Annabel Sleeping, obra de Lucien Freud.
Não ignorar o que nos afeta

As paixões impactam a forma como reagimos à realidade, daí, o profundo interesse que a temática desperta entre leigos e estudiosos do comportamento humano.

É comum associar à palavra paixão, somente os sentimentos envolvidos no amor-romance em que os amantes se querem loucamente e vão, contra tudo e todos, vivendo um intenso romance. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda são histórias que exemplificam esse amor ao estilo ‘até às últimas consequências’.

Entretanto, a palavra paixão tem sentido mais amplo, uma vez que pode nomear múltiplos tipos de manifestações emocionais e sentimentais.
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Invocar proteção é ato propriamente humano

É natural. Nos momentos decisivos, queremos nos manter longe de perigos ou atrair sorte.

Também em horas de tropeços e vicissitudes, queremos acreditar que as coisas voltarão ao normal. E quando tudo dá certo, cremos que fomos bafejados pela sorte ou sustentados por misteriosa força protetora.

Assim, por mais perfeitos que nos consideremos, há em nós, certa consciência instintiva de que somos incompletos e por isso, precisamos de guarda e proteção.

E é essa condição tão própria dos humanos que nos leva a ter a esperança visceral de que existem forças propiciadoras de sorte e que por algum motivo, há um véu de proteção que nos salvaguarda e livra dos laços de ações e escolhas ruins.  

Um verso de Clarice Lispector ensina sobre isso ao dizer: “Ai daquele que cai na tragédia da nudeza de seu véu”.  E há um provérbio que apregoa: ‘aí daquele jogado à própria sorte’.

Tanto o verso de Clarice quanto o dito popular falam dessa intuição que mora recôndita no pensamento e nos alerta de que, talvez, não nos bastemos para realizar nossa força total.

Carl Jung, psicólogo suíço, por exemplo, defendia que  anjos e outras entidades protetivas são realidades psíquicas. Expressões personificadas de realidades inconscientes que propiciam experiências psíquicas de segurança profunda.

É perceptível, então, que não é acaso a crença amplamente disseminada, em seres protetores e a prática comum, em quase todas as culturas, de recorrer a essas forças.

A propósito, a fé em anjos, como seres destinados à proteção individual, é uma das crenças mais difundidas em inúmeras religiões. Na cultura cristã, a hora do anjo (6,12 ou 18 horas) é celebrada com preces e pedidos de proteção por milhões de pessoas.

Certamente, conceber seres vigilantes zelando ações e desejos individuais, mesmo para quem não acredita em mistérios sobrenaturais, é emocionalmente reconfortante e aditivo da autoconfiança.

Mas, e se pensássemos em cada pessoa como um anjo ou ser protetor? E se os anjos não fossem apenas uma legião celeste e remotos à nossa existência? E se houvesse outros anjos, ao alcance da mão? 

Creia. Esse é um sonho possível.

É assim: se cada pessoa exercitar empatia, compassividade, solicitude e assumir compromisso com a grandeza da  condição humana haverá uma legião de seres vigilantes e protetores de si próprios e de seus semelhantes.

E o resultado dessa corrente humana de proteção seria de tal magnitude que o resultado de mil anos de civilização humanitária poderia ser alcançado em pouco tempo, com efeitos benéficos para toda a humanidade.

Assumir a condição de anjos concretos, não alados, mas capazes de fazer voarem fortes as asas da felicidade humana se dá por meio da assunção de três atitudes: proteger-se, proteger, abrir-se à proteção.

Proteger-se. É preciso agir de forma refletida, a irreflexão leva a escolhas equivocadas. Desenvolver consciência do  próprio potencial. Conhecer forças e limites da própria ação para ampliar suas fronteiras ou aceitar limitações com serenidade. 

Boas lições de autoproteção estão nos textos de Santo Agostinho que nas suas ‘Confissões’ diz: ‘o desregrado produz sua própria desventura’ e em Aristóteles que ensinava o caminho da temperança, do bom senso e da reação proporcional aos acontecimentos da vida como fórmula para o viver sábio e feliz.

Proteger. Assumir que somos existências interdependentes. Que nossas ações impactam a vida dos pares humanos; que quando zelamos por interesses para além de apenas ambições individuais; quando exercitamos a compaixão, aprendemos, desenvolvemos habilidades que nos fortalecem como seres autônomos. Portanto, mais capazes de cuidar de si próprios e de ajudar a forjar a grandeza humana.

Finalmente, abrir-se à proteção. Expressar as dores sentidas. Os medos. Receber a cooperação alheia com humildade; admitir que temos momentos vulneráveis; que às vezes, nossa capacidade de julgar e agir está diminuída e incapaz de nos beneficiar.

Abrir-se à proteção favorece a proximidade com os nossos pares e alicerça a confiança dos outros em nós mesmos. Enfim, estabelece relações de parceria.

Nietzsche, o filósofo alemão, no livro: ‘Humano, demasiado humano’, dizia que existe um futuro seguro para a humanidade quando depurarmos da vida tudo o que não seja humano. E nada nos habilita mais como humanos do que a condição de seres cuidados e cuidantes.

O filósofo diz que tudo o que nos afasta uns dos outros são fraquezas humanas. Ele termina o livro com a poesia ‘entre amigos’ que diz assim: ‘É belo calar-se juntos, mais belo rir juntos, sob a ternura de um céu de seda… Rir afetuosamente com amigos, riso claro e mostrar-se mutuamente dentes brancos….’

Os versos do filósofo falam de: reciprocidade, confiança, aceitação mútua, amizade. E não é isso a substância que nos transforma em seres angelicais e poderosos?

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Ser proteção, proteger-se, proteger

Muito do turbilhão de coisas e informações que julgamos indispensáveis são ...

Um mundo saturado de coisas e informações

O fato é que no seu percurso civilizatório, o homem criou artefatos e informações que ultrapassam a própria capacidade humana de consumo e acesso.

Nesse cenário, não é surpresa que a gestão pessoal da informação e a organização da rotina e dos espaços cotidianos sejam crescentes focos de interesse de quem deseja viver com menos angústia e maior equilíbrio.

E esse interesse não decorre do acaso. Minimizar angústias e cuidar da saúde emocional impõe a tarefa essencial de separar o banal do eterno; o frívolo do sério; o descartável do necessário; o útil do dispensável; o essencial do transitório.

Tarefa que só é possível com autoconsciência, perspicácia e ação decidida para que possamos inserir a busca da simplicidade na nossa rotina. 

Quem sabe se desde os primórdios, a humanidade tivesse posto a simplicidade como valor mais alto, a história tivesse menos guerras pra registrar e os bens naturais estivessem menos expostos à extinção?

E se assim fosse, talvez nossas ações e emoções fossem menos atingidas pelos efeitos das compulsões consumistas e estivessem mais a serviço da busca existencial do equilíbrio que não comporta  ganância, acumulação cega e vaidade insana.

E quem sabe também, as pessoas estariam menos expostas a depressões e transtornos de impulso, consumo e alimentação e outros males de origem emocional?

Desde sempre, muitos sábios de distintas áreas têm  colocado o valor da simplicidade em relevo, como benéfico ao estilo de vida de quem busca equilíbrio e sobriedade emocional.

Aristóteles pregava a necessidade irremediável de temperança no agir; a poesia de Walt Whitman tem a frugalidade como tema; Leon Tolstói não teria escrito sua obra não fora sua vida absolutamente respeitosa ao simples e à natureza; Benjamin Franklin  manteve em vista o bem implícito da resolução simples e concebeu invenções de proveito coletivo das quais, até hoje, a humanidade se vale. 

Também entre os estudiosos da subjetividade, há os defensores da necessidade de saber distinguir entre o importante e o desimportante como requisito para a coerência e ao equilíbrio, aspectos essenciais à felicidade. Erick Fromm, por exemplo, evidenciava a coerência do viver como condição para o bem-estar emocional;

Atualmente, buscar simplicidade não é apenas um convite. A realidade impõe esse valor como decisivo à saúde mental e à sobrevivência do destino humano na terra.

Mas, sosseguemos o coração e não nos angustiemos. A busca do simples não é uma condenação. É, antes, o hábito que decorre de uma vida mais refletida; de rotina menos conturbada por informações, contatos e atos inúteis.

Há mesmo quem diga que a simplicidade é a coerência e a elegância em movimento. E de fato, a verdadeira elegância  está sempre revestida de coerência.

Clarice Lispector reforçava essa ideia quando dizia que é elegante tudo o que sobra depois que a gente abandona o inútil. E Oscar Wilde, escritor de estilo elegantemente imaginativo dizia: ‘Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo’

Enfim, a simplicidade favorece a sobriedade do agir, a reação na medida certa, a ação consciente, o consumo responsável e a emoção temperada.

E tudo isso não é signo de saúde e bem-estar emocional?

O que julgamos que vale a pena carregar pela vida?Julgamos o que vale a pena carregar?

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Quando pensamos em herança, em geral, nos lembramos de fortuna material: imóveis, dinheiro, joias, ações e similares.

Nada mais natural. A constante preocupação dos pais com o que os filhos vão ter traz o desejo de lhes prover segurança material.

Mas avançam os níveis de educação e junto, aumenta a percepção de que é mais substantivo em termos educacionais, pensar em como os filhos vão ser.

Não é o retorno ao dilema ‘ser ou ter’. É buscar o enriquecimento dessas perspectivas pela visão esclarecida de que somos afetados pelo modo como construímos e usufruímos o que temos.

Então, que tal imaginar uma herança como um tesouro cujos bens ajudam na formação de seres conscientes de como seus padrões de consumo e acumulação afetam a comunidade humana?

Imaginemos uma herança de leituras e estudos.

Mas como escolher dentre a vasta produção de conhecimentos um tesouro que resuma a coleção de saberes para o preparo das futuras gerações?

É uma ação complexa. Então é preciso começar para não desanimar da tarefa.

Se eu fosse deixar um legado de conselhos sobre leituras, primeiro firmaria critérios para escolher valores, atitudes e habilidades que levassem minha descendência a ter uma vida com propósitos e princípios.

O legado primeiro seria o da inspiração. Para que as gerações valorizassem o lado sublime da existência, eu deixaria a trilha do encantamento que nos chega pelo contato intenso com a poesia.

Estariam na herança, os poetas épicos com lições de espiritualidade, bravura e senso de missão (Homero, Virgílio, Dante, Milton, Castro Alves); além desses, estariam os poetizadores de alma telúrica, os que ensinam a noção de que somos seres enraizados no natural e que, portanto, é preciso ser simples como um olhar de criança (Walt Whitman, Cecília Meireles, Mário Quintana, Cora Coralina, Adélia Prado, Manoel de Barros). Como o legado de poesias não cabe nas linhas de um texto escrito, a lista não cessa.

Depois, penso que seria essencial, deixar obras de quem nos deu lições de senso prático. Biografias e obras de inventores, filósofos e cientistas que pensaram formas de fazer as coisas, inventaram objetos ou métodos que permitiram a caminhada humana na terra (Confúcio, Benjamin Franklin, Descartes, Bacon). São muitos os homens de espírito prático e inventivo, razão pela qual, essa relação continua….

Estariam também no baú da fortuna imaterial, obras dos que pensaram nos desejos e afetos que nos conferem a condição humana (Sêneca, Freud, Jung, Nietzsche, Schopenhauer, Sartre). Incluiria, ainda, quem soube traduzir em letras os dramas da alma (Shakespeare, Sófocles, Eurípedes, Dostoiévski, Kafka, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos).

Na botija dos saberes, não poderia faltar quem nos mostrou a comunicação como instauradora da convivência e o papel da oratória na projeção de ideias (Plutarco, Cícero, Demóstenes, Rui Barbosa).

Imprescindível assinalar quem transmitiu a visão de que é preciso aprender a usar o  pensamento como ferramenta de compreensão (Sócrates, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Edgar Morin) e entre esses não seriam suprimidos quem praticou a expressão desembaraçada de opiniões, sem perder a leveza do humor e a sabedoria do bom senso (Montaigne, Voltaire, Emerson).

Sobretudo, é preciso destacar quem pensou sobre a prática da justiça e a sede de ser justo (Sócrates, Platão, Hobbes, Locke, Hume, Kant, Montesquieu) e demarcou que é essencial seguir aperfeiçoando a noção de justiça. Lembrando que esses nomes não esgotam essas lições.

O inventário não estaria completo sem os conhecimentos sobre a própria Educação e também, os saberes sobre Política.

A educação alicerça o processo de humanização, então cuidemos das lições de quem a escolheu como área privilegiada de saber (Sócrates, Platão, Aristóteles, a Paidéia dos gregos, Comênio, Confúcio, Rousseau, Vygotsky, Piaget, Paulo Freire).

Também não iria preterir quem pensou as ciências políticas. Elas esclarecem a natureza das relações de poder entre homens e sociedades (Platão, Hobbes, John Stuart Mill, Karl Marx, Rawls); mestres cujos insights podem nos ajudar a exercer poder sem deixar de nos reconhecermos como zeladores de relações justas que assegurem a convivência  pautada na consideração do outro e na cultura de paz.

Sem dúvida, eu incluiria obras que permitissem conhecer as vidas de místicos, espiritualistas e santos com o objetivo de firmar os valores da humildade, da compaixão e da simplicidade, tão contrários à ganância, presunção e frivolidade que, não raro, servem de modelos aos jovens. Deixaria ainda nesse testamento imaterial, biografias de heróis que ajudariam os jovens a compreender que há causas e lutas humanas e que para servi-las é preciso, caráter, coragem e afinco.

Enfim, essa lista está só no começo. Mas é útil, pensar que cada um vai deixar um tesouro muito singular, conforme os valores e prioridades que elegeu como legado à humana descendência.

Aqui vai o primeiro rascunho de um inventário de ideias. Que tal construir a sua?

Retrato de Alberto de Eliseu Visconti

A colheita, obra de Cicero Dias (1907-2003)
Somos também o outro em toda relação

Qual o papel da gentileza em um mundo marcado pela pressa e pelo consumo?

Não há saída possível aos desafios da aventura do homem na terra que não passe por algum tipo de laço ou relação.

Então, por que não ser gentil?

Nossas práticas de convivência se define por uma busca de completude egoísta, como se nos bastássemos para resolver todos os problemas e alcançar todos os objetivos.

É como se fôssemos movidos por uma ilusão de autossuficiencia , onde a exclusão dos semelhantes fosse possível.

Essa ilusão não nos ajuda e emperra muito nosso crescimento pessoal.

Os requisitos primeiros da existência é a capacidade de reconhecer-se como membro da tribo humana e ser capaz de viver em comunidade, conectado pelos laços do afeto, da  comunicação e do trabalho.

Mas, reconheçamos. Muitas vezes, essas exigências de agirmos como seres dispostos à interação parece tarefa irrealizável, estamos sempre tentados a considerar o rompimento de laços pela via da agressão e hostilidade como solução para nossas dificuldades de relacionamento.

Acontece que, principalmente, nessas situações críticas, é que é preciso desobstruir a via comunicativa e estender os braços para retomar uma relação mínima pautada  na cortesia.

Somente a civilidade, a cortesia são capazes de manter aberta a vida da compreensão mútua que traz a possibilidade do perdão e da retomada da relação noutro patamar.

É fato que interagir de forma edificante é desafiador. Nossa natureza é ambígua. Reunimos uma dupla condição de seres culturais constituídos também por uma natureza animal. E há, certamente, situações, momentos e pessoas que nos levam à exasperação e nos confrontam de forma nítida com essa dupla natureza.

Então como conjugar nossa natureza múltipla de forma a integrar o que nelas há de melhor?

Como seres capazes de inventar signos e atribuir-lhes sentido, podemos fundar modelos de interação elevada. Podemos  inventar códigos baseados na empatia e na consideração do outro e usar argumentos forjados na consciência profunda de nós e de nossos pares.

Freud dizia que o primeiro homem a preterir o uso da lança e utilizar o argumento para revidar ofensas fundou a civilização. E o psicanalista de Viena sabia o que estava dizendo. É o discurso como capacidade de criar argumentos, que nos funda enquanto sujeitos e institui a interação sustentada pela convivência civilizada.

E o que tem a gentileza a ver com tudo isso?

A gentileza é o código da sensibilidade relacional. Ela exprime senso de alteridade e a disposição de ânimo que deriva da consciência humana de sermos parte de um projeto comum.

Eis a chave: só há uma relação se houver a consideração do outro.

Sartre dizia que ‘o inferno são os outros’. Ele tinha parcialmente razão. É difícil sondar e acessar o semelhante com seus desejos e singularidades. Mas, eles são também parte indispensável do nosso céu. Não há alguém sem o outro para reconhecê-lo e nomeá-lo como tal.

A gentileza, a civilidade, a convivência elevada são os pilares da ponte única que nos leva e eleva em nosso percurso rumo à construção dos significados para uma existência com sentido. E não há felicidade fora desse circuito.

A gentileza permite aproximação sensível, dá estabilidade mínima às relações para que elas possam realizar-se no acolhimento e na compreensão para além dos nós naturais advindos das disputas e incompreensões.

Por volta de 1910, Mary Mercedes, uma freira dominicana, publicou o ‘Livro da Cortesia’ no qual diz: a atitude gentil quando chega aos pesados ambientes hostis traz a luz e a brisa fresca de uma manhã’. Lição valiosa nos dias de hoje quando todos parecem crer que não há mais espaço para gentilezas.

Mas, quanto mais as relações humanas beiram os abismos da indiferença e da hostilidade gratuita, mais precisamos gravar na memória que o espírito da civilidade é atemporal.

E a nós cumpre realizá-lo em qualquer tempo.

Os laços humanos se sustentam pela consideração do outro.
Os laços humanos se sustentam pela consideração do outro.

Colher os frutos da experiência...
Uma criança habita nosso ser….

Somos seres abertos ao crescimento. Por isso, dizemos que há uma criança que habita nosso ser. Ela representa a necessidade humana de contínua transformação.

Assim, do início até o epílogo da ópera da vida, precisamos continuar afinando instrumentos, transformando atitudes. Mas, se olharmos com olhos que enxergam, veremos que nos dividimos entre pessoas de atitudes rígidas e pessoas com vontade fraca e decisões frouxas.

Pessoas rígidas têm hábitos e pontos de vista arraigados; tiram pouco proveito da experiência e se apegam com fervor a opiniões não revistas. Estão presas a ressentimentos, tendendo ao rancor e à negatividade.

No sentido oposto, temos pessoas que não se afirmam. Seres ‘à deriva’, que dissolvem a própria identidade, conforme circunstâncias. São chamadas vulgarmente  de ‘maria vai com as outras’, por assumirem, sempre, um centro de controle externo ao firmar propósitos, em detrimento de referências internas.

Mas, tanto a rigidez como a vontade fraca deformam identidades e empobrecem percursos de vida, uma vez que podem nos levar a agir como adultos empedernidos ou seres alienados da  própria identidade.

A despeito de tudo isso, sendo vocacionados à expansão, podemos adotar a flexibilidade para uma atuação mais centrada: revendo escolhas, dosando atitudes e agindo com temperança.

A flexibilidade é o atributo humano ligado à busca de equilíbrio. É requisito para a maturidade do ego. Para  benefício do processo de crescimento, é preciso integrá-la para um agir mais equilibrado.

É natural da infância, a busca da novidade e da experimentação; o agir da criança é, portanto, fonte de inspiração para o aprendizado da flexibilidade.

À proporção que nos tornamos adultos, vamos nos afastando de riscos e novidades. Fixamos padrões de conduta em detrimento de nossa criança interior, ou seja, da nossa capacidade de tatear caminhos.

Ser adulto não significa adotar condutas padronizadas e artificiais. Amadurecer é aprender a navegar com bússola própria e caminhar firme, mas consciente de que há diferentes rotas e distintas navegações.

Nossa ‘criança interior’ é senha para encontrar o ‘caminho do meio‘, como dizia Aristóteles, ou seja, o caminho da dose certa. Representa a lógica da mente emocional e intuitiva, em contraponto com a lógica racional.

A criança interna de cada um integra em nós o pensamento movido por intuição, sonhos, poesia e mito. É o tempero para a firmeza proporcional própria do amadurecimento pertinente e este faz o ego adulto.

Na poesia: Sonho de um sonho, Drummond fala dessa abertura para o mundo, como forma de nos mantermos sábios e prontos a assumir a condição de seres inacabados:

Eu sonhava que estava alerta,
e mais que alerta, lúdico,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
vinha cingir-me e dourar-me.

Então, que tal convivermos mais com a criança que habita em nós?

Equilíbrio entre permanecer e mudar
Equilíbrio e crescimento