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Quando pensamos em herança, em geral, nos lembramos de fortuna material: imóveis, dinheiro, joias, ações e similares.

Nada mais natural. A constante preocupação dos pais com o que os filhos vão ter traz o desejo de lhes prover segurança material.

Mas avançam os níveis de educação e junto, aumenta a percepção de que é mais substantivo em termos educacionais, pensar em como os filhos vão ser.

Não é o retorno ao dilema ‘ser ou ter’. É buscar o enriquecimento dessas perspectivas pela visão esclarecida de que somos afetados pelo modo como construímos e usufruímos o que temos.

Então, que tal imaginar uma herança como um tesouro cujos bens ajudam na formação de seres conscientes de como seus padrões de consumo e acumulação afetam a comunidade humana?

Imaginemos uma herança de leituras e estudos.

Mas como escolher dentre a vasta produção de conhecimentos um tesouro que resuma a coleção de saberes para o preparo das futuras gerações?

É uma ação complexa. Então é preciso começar para não desanimar da tarefa.

Se eu fosse deixar um legado de conselhos sobre leituras, primeiro firmaria critérios para escolher valores, atitudes e habilidades que levassem minha descendência a ter uma vida com propósitos e princípios.

O legado primeiro seria o da inspiração. Para que as gerações valorizassem o lado sublime da existência, eu deixaria a trilha do encantamento que nos chega pelo contato intenso com a poesia.

Estariam na herança, os poetas épicos com lições de espiritualidade, bravura e senso de missão (Homero, Virgílio, Dante, Milton, Castro Alves); além desses, estariam os poetizadores de alma telúrica, os que ensinam a noção de que somos seres enraizados no natural e que, portanto, é preciso ser simples como um olhar de criança (Walt Whitman, Cecília Meireles, Mário Quintana, Cora Coralina, Adélia Prado, Manoel de Barros). Como o legado de poesias não cabe nas linhas de um texto escrito, a lista não cessa.

Depois, penso que seria essencial, deixar obras de quem nos deu lições de senso prático. Biografias e obras de inventores, filósofos e cientistas que pensaram formas de fazer as coisas, inventaram objetos ou métodos que permitiram a caminhada humana na terra (Confúcio, Benjamin Franklin, Descartes, Bacon). São muitos os homens de espírito prático e inventivo, razão pela qual, essa relação continua….

Estariam também no baú da fortuna imaterial, obras dos que pensaram nos desejos e afetos que nos conferem a condição humana (Sêneca, Freud, Jung, Nietzsche, Schopenhauer, Sartre). Incluiria, ainda, quem soube traduzir em letras os dramas da alma (Shakespeare, Sófocles, Eurípedes, Dostoiévski, Kafka, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos).

Na botija dos saberes, não poderia faltar quem nos mostrou a comunicação como instauradora da convivência e o papel da oratória na projeção de ideias (Plutarco, Cícero, Demóstenes, Rui Barbosa).

Imprescindível assinalar quem transmitiu a visão de que é preciso aprender a usar o  pensamento como ferramenta de compreensão (Sócrates, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Edgar Morin) e entre esses não seriam suprimidos quem praticou a expressão desembaraçada de opiniões, sem perder a leveza do humor e a sabedoria do bom senso (Montaigne, Voltaire, Emerson).

Sobretudo, é preciso destacar quem pensou sobre a prática da justiça e a sede de ser justo (Sócrates, Platão, Hobbes, Locke, Hume, Kant, Montesquieu) e demarcou que é essencial seguir aperfeiçoando a noção de justiça. Lembrando que esses nomes não esgotam essas lições.

O inventário não estaria completo sem os conhecimentos sobre a própria Educação e também, os saberes sobre Política.

A educação alicerça o processo de humanização, então cuidemos das lições de quem a escolheu como área privilegiada de saber (Sócrates, Platão, Aristóteles, a Paidéia dos gregos, Comênio, Confúcio, Rousseau, Vygotsky, Piaget, Paulo Freire).

Também não iria preterir quem pensou as ciências políticas. Elas esclarecem a natureza das relações de poder entre homens e sociedades (Platão, Hobbes, John Stuart Mill, Karl Marx, Rawls); mestres cujos insights podem nos ajudar a exercer poder sem deixar de nos reconhecermos como zeladores de relações justas que assegurem a convivência  pautada na consideração do outro e na cultura de paz.

Sem dúvida, eu incluiria obras que permitissem conhecer as vidas de místicos, espiritualistas e santos com o objetivo de firmar os valores da humildade, da compaixão e da simplicidade, tão contrários à ganância, presunção e frivolidade que, não raro, servem de modelos aos jovens. Deixaria ainda nesse testamento imaterial, biografias de heróis que ajudariam os jovens a compreender que há causas e lutas humanas e que para servi-las é preciso, caráter, coragem e afinco.

Enfim, essa lista está só no começo. Mas é útil, pensar que cada um vai deixar um tesouro muito singular, conforme os valores e prioridades que elegeu como legado à humana descendência.

Aqui vai o primeiro rascunho de um inventário de ideias. Que tal construir a sua?

Retrato de Alberto de Eliseu Visconti

Colher os frutos da experiência...
Uma criança habita nosso ser….

Somos seres abertos ao crescimento. Por isso, dizemos que há uma criança que habita nosso ser. Ela representa a necessidade humana de contínua transformação.

Assim, do início até o epílogo da ópera da vida, precisamos continuar afinando instrumentos, transformando atitudes. Mas, se olharmos com olhos que enxergam, veremos que nos dividimos entre pessoas de atitudes rígidas e pessoas com vontade fraca e decisões frouxas.

Pessoas rígidas têm hábitos e pontos de vista arraigados; tiram pouco proveito da experiência e se apegam com fervor a opiniões não revistas. Estão presas a ressentimentos, tendendo ao rancor e à negatividade.

No sentido oposto, temos pessoas que não se afirmam. Seres ‘à deriva’, que dissolvem a própria identidade, conforme circunstâncias. São chamadas vulgarmente  de ‘maria vai com as outras’, por assumirem, sempre, um centro de controle externo ao firmar propósitos, em detrimento de referências internas.

Mas, tanto a rigidez como a vontade fraca deformam identidades e empobrecem percursos de vida, uma vez que podem nos levar a agir como adultos empedernidos ou seres alienados da  própria identidade.

A despeito de tudo isso, sendo vocacionados à expansão, podemos adotar a flexibilidade para uma atuação mais centrada: revendo escolhas, dosando atitudes e agindo com temperança.

A flexibilidade é o atributo humano ligado à busca de equilíbrio. É requisito para a maturidade do ego. Para  benefício do processo de crescimento, é preciso integrá-la para um agir mais equilibrado.

É natural da infância, a busca da novidade e da experimentação; o agir da criança é, portanto, fonte de inspiração para o aprendizado da flexibilidade.

À proporção que nos tornamos adultos, vamos nos afastando de riscos e novidades. Fixamos padrões de conduta em detrimento de nossa criança interior, ou seja, da nossa capacidade de tatear caminhos.

Ser adulto não significa adotar condutas padronizadas e artificiais. Amadurecer é aprender a navegar com bússola própria e caminhar firme, mas consciente de que há diferentes rotas e distintas navegações.

Nossa ‘criança interior’ é senha para encontrar o ‘caminho do meio‘, como dizia Aristóteles, ou seja, o caminho da dose certa. Representa a lógica da mente emocional e intuitiva, em contraponto com a lógica racional.

A criança interna de cada um integra em nós o pensamento movido por intuição, sonhos, poesia e mito. É o tempero para a firmeza proporcional própria do amadurecimento pertinente e este faz o ego adulto.

Na poesia: Sonho de um sonho, Drummond fala dessa abertura para o mundo, como forma de nos mantermos sábios e prontos a assumir a condição de seres inacabados:

Eu sonhava que estava alerta,
e mais que alerta, lúdico,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
vinha cingir-me e dourar-me.

Então, que tal convivermos mais com a criança que habita em nós?

Equilíbrio entre permanecer e mudar
Equilíbrio e crescimento