Annabel Sleeping, obra de Lucien Freud.
Não ignorar o que nos afeta

As paixões impactam a forma como reagimos à realidade, daí, o profundo interesse que a temática desperta entre leigos e estudiosos do comportamento humano.

É comum associar à palavra paixão, somente os sentimentos envolvidos no amor-romance em que os amantes se querem loucamente e vão, contra tudo e todos, vivendo um intenso romance. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda são histórias que exemplificam esse amor ao estilo ‘até às últimas consequências’.

Entretanto, a palavra paixão tem sentido mais amplo, uma vez que pode nomear múltiplos tipos de manifestações emocionais e sentimentais.
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Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.
Iluminar a casa dos sentimentos com a luminária do perdão.

Cuidamos da nossa imagem social. Queremos produzir emoções  positivas no nosso círculo de convivência.

Com essa finalidade, procuramos usar trajes que nos identifiquem com signos de novidade e aceitação social. Com o lar não é diferente. É natural receber amigos cuidando para dar à casa um bonito e renovado visual.

Mas, e quanto aos  sentimentos? Cuidamos das vestimentas dos afetos? Tiramos o pó acumulado sobre velhos julgamentos? Iluminamos o recôndito da  alma com a luminária da compreensão? Enfeitamos relações com a beleza da empatia? Enfim, atualizamos sentimentos?

Atualizar sentimentos traz incontáveis benefícios à saúde e alarga a porta que leva à felicidade; renova visões, oxigena ideias, reconstrói afetos, propicia autoconhecimento e transformações.

Mas, se é assim, por que é difícil revisitar as emoções que ditam relacionamentos? Como ignorar que julgamentos condicionam pensamentos e ações? Por que não fazer uma apreciação renovada dos vínculos, sejam de atração ou aversão?

Deve parecer estranho falar em laços, quando tratamos de emoções aversivas. Mas o fato é que estamos ligados afetivamente a todos com quem nos relacionamos. Seja pelas emoções de amor ou seus opostos, cada um é parte de uma teia emocional. E, não raro, investimos muita energia em prejuízo da expressão de afetos positivos

A mágoa e o isolamento amargo são ervas daninhas da vida emocional; o rancor diminui a franqueza espontânea. São afetos que deflagram atitudes hostis e produzem relações empobrecidas.

Há pessoas que se vendo impotentes para expelir a raiva, projetam hostilidades contra si mesmas. E há os que não explicitam raivas arraigadas que se manifestam em doenças somáticas (dores de cabeça, pruridos, psoríases) e outros escapes de hostilidades represadas.

E de onde vem o estoque de rancor? Os rancores têm origem em mágoas mal resolvidas; ressentimentos não considerados. Ignorar emoções é inútil, pois sua vocação natural é se expressar. De um jeito ou de outro.

Por essa razão é preciso refletir, entrar em contato com as próprias emoções para integrá-las de forma consciente a ações e reações.

No texto, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Freud diz que ‘alguns afetos evocam reações tão inapropriadas que se chocam com o movimento natural do desenvolvimento humano’. Talvez possamos dizer que o ressentimento persistente  tem esse efeito.

O filósofo clínico Lou Marinoff  diz que devemos ser protagonistas e não, coadjuvantes da vida emocional. Ele afirma que uma pessoa pode nos ofender, mas se a ofensa se transformará em dano, é decisão pessoal. Segundo o filósofo, a ofensa vem do outro, mas  é a força atribuída a ela que a transforma em dano para seu alvo

Ainda na visão de Lou Marinoff, há um fenômeno psicológico denominado reciprocidade negativa de julgamento e intenções, que está na base do ressentimento persistente. O mecanismo atua assim: pessoas com baixa tolerância à frustração e suscetíveis ao julgamento social tendem a julgar e reagir à presença do outro, conforme seu nível de autoexigência.

É um círculo vicioso: pessoas críticas e intolerantes com as falhas alheias esperam reciprocidade no julgamento (rigor), portanto, além de reagirem mal a críticas, têm dificuldades de expressar sentimentos quanto a críticas recebidas. Isso favorece o ressentimento que se transforma em rancor.

O rancor é uma emoção autorreferente. Explico. O rancoroso sente raiva  continuamente e sofre os efeitos nocivos dessa corrente emocional. É possível afirmar que o rancor é uma agressão contínua e silenciosa a si próprio.

O psicólogo social Leonard Berkowitz diz que as agressões mal sucedidas intensificam a raiva, daí é possível afirmar que o rancor é um comportamento que se alimenta continuamente.

E como escapar desse circuito emocional que pode condenar relações? Os psicólogos apontam a compreensão dos próprios sentimentos como o primeiro passo. E orientam o reexame dos critérios de julgamentos ao firmarmos antipatias e simpatias nas relações.

É preciso atentar para o peso de atitudes para estabelecer bom ou mau clima relacional e para fixar a percepção alheia positiva quanto ao nível de bem-estar emocional que nossa presença exprime.

Aristóteles, um dos sábios gregos, ensinava que para afastar o ressentimento e semear boas relações é preciso fazer esforço para enxergar o outro como ‘um outro eu’. Para ele, a superação da inimizade pede piedade e solicitude. Na compreensão filosófica de Aristóteles, para romper a corrente de afetos maléficos, é preciso dar o primeiro passo e agir almejando grandes sentimentos e sendo dignos deles.

Para o pensador francês René Descartes, somente a generosidade leva à grandeza das relações. Assim, a superação do rancor só é possível quando o julgamento da ação alheia preza pelos valores humanos que julgamos caros a nós mesmos.

Então, para uma existência menos tóxica, fica um convite à faxina dos sentimentos ruins.

 Reconstruir o sentido de comunidade humana ...

Reconstruir o sentido de comunidade humana …

O medo ou coragem de viver
Coragem de olhar o que move o próprio medo…

Para nós ocidentais, temer o futuro é uma tendência arraigada.

É compreensível que certa apreensão quanto ao futuro apareça, pois quando pensamos nas ações e escolhas que o definirão, constatamos que nelas há sempre um elemento de aposta, o que nos impõe sentimentos de incerteza.

Ocorre que diante das incertezas e apostas, costumamos assumir duas posturas: apegamo-nos a ilusões ou fugimos para não nos confrontarmos com receios e temores.

De fato, ter alguma ilusão em momentos de desespero pode ajudar a ganhar tempo até ver a realidade de forma menos crua e se recompor para voltar à luta.

Ter medo não é ruim em si. O medo é um afeto. Ele produz percepções do alcance dos fatos para nossos interesses. Assim sendo, o medo  tem funções protetivas, permite-nos minimizar riscos e potencializar benefícios.

Mas, existem outras atitudes possíveis.

Podemos manter uma postura realística, mas esperançosa e revestir decisões com ousadia calculada, temperada com a emoção do risco e a segurança da atitude previdente que enxerga o futuro como um lugar desejável, mas para o qual precisamos estar preparados.

Essa fixação em posturas ilusórias ou medrosas decorre de hábitos de enxergar o futuro apenas como risco. Parece que nossas referências existenciais se constituem mais pelo que tememos do que pelo que desejamos.

A ilusão e o medo excessivo nos tornam vulneráveis então, acabamos agindo como criaturas, cuja vontade é subjugada pela desesperança.

Segundo a Psicanálise, o medo excessivo pode ser fruto de inadaptações. É o medo neurótico, fixado em conflitos que nos esmagam. O medo que enfraquece e ofusca nosso potencial. O temor pode ser um sintoma que anuncia algo reprimido. Algo que nos constitui e por isto mesmo, tem força inapelável sobre nossas ações e escolhas, por isso, o autoconhecimento é fundamental para enfrentar esse afeto, quando ele nos imobiliza.

Para os existencialistas, quando nos comprimimos pelo medo, adotamos um estilo de vida neurótico e nos movemos em um apertado espaço existencial.

E efetivamente, se pensarmos na vida como o espaço no qual nos movemos, veremos que o predomínio incessante do medo aniquila a vontade, cessa o gosto pela ação, frustra relações. Conviver com pessoas positivas e confiantes pode ajudar a lidar com o medo do futuro.

Rudyard Kipling, poeta britânico, dizia: ’Entre todos os mentirosos do mundo, às vezes, os piores são os nossos próprios temores’.

Ele fala com propriedade do medo inventado pelas  nossas fantasias de desamparo, desesperança e solidão e nossas ilusões megalomaníacas, mas que infelizmente, acabam definindo nossas escolhas.

E quantas vezes não temos apenas esses medos e seus subprodutos como conselheiros?

Carreira, amores, amizades, condição material. Não importa o campo sobre o qual recairão nossas decisões. O maior  antídoto para o medo imobilizante é a ação consciente, confiante e esperançosa.

O ensaísta Ralph Waldo Emerson dizia em um de seus brilhantes textos: ‘Fazes o que tu temes e a morte do medo será certa’.

Sua exortação é inspiração para uma visão ativa de como devemos nos sentir quando confrontados com o medo do futuro e nos convida à autoconfiança e ao entusiasmo ao assumirmos as escolhas que a vida propõe.

O que nos conduz ao futuro é ter um pé firme no presente e agir de forma afirmativa e autodeterminada, sem esquecermos de que o medo pode ser administrado com boas doses de esperança.

Deixar-se guiar pelas melhores emoções
Deixar-se guiar pelas melhores emoções