O poder das paixões

Annabel Sleeping, obra de Lucien Freud.

Não ignorar o que nos afeta

As paixões impactam a forma como reagimos à realidade, daí, o profundo interesse que a temática desperta entre leigos e estudiosos do comportamento humano.

É comum associar à palavra paixão, somente os sentimentos envolvidos no amor-romance em que os amantes se querem loucamente e vão, contra tudo e todos, vivendo um intenso romance. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda são histórias que exemplificam esse amor ao estilo ‘até às últimas consequências’.

Entretanto, a palavra paixão tem sentido mais amplo, uma vez que pode nomear múltiplos tipos de manifestações emocionais e sentimentais.
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Refletir é preciso

Imersos em que ilusões?

Imersos em que ilusões?

A reflexão é o exame apurado e não ansioso visando o conhecimento da base de nossas ações. É o dobrar-se sobre si para pensar as próprias ideias e daí extrair informações que nos ajudem a desenvolver consciência sobre como, porque e para que pensamos e agimos.

Mas, apesar do valor da reflexão e da recompensa quase óbvia para o crescimento de quem a pratica, vivemos imersos em opiniões banais, em visões superficiais alimentadas por ideias costumeiras e opiniões não revistas.

O fato é que vivemos num mundo marcado pela irreflexão.

O filósofo Antonin Sertillanges atribuía grande peso à reflexão e defendia que o ato de refletir funciona como um filtro em que a verdade deposita seu melhor conteúdo.

Sertillanges dizia da necessidade de que cada um fosse capaz de ‘aprender a confrontar o que se apresenta aos olhos com visões que ultrapassem as ideias costumeiras, sob pena de se tornar um espírito banal.’

Filósofos e psicólogos dizem que as ações refletem nossa capacidade de pensar e o nível de consciência que temos da realidade. Para eles, fora do círculo da reflexão, mergulhamos na ilusão ou ficamos ilhados no conhecimento incompleto ou superficial.

Não é que se pretenda eliminar o valor das ilusões. Todos nós precisamos de algum nível de crença intuitiva sobre a vida; precisamos criar imagens inspiradoras que suavizem as arestas da existência.

A questão é que muitos vivemos imersos na rotina, no costume, no preconceito ou na emoção momentânea e por isso, agimos e firmamos posições, movidos pelo imediatismo, pelo deslumbramento ou pela rejeição.

E nesse quadro, a irreflexão, em seu típico reducionismo, alimenta pensamentos, ações e afetos empobrecidos, portanto, vividos pela metade.

Vivemos esquecidos de que pelo esforço reflexivo superamos visões rasas, desvelamos cortinas que ofuscam a capacidade de discernir e julgar de modo criterioso. Pagamos um alto preço. O empobrecimento de nosso potencial e em consequência de nossas ações.

E não são as ações que vão definindo o próprio destino?

A palavra destino é carregada de significados míticos, suscita receios e seduções. Pensamos no destino como algo alienado de nós mesmos, como fruto da sincronicidade própria do aleatório da sorte ou da magia dos sortilégios.

Ocorre que o destino é construção cotidiana, portanto, a melhor sorte prefere visitar aqueles cujas ações são iluminadas pelo ato da reflexão.

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Qual a substância de nossas escolhas, pensamentos e ações?

O que fazemos com o nosso rancor? O que ele faz com a gente? e as mágoas

Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.

Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.

Cuidamos da nossa imagem social. Queremos produzir emoções  positivas no nosso círculo de convivência.

Com essa finalidade, procuramos usar trajes que nos identifiquem com signos de novidade e aceitação social. Com o lar não é diferente. É natural receber amigos cuidando para dar à casa um bonito e renovado visual.

Mas, e quanto aos  sentimentos? Cuidamos das vestimentas dos afetos? Tiramos o pó acumulado sobre velhos julgamentos? Iluminamos o recôndito da  alma com a luminária da compreensão? Enfeitamos relações com a beleza da empatia? Enfim, atualizamos sentimentos?

Atualizar sentimentos traz incontáveis benefícios à saúde e alarga a porta que leva à felicidade; renova visões, oxigena ideias, reconstrói afetos, propicia autoconhecimento e transformações.

Mas, se é assim, por que é difícil revisitar as emoções que ditam relacionamentos? Como ignorar que julgamentos condicionam pensamentos e ações? Por que não fazer uma apreciação renovada dos vínculos, sejam de atração ou aversão?

Deve parecer estranho falar em laços, quando tratamos de emoções aversivas. Mas o fato é que estamos ligados afetivamente a todos com quem nos relacionamos. Seja pelas emoções de amor ou seus opostos, cada um é parte de uma teia emocional. E, não raro, investimos muita energia em prejuízo da expressão de afetos positivos

A mágoa e o isolamento amargo são ervas daninhas da vida emocional; o rancor diminui a franqueza espontânea. São afetos que deflagram atitudes hostis e produzem relações empobrecidas.

Há pessoas que se vendo impotentes para expelir a raiva, projetam hostilidades contra si mesmas. E há os que não explicitam raivas arraigadas que se manifestam em doenças somáticas (dores de cabeça, pruridos, psoríases) e outros escapes de hostilidades represadas.

E de onde vem o estoque de rancor? Os rancores têm origem em mágoas mal resolvidas; ressentimentos não considerados. Ignorar emoções é inútil, pois sua vocação natural é se expressar. De um jeito ou de outro.

Por essa razão é preciso refletir, entrar em contato com as próprias emoções para integrá-las de forma consciente a ações e reações.

No texto, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Freud diz que ‘alguns afetos evocam reações tão inapropriadas que se chocam com o movimento natural do desenvolvimento humano’. Talvez possamos dizer que o ressentimento persistente  tem esse efeito.

O filósofo clínico Lou Marinoff  diz que devemos ser protagonistas e não, coadjuvantes da vida emocional. Ele afirma que uma pessoa pode nos ofender, mas se a ofensa se transformará em dano, é decisão pessoal. Segundo o filósofo, a ofensa vem do outro, mas  é a força atribuída a ela que a transforma em dano para seu alvo

Ainda na visão de Lou Marinoff, há um fenômeno psicológico denominado reciprocidade negativa de julgamento e intenções, que está na base do ressentimento persistente. O mecanismo atua assim: pessoas com baixa tolerância à frustração e suscetíveis ao julgamento social tendem a julgar e reagir à presença do outro, conforme seu nível de autoexigência.

É um círculo vicioso: pessoas críticas e intolerantes com as falhas alheias esperam reciprocidade no julgamento (rigor), portanto, além de reagirem mal a críticas, têm dificuldades de expressar sentimentos quanto a críticas recebidas. Isso favorece o ressentimento que se transforma em rancor.

O rancor é uma emoção autorreferente. Explico. O rancoroso sente raiva  continuamente e sofre os efeitos nocivos dessa corrente emocional. É possível afirmar que o rancor é uma agressão contínua e silenciosa a si próprio.

O psicólogo social Leonard Berkowitz diz que as agressões mal sucedidas intensificam a raiva, daí é possível afirmar que o rancor é um comportamento que se alimenta continuamente.

E como escapar desse circuito emocional que pode condenar relações? Os psicólogos apontam a compreensão dos próprios sentimentos como o primeiro passo. E orientam o reexame dos critérios de julgamentos ao firmarmos antipatias e simpatias nas relações.

É preciso atentar para o peso de atitudes para estabelecer bom ou mau clima relacional e para fixar a percepção alheia positiva quanto ao nível de bem-estar emocional que nossa presença exprime.

Aristóteles, um dos sábios gregos, ensinava que para afastar o ressentimento e semear boas relações é preciso fazer esforço para enxergar o outro como ‘um outro eu’. Para ele, a superação da inimizade pede piedade e solicitude. Na compreensão filosófica de Aristóteles, para romper a corrente de afetos maléficos, é preciso dar o primeiro passo e agir almejando grandes sentimentos e sendo dignos deles.

Para o pensador francês René Descartes, somente a generosidade leva à grandeza das relações. Assim, a superação do rancor só é possível quando o julgamento da ação alheia preza pelos valores humanos que julgamos caros a nós mesmos.

Então, para uma existência menos tóxica, fica um convite à faxina dos sentimentos ruins.

 Reconstruir o sentido de comunidade humana ...

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