Há um sorriso recôndito em cada mulher

Há um quê de riso em cada mulher.

No seu mais íntimo recôndito, há uma energia alegre represada.  E, mesmo diante do abismo do sofrimento, há nela um suprimento de esperança triunfal prestes a eclodir.

É intrigante a persistência feminina, aliada à capacidade de manter os olhos acesos e a vontade amolada, para lançar-se com ânimo e vontade de acertar em tudo o que faz.

É como se as mulheres fossem seres feitos em camadas. E mesmo sob o peso do cansaço ou desilusão da camada mais externa, houvesse uma reserva de paciência heroica, de força interior e disponibilidade ao comprometimento. (mais…)

Tela-Menina-com-Pásssaro de Esther Silva, pintora maranhense
Deixar-se voar na leveza de ser o que se é ….

Mulheres são mesmo seres que embelezam o mundo. São como ‘delicadezas de areia fina’; doces acalantos a embalar berços; sonhos debruçados em janelas abertas à esperança.

Contudo, a condição feminina é maior do que a dimensão sensível que tem representado sua identidade de gênero.

A história das mulheres é, também, a história de lutas para exercer dignidade em um mundo marcado pela cisão sexista da tribo humana, onde poder e força sempre estiveram ligados à condição de masculinidade.

Legado criado em milênios marcados pela supremacia, não raro violenta, do gênero masculino e que levou à negação sistemática do feminino como gênero capaz de autodeterminação e de participar em equidade da construção da história.

Sair dessa realidade para um modelo integrador pede que alarguemos a compreensão de aspectos centrais nas questões de gênero, visando a assunção de modelos de sociabilidade alicerçados na valorização da diversidade.

Ocorre que o desafio de integração equânime dos gêneros exige a compreensão da própria condição feminina. Ainda engatinhamos. Entretanto, alguns ramos das Ciências Humanas fornecem saberes que lançam luzes sobre a questão.

A Psicologia Junguiana, por exemplo, tem noções amplas do que é ser feminino e masculino. Carl Jung defende que somos identidades forjadas pela convergência de elementos opostos e complementares. Ou seja, as personalidades femininas e masculinas se expressam não somente pelo que é próprio de uma ou de outra, pois integram também características de similaridade entre si. No homem, há a Anima, personalidade interior com características femininas. Na mulher, essa personalidade interior se manifesta como Animus, núcleo de dotes masculinos.

Simplificando, masculino e feminino atuam em condição de completude. As mulheres conciliam força, agressividade, domínio e impulso próprios do masculino, com intuição e tendência protetora, propriedades inerentes à condição feminina. E vice-versa.

Essa é uma entre algumas visões, mas pode ajudar a compreender que há uma ‘porção feminina’ que se inscreve de forma própria em cada indivíduo. Desse modo, podemos nos enxergar como seres de amplitude e agir como personalidades enriquecidas pela consciência de tudo o que somos.

Talvez esse seja um passo importante para nos reconhecermos como agentes capazes de criar uma civilização plural e integradora; ajudando-nos a superar a crença perversa de que as diferenças nos separaram,quando de fato, nos enriquecem.

Manter a condição que faz quem somos ... Manter a condição que faz quem somos …

Obra de Augustin Kassi,da Costa do Marfim.
Mulher é ancestralidade

Pensando na história das mulheres, lembrei-me da poesia magistral de Florbela Espanca. E acho que descobri a razão de tal lembrança.

A poeta produziu versos que ultrapassaram sua história pessoal, expressando o que é ser mulher num mundo opressor. Viveu tragicamente. Vida marcada por desencontros afetivos e profunda angústia.

Angústia de quem se sentia tolhida no anseio de amar em plenitude. Amargor expresso em poesia aguda e sensível. Um de seus versos mais pessimistas é um desabafo da desesperança:‘quem noites só conheceu,não pode cantar auroras’.

Pela biografia da poeta portuguesa, não é difícil adivinhar inquietações que coincidem com perguntas que inquietam a nós, mulheres.

E foi inspirada nessas inquietações que imaginei a história das mulheres como se fosse uma coleção de experiências enfileiradas como contas de um colar.

Um colar a exibir o fio da história feminina. História composta por dias de memoráveis lutas, mas também, de biografias transformadas em tenebrosas noites.

Para examinar esse colar é preciso revirar o baú da existência feminina e achar as experiências entranhadas na vida de cada mulher. E quando o encontramos, percebemos que há contas opacas – contas manchadas pelas cores da agressão. Contas que gritam o lamento de dor da alma de mulheres brutalizadas por machos cegos pela ânsia de exercer supremacia.

Contas que escancaram o verbo sangrento formando o rosário de aflições de mulheres mortas por homens de almas impotentes. Homens incapazes de ver que a violência os condena à brutalidade e diminui sua masculinidade.

Contas horrendas que teimam em se repetir.

A esperança e a garra para a luta, entretanto, também são contas desse colar e precisam brilhar para ofuscar até apagar as contas vermelhas do sangue das mulheres mortas pelas garras do machismo.

Para tanto, é vital, não perder de vista, as contas que trazem a esperança. Verdes e brilhantes. Esperança realística que dá ânimo para nos contrapormos à fome de poder dos que nos oprimem sob inúmeros pretextos.

Felizmente, no colar, há também as contas da empatia. Sentimento que permite vivenciar a sororidade – capacidade de ultrapassar disputas e acolher e empoderar as outras mulheres. Sororidade que traz às relações e trocas, a experiência do cuidado e respeito recíprocos para o efetivo empoderamento feminino.

A sororidade, inclusive, é a liga a nos unir de forma coesa; na resistência à opressão imposta pelos que se acham nossos donos, para que um dia possamos exibir a história humana como um colar repleto das contas da dignidade das mulheres e suas conquistas.

Mulher lembra intimidade - lamento e laço.
Mulher é laço.

Ser feminina: substantiva, singular

Desejava escrever um texto que materializasse a condição feminina. Queria um escrito sensorial que exprimisse em evocações pessoais a tradução de uma feminina essência.

Então, deixei-me incorporar por uma ‘entidade mulherzinha’; fechei os olhos e comecei a puxar sensações vindas de certa doçura que em mim, mulher e sonhadora, provoca sentimentos misturados.

Nessa procissão de sensações femininas, estavam: o cheiro de lavanda à hora do banho que lava a alma do cansaço e, às vezes da tristeza; a ternura própria das bochechas de bebê; a esperança presente na fresca alegria de quem recebe uma flor; o suspiro de amor entranhado em folhas secas perdidas entre páginas de velhos livros. Passam nesse filme de evocações: a beleza velha das rosas cor de chá; rabiscos de maizena no gasto caderno de receitas.

Compõem ainda, esse caleidoscópio de evocações: bijuterias de amáveis contas coloridas dadas pelo carinho desajeitado do homem amado; poemas doces; rubis vermelhos como o desejo secreto de ser sempre desejada. Como visão mais remota, está ainda a imagem de um colar de pérolas, mesmo falso, desde que não engane a vontade de ver no espelho um pescoço velho e sábio, mas, eternamente sem rugas.

Sem dúvida, seria um jeito feliz e, talvez engraçado, de fugir da sublime, mas árdua tarefa de me entranhar  no que nos faz mulheres. Mas, é impossível não misturar à  perspectiva da fascinação do doce e do belo; o sofrimento, a exploração e a história das lutas feministas para fazer face ao machismo impregnado na vida nossa de cada dia.

Desse modo, é preciso incluir na lista do que nos faz femininas, as conquistas das mulheres que militaram pela dignidade e fizeram frente às práticas machistas e seus símbolos de opressão.

A substância feminina é doçura, mas é firmeza e luta. Está no dia único de cada mulher com as suas histórias comuns cheias de feminilidade. Rotina das mulheres livres da opressão, mas também, das que têm as lentes do medo no olhar. Das que trazem tristeza nas mãos. Das que têm secura no sonhar e cinzas no esperançar.

Pessoalmente, gosto de pensar que a feminilidade é uma filigrana bordada na rotina de quem embala a vida com o cântico de sereia ninando o mar; na convicção de quem acredita no amor com a devoção da fé diante do altar e de quem cuida dos que ama com  os gestos da Pietá.

Há um quê de perfeição…

Ser feminino ....
Ser feminino ….

Próximo ao dia dedicado à mulher, senti-me convocada a escrever sobre a condição feminina.

O curioso é que nas tentativas de fixar ideias sobre o tema, eu só pensava imagens. Sendo mais específica, só sobrevoavam minha imaginação ideias figuradas em cortinas.

Cortinas em tecidos de todos os tamanhos, formatos e cores. Algumas tinham coloração forte; outras se apresentavam (mais…)