassa receios infundados e nas emoções que impulsionam o agir e não o temor infundado do futuro.

Pintura de Alcides LopesO realismo vem da sensatez aliada à fé no futuro.

Blue nude, obra de Henri Matisse
Um troféu é um objeto carregado de sentidos

A palavra troféu vem de expressão utilizada pelos gregos para, nas guerras, nomear os pertences dos vencidos tomados pelos vencedores, e assim, ratificar a vitória.

Hoje, a palavra troféu ainda simboliza vitória e supremacia, mas saiu do cenário bélico e se inseriu em quase todos os campos da atividade humana como sinal inequívoco de reconhecimento.

E essa expansão do uso do troféu para assinalar vencedores é explicável. É quase universal o sentimento de gratificação pessoal experimentado pelos que vencem batalhas pessoais ou coletivas e são por elas, reconhecidos.

E como, em geral, os troféus são atribuídos para reconhecer ações extraordinárias que exigem talento, sacrifício ou superação, os laureados são vistos como seres de capacidade superior. Muitos passam a fazer parte de segmento de seres singulares, espécies de semideuses cultuados por todos.

Talvez, esse seja o principal motivo pelo qual ser distinguido com um troféu seja situação tão cobiçada. Até os maiores em grandeza ou os mais desprendidos, às vezes, deixam escapar certa insatisfação por não serem reconhecidos em algo que os destaca.

Fernando Pessoa já disse: ‘Quantas vezes eu mesmo, que rio de tais seduções, me encontro supondo ser célebre, que seria agradável ser ameigado, que seria colorido ser triunfal’.

 Mas, além de responder de forma profunda à necessidade de aceitação social e sucesso pessoal, o ato de ser laureado nutre outras vontades pessoais e outros fins subjacentes: alimenta sentimentos de autossuficiência, reforça hábitos calcados na presunção de superioridade; fomenta vontades pessoais de personalizar fortemente um estilo individual de ação.

Contudo, não podemos esquecer de que receber um troféu implica responsabilidade diante da sociedade que o confere, razão pela qual, é essencial refletir sobre os troféus recebidos ou almejados.

O primeiro ponto a considerar num esforço reflexivo sobre o significado dos troféus é que, em si, eles não são ruins ou bons.

 O troféu é apenas um objeto, ocorre que em torno dele são criadas representações que indicam valores. Cada pessoa atribui um sentido à experiência de ser agraciado com um troféu.

Exemplificando a dimensão valorativa dos troféus, temos que um ecologista se sentiria ofendido caso fosse laureado por uma associação de caçadores de elefantes para extração do marfim. E um pacifista, possivelmente, não receberia condecorações por serviços prestados à indústria bélica.       

As homenagens em um ponto são parecidas com as ofensas. Cada um que as recebe vai dar peso e sentido diferentes, dependendo dos seus valores e credos pessoais.

É bem ilustrativo disto, um episódio vivido pelo filósofo grego Sócrates. Um transeunte, em certo dia, observou que o filósofo era insultado no mercado da cidade e escutava passivamente, então, questionou-lhe: O senhor vai permitir que o insultem dessa maneira? Ao que o sábio grego respondeu: ‘Por quê? Acha que devo me ressentir se um asno me der coices?’

Assim, para mensurar o significado de um troféu, é útil interrogar antes os valores que fundamentam os propósitos que nos levaram a ser distinguidos. E isto, por uma razão simples: quanto mais elevados os valores que balizam os propósitos, maior o alcance de nossas ações como experiências valiosas não somente para grupos restritos, mas para a humanidade.

Sem dúvida, o troféu é um testemunho inequívoco de êxito, mas é preciso atentar para o que ele ratifica e qual a relevância disso na nossa jornada. Receber um troféu nem sempre nos confere honradez e, não recebê-lo, necessariamente, não nos condena à vulnerabilidade social.

Então, precisamos nos questionar. Os troféus que almejamos são de bronze ou de areia?

A resposta vai depender do que permanece como consequência dos atos e escolhas que nos levaram até eles. O que define o significado de um troféu é o que nos move para ele.

O troféu de bronze que perdura e engrandece é o que atesta coerência e consistência de um projeto de autorrealização que ratifica lucidez quanto à consciência do seu papel social.

Em síntese, não vale a pena sofrer por troféus de areia, os ambicionados por tola presunção de superioridade, prêmios que nos transformam em troféus de nós mesmos, como seres movidos por ações alheias à nossa própria substância.

Obra de Henri Matisse
Troféu para quem?

 

 

 

 

 

O que seremos depois?
O que seremos depois?

 

‘Tenha atitude’!

Quem nunca escutou essa sugestão quando fraquejou ou sucumbiu ao desânimo nos momentos difíceis?

E de fato, para convidar alguém à eficácia superior de suas ações é preciso convocá-lo a remodelar atitudes.

A razão disso é que, sendo fruto de disposições íntimas e com forte influência nas condutas pessoais, as atitudes são a coluna vertebral do estilo pessoal.

Daí que todo projeto de transformação pessoal requer reexame de atitudes.

A atitude é o resultado de ideias, emoções  e comportamentos em sinergia. Elementos que imprimem caráter energético e efeito estruturante ao comportamento.

O comportamento expressa, assim, o conjunto de atitudes e revela convicções internas que definem o caráter e a personalidade.

Algumas vezes, tentamos mudar alterando apenas o comportamento. Entretanto, ações, condutas e desempenhos que perduram são as que guardam pertinência com as nossas predisposições internas ou atitudes.

Em consequência, podemos mudar por um tempo, mas se a mudança não for motivada por autêntica reestruturação interna, ela tende a não se sustentar. Aí, voltamos ao velho estilo.

Transformar atitudes equivale a colocar objetivos diante dos olhos e revisitar crenças, emoções e hábitos que têm alimentado o padrão atual de ação, tentando enxergar o que funciona ou nos prejudica.

O esforço de transformação precisa, então, começar pelo reconhecimento de atitudes que nos impelem a comportamentos compatíveis com desempenhos eficazes e sentimentos de bem-estar.

O passo seguinte é criar espaço de recolhimento e silêncio interior para escutar os próprios anseios e confrontá-los com as atitudes atuais.

A seguir, devemos elencar atitudes que vão produzir ação edificante e alimentá-las com pensamentos afirmativos que ajudem a eliminar condutas disfuncionais.

Quantas vezes nos guiamos por circunstâncias e atitudes negativas ou alienadas do que somos e que nos distanciam do que precisamos.

A-D Sertillange, humanista e pensador francês, ensinava que; ‘O pensamento, que está em correlação com as tendências mais profundas é um excelente juiz e moderador de nossas ações’.

O pensamento de Sertillange valoriza o conhecimento da bússola interior, sob a pena de não podermos consertar rumos que nos afastam de propósitos caros à autorrealização.

Transformação pessoal, em síntese, requer confrontar autoconceito, atitudes e realidade visando abandonar a idealização de si próprio e os conceitos inexatos das próprias condutas para os devidos ajustes.

E precisamos fazer esse movimento, conscientes de que apesar de sermos completos, não somos perfeitos; carregamos o germe da transformação que exige contínuo reexame e um coração ardente impulsionado por atitudes coerentes.

Ser rascunho inspirado esperançoso do que virá....
Ser rascunho inspirado e esperançoso do que virá….

 

Que a vontade de perdoar tenha sempre o frescor de crianças..

É Páscoa. Tempo de renascimento. Calendário propício à renovação.

Então, por que não aproveitar o momento para fazer uma apreciação renovada dos nossos sentimentos?

Quando falamos em renovação de sentimentos é inevitável mencionar o rancor.

Ervas daninhas da vida emocional, a mágoa, o rancor e o isolamento amargo costumam deflagrar atitudes hostis e produzir relacionamentos empobrecidos; causar solidão e dores que nos distanciam dos nossos semelhantes, muitas vezes, frustrando o que seriam boas relações.

Os sentimentos hostis podem ser projetados contra nós mesmos. Somatizamos hostilidades arraigadas e não expressas. Não é por acaso, que inúmeras queixas de afecções de pele (pruridos, irritações, psoríase) e uma dezena de outros sintomas costumam se apresentar como escapes de raivas represadas.

No texto, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Freud diz que  “alguns afetos evocam reações tão inapropriadas que se chocam com o movimento natural do desenvolvimento humano”. Talvez possamos dizer que o ressentimento persistente que caracteriza o rancor possa ter tal efeito sobre o movimento  que desejamos imprimir à nossa própria vida.

O rancor rebaixa a capacidade de nos relacionarmos de forma franca e espontânea. Sentimentos rancorosos se originam de mágoas mal resolvidas e de incompreensões cultivadas pelo orgulho. A dificuldade para vencer o rancor está na base do comportamento ressentido, próprio de pessoas com auto-aceitação rebaixada e com sentimentos hostis em relação a si próprio e ao ambiente.

O pior é que o rancor é como uma agressão contínua e, muitas vezes, silenciosa. Mesmo quando a pessoa por quem nutriu rancor não está presente, o rancoroso continua seu investimento em raiva e ódio a ela direcionado.

O psicólogo social Leonard Berkowitz diz que as agressões mal-sucedidas intensificam a raiva, por isso pode-se afirmar que o rancor é um comportamento que se alimenta continuamente da própria frustração que lhe é própria. E por isso pode crescer com o tempo.

E como escapar desse circuíto vicioso que nos condena a relacionamentos atravessados e sofridos?

Os psicólogos apontam a compreensão dos próprios sentimentos como o primeiro passo para não alimentar relações negativas e depreciadoras da boa convivência. Recomendam, também, o reexame dos critérios de nossos julgamentos ao firmar antipatias e simpatias nas relações.

Para os estudiosos do comportamento, atentar para qual seria o peso das nossas próprias atitudes no clima relacional que costumamos estabelecer é essencial para a mudança do circuíto energético que move nossa rede de relacionamentos.

O rancor é bocado amargo, nos acorrenta ao outro que pensamos querer repulsar.

Neste tempo de Páscoa, fiquemos com a sabedoria dos versos de Fernando Pessoa, quando nos diz no seu Livro do Desassossego:

Um bocado de sossego com um pedaço de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim…’.

Quando repartirmos o pão da amizade, não esqueçamos que plantamos e colhemos o trigo...
Ao  repartir o pão da amizade, lembrar: plantamos e colhemos o trigo…