Rembrandt - Retrato de Tito
Sozinho – envolto em si, por si e para si

O egoísmo é a atitude de quem dá predominância somente aos próprios interesses e juízos, sem considerar necessidades e ideias alheias. O adjetivo ‘egoísta’, desse modo, se aplica à pessoa que, de forma sistemática, põe interesses pessoais acima de qualquer circunstância e se recusa à troca benévola de ajuda e boa vontade. 

A expressão egoísmo foi criada no século XVIII e, ás vezes, é utilizada como sinônimo de egocentrismo. Mas há diferença.

O egocentrismo é mais a falha na compreensão ampla da realidade que uma questão moral. O egocêntrico tem a compreensão deformada de perspectiva de mundo. Assim, ele sempre parte da visão pessoal na leitura de contexto, uma vez que acha que o mundo gira em torno de si.

Na evolução da linguagem infantil, o egocentrismo é forte no período dos cinco até, mais ou menos, oito anos. A criança não reconhece um interlocutor diferente dela. Não há a compreensão de que ela precisa se fazer entender, então seu discurso é voltado para si.

O egoísmo, por sua vez, é um aspecto do caráter pessoal, uma vez que não se limita à leitura egocêntrica da realidade. O egoísta põe seus interesses sempre acima das circunstâncias em detrimento do direito alheio. Ele ‘deforma’ a realidade para que nela caibam seus ganhos e vantagens.

Essa característica do egoísta no trato com as transações e relações com que se depara, o levam a manter relações objetais. Ou seja, pessoas são instrumentos para o uso dele, que se aproveita do afeto que nelas suscita para obter benefícios.

É bom anotar que todos, em algum momento, temos atitudes egoísticas, mas isso não nos faz egoístas patológicos. As pessoas empáticas, quando agem com egoísmo, sentem drama de consciência. Pedem desculpas. Reparam erros. Não é o caso do egoísta. Ele sente-se bem agindo como age. Acha-se esperto e julga bobos todos os seres empáticos.

Podemos afirmar que há uma gradação no egoísmo. Há pessoas egoístas que querem exercer supremacia e obter vantagens, mas têm algum freio moral e limitam suas investidas. Elas não agridem fisicamente, nem querem prejudicar diretamente o outro.

Mas há um nível mais deletério e cruel de egoísmo. Neste, não há freios. A sanha egoística usa até meios ilícitos e violentos para neutralizar obstáculos.

Não é fácil relacionar-se com uma pessoa egoísta, por isso, o egoísta tem dificuldades para manter relações duradouras. E a razão é simples: a reciprocidade, a confiança e a consideração mútua são requisitos relacionais para as parcerias e não se  espera tais atitudes de alguém que vive embriagado de si mesmo.

As pessoas fogem dos egoístas. Elas sabem que na primeira situação em que haja o menor conflito de interesses, o egoísta vai desequilibrar a relação com atitudes de ingratidão, usurpação e mesquinhez.

Talvez por essa razão, quando nos lembramos de alguém que achamos egoísta, a primeira emoção que emerge é a raiva por sabermos que ele supõe ser justo manter relações tão assimétricas do ponto de vista da consideração.

Contudo, se olharmos friamente, veremos que os egoístas são pessoas com relações afetivas cercadas por desconfiança e suspeição e, portanto, emocionalmente pobres.

É notório. Os egoístas são seres isolados e desconfiados. Estão sempre à espreita. Habitam um mundo particular de espelhos facetados que refletem somente a eles próprios e seus interesses (geralmente materiais). E quando um destes espelhos se quebra, eles percebem a estreiteza e solidão de seu espaço afetivo.

Talvez se encontrássemos um egoísta na sua hora extrema e lhe segurássemos a mão, sentiríamos mãos rígidas, desajeitadas para o carinho, mas sedentas por recebê-lo.

Annabel Sleeping, obra de Lucien Freud.
Não ignorar o que nos afeta

As paixões impactam a forma como reagimos à realidade, daí, o profundo interesse que a temática desperta entre leigos e estudiosos do comportamento humano.

É comum associar à palavra paixão, somente os sentimentos envolvidos no amor-romance em que os amantes se querem loucamente e vão, contra tudo e todos, vivendo um intenso romance. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda são histórias que exemplificam esse amor ao estilo ‘até às últimas consequências’.

Entretanto, a palavra paixão tem sentido mais amplo, uma vez que pode nomear múltiplos tipos de manifestações emocionais e sentimentais.
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Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.
Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.

Cuidamos da nossa imagem social. Queremos produzir emoções  positivas no nosso círculo de convivência.

Com essa finalidade, procuramos usar trajes que nos identifiquem com signos de novidade e aceitação social. Com o lar não é diferente. É natural receber amigos cuidando para dar à casa um bonito e renovado visual.

Mas, e quanto aos  sentimentos? Cuidamos das vestimentas dos afetos? Tiramos o pó acumulado sobre velhos julgamentos? Iluminamos o recôndito da  alma com a luminária da compreensão? Enfeitamos relações com a beleza da empatia? Enfim, atualizamos sentimentos?

Atualizar sentimentos traz incontáveis benefícios à saúde e alarga a porta que leva à felicidade; renova visões, oxigena ideias, reconstrói afetos, propicia autoconhecimento e transformações.

Mas, se é assim, por que é difícil revisitar as emoções que ditam relacionamentos? Como ignorar que julgamentos condicionam pensamentos e ações? Por que não fazer uma apreciação renovada dos vínculos, sejam de atração ou aversão?

Deve parecer estranho falar em laços, quando tratamos de emoções aversivas. Mas o fato é que estamos ligados afetivamente a todos com quem nos relacionamos. Seja pelas emoções de amor ou seus opostos, cada um é parte de uma teia emocional. E, não raro, investimos muita energia em prejuízo da expressão de afetos positivos

A mágoa e o isolamento amargo são ervas daninhas da vida emocional; o rancor diminui a franqueza espontânea. São afetos que deflagram atitudes hostis e produzem relações empobrecidas.

Há pessoas que se vendo impotentes para expelir a raiva, projetam hostilidades contra si mesmas. E há os que não explicitam raivas arraigadas que se manifestam em doenças somáticas (dores de cabeça, pruridos, psoríases) e outros escapes de hostilidades represadas.

E de onde vem o estoque de rancor? Os rancores têm origem em mágoas mal resolvidas; ressentimentos não considerados. Ignorar emoções é inútil, pois sua vocação natural é se expressar. De um jeito ou de outro.

Por essa razão é preciso refletir, entrar em contato com as próprias emoções para integrá-las de forma consciente a ações e reações.

No texto, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Freud diz que ‘alguns afetos evocam reações tão inapropriadas que se chocam com o movimento natural do desenvolvimento humano’. Talvez possamos dizer que o ressentimento persistente  tem esse efeito.

O filósofo clínico Lou Marinoff  diz que devemos ser protagonistas e não, coadjuvantes da vida emocional. Ele afirma que uma pessoa pode nos ofender, mas se a ofensa se transformará em dano, é decisão pessoal. Segundo o filósofo, a ofensa vem do outro, mas  é a força atribuída a ela que a transforma em dano para seu alvo

Ainda na visão de Lou Marinoff, há um fenômeno psicológico denominado reciprocidade negativa de julgamento e intenções, que está na base do ressentimento persistente. O mecanismo atua assim: pessoas com baixa tolerância à frustração e suscetíveis ao julgamento social tendem a julgar e reagir à presença do outro, conforme seu nível de autoexigência.

É um círculo vicioso: pessoas críticas e intolerantes com as falhas alheias esperam reciprocidade no julgamento (rigor), portanto, além de reagirem mal a críticas, têm dificuldades de expressar sentimentos quanto a críticas recebidas. Isso favorece o ressentimento que se transforma em rancor.

O rancor é uma emoção autorreferente. Explico. O rancoroso sente raiva  continuamente e sofre os efeitos nocivos dessa corrente emocional. É possível afirmar que o rancor é uma agressão contínua e silenciosa a si próprio.

O psicólogo social Leonard Berkowitz diz que as agressões mal sucedidas intensificam a raiva, daí é possível afirmar que o rancor é um comportamento que se alimenta continuamente.

E como escapar desse circuito emocional que pode condenar relações? Os psicólogos apontam a compreensão dos próprios sentimentos como o primeiro passo. E orientam o reexame dos critérios de julgamentos ao firmarmos antipatias e simpatias nas relações.

É preciso atentar para o peso de atitudes para estabelecer bom ou mau clima relacional e para fixar a percepção alheia positiva quanto ao nível de bem-estar emocional que nossa presença exprime.

Aristóteles, um dos sábios gregos, ensinava que para afastar o ressentimento e semear boas relações é preciso fazer esforço para enxergar o outro como ‘um outro eu’. Para ele, a superação da inimizade pede piedade e solicitude. Na compreensão filosófica de Aristóteles, para romper a corrente de afetos maléficos, é preciso dar o primeiro passo e agir almejando grandes sentimentos e sendo dignos deles.

Para o pensador francês René Descartes, somente a generosidade leva à grandeza das relações. Assim, a superação do rancor só é possível quando o julgamento da ação alheia preza pelos valores humanos que julgamos caros a nós mesmos.

Então, para uma existência menos tóxica, fica um convite à faxina dos sentimentos ruins.

 Reconstruir o sentido de comunidade humana ...

Reconstruir o sentido de comunidade humana …

O medo ou coragem de viver
Coragem de olhar o que move o próprio medo…

Para nós ocidentais, temer o futuro é uma tendência arraigada.

É compreensível que certa apreensão quanto ao futuro apareça, pois quando pensamos nas ações e escolhas que o definirão, constatamos que nelas há sempre um elemento de aposta, o que nos impõe sentimentos de incerteza.

Ocorre que diante das incertezas e apostas, costumamos assumir duas posturas: apegamo-nos a ilusões ou fugimos para não nos confrontarmos com receios e temores.

De fato, ter alguma ilusão em momentos de desespero pode ajudar a ganhar tempo até ver a realidade de forma menos crua e se recompor para voltar à luta.

Ter medo não é ruim em si. O medo é um afeto. Ele produz percepções do alcance dos fatos para nossos interesses. Assim sendo, o medo  tem funções protetivas, permite-nos minimizar riscos e potencializar benefícios.

Mas, existem outras atitudes possíveis.

Podemos manter uma postura realística, mas esperançosa e revestir decisões com ousadia calculada, temperada com a emoção do risco e a segurança da atitude previdente que enxerga o futuro como um lugar desejável, mas para o qual precisamos estar preparados.

Essa fixação em posturas ilusórias ou medrosas decorre de hábitos de enxergar o futuro apenas como risco. Parece que nossas referências existenciais se constituem mais pelo que tememos do que pelo que desejamos.

A ilusão e o medo excessivo nos tornam vulneráveis então, acabamos agindo como criaturas, cuja vontade é subjugada pela desesperança.

Segundo a Psicanálise, o medo excessivo pode ser fruto de inadaptações. É o medo neurótico, fixado em conflitos que nos esmagam. O medo que enfraquece e ofusca nosso potencial. O temor pode ser um sintoma que anuncia algo reprimido. Algo que nos constitui e por isto mesmo, tem força inapelável sobre nossas ações e escolhas, por isso, o autoconhecimento é fundamental para enfrentar esse afeto, quando ele nos imobiliza.

Para os existencialistas, quando nos comprimimos pelo medo, adotamos um estilo de vida neurótico e nos movemos em um apertado espaço existencial.

E efetivamente, se pensarmos na vida como o espaço no qual nos movemos, veremos que o predomínio incessante do medo aniquila a vontade, cessa o gosto pela ação, frustra relações. Conviver com pessoas positivas e confiantes pode ajudar a lidar com o medo do futuro.

Rudyard Kipling, poeta britânico, dizia: ’Entre todos os mentirosos do mundo, às vezes, os piores são os nossos próprios temores’.

Ele fala com propriedade do medo inventado pelas  nossas fantasias de desamparo, desesperança e solidão e nossas ilusões megalomaníacas, mas que infelizmente, acabam definindo nossas escolhas.

E quantas vezes não temos apenas esses medos e seus subprodutos como conselheiros?

Carreira, amores, amizades, condição material. Não importa o campo sobre o qual recairão nossas decisões. O maior  antídoto para o medo imobilizante é a ação consciente, confiante e esperançosa.

O ensaísta Ralph Waldo Emerson dizia em um de seus brilhantes textos: ‘Fazes o que tu temes e a morte do medo será certa’.

Sua exortação é inspiração para uma visão ativa de como devemos nos sentir quando confrontados com o medo do futuro e nos convida à autoconfiança e ao entusiasmo ao assumirmos as escolhas que a vida propõe.

O que nos conduz ao futuro é ter um pé firme no presente e agir de forma afirmativa e autodeterminada, sem esquecermos de que o medo pode ser administrado com boas doses de esperança.

Deixar-se guiar pelas melhores emoções
Deixar-se guiar pelas melhores emoções