Acabo de reler É Isto um Homem? De Primo Levi. Leitura forte para esses tempos turbulentos de pandemia. Dias difíceis de assimilar.

O livro desse autor que viveu os horrores do holocausto, mesmo tendo qualidade literária extraordinária, não minimiza o impacto que a memória daquela hecatombe nos causa. Além disso, coloca em relevo a constatação dolorosa de que muitos dos maiores sofrimentos humanos foram infligidos pelos próprios homens aos seus semelhantes.

Provavelmente, pela sua importância humanitária, voltarei à releitura do livro de Levi, mas prometi a mim mesma que na quarentena, optaria por leituras leves.

Fiel a esse propósito, selecionei prováveis leituras para fazer até o final de maio (tomara que até lá, a noite que atravessamos já tenha amanhecido em dia de abraços, reencontros e novo esperançar). (mais…)

Gabriel Pacheco, “Icaro nel Cuore de Dedal”

Quem nunca sonhou em ficar longe das obrigações de trabalho e poder abrir janelas de tempo para tarefas escolhidas por iniciativa própria e livres de imposições?

Esse é o cenário de sonho para muitos. Ocorre que às vezes, precisamos encarar situações nas quais essa ‘liberdade’ chega, mas implica guardar um tempo de reclusão.

É o caso das quarentenas, quando o privilégio de estar liberado da rotina pode virar um fardo e levar as pessoas a experimentarem sentimentos de opressão, desânimo e, não raro, culminar em desespero.

Vivemos agora essa situação. O isolamento social para evitar a contaminação pelo Covid-19 materializa esse cenário de forma palpável e, também, o desafio de ultrapassar o momento com estabilidade emocional. (mais…)

Os leitores assíduos, mesmo quando não estão lendo, estão pensando em livros.

Tenho observado o comportamento de pessoas que gostam muito de ler e descobri que muitas delas ‘sofrem’ de uma doce patologia: a leiturice.

A leiturice se manifesta na incapacidade de ficar, pelo menos por um dia, longe de livros. E seus sintomas são evidentes. Primeiro, a pessoa tem dificuldade de parar de ler. Segundo, se estiver impossibilitada de fazê-lo, precisa ter um livro pelo menos à vista.

Observe um leitor acometido de leiturice e perceba como ele fica agitado no ambiente sem livros. Quando verifica que está no deserto (no caso, deserto é um lugar privado de livros) fica agitado. Age como se procurasse ar. Examina o local em detalhes à procura de pelo menos um exemplar que o acalme.

Descobri, também, que ao contrário das outras doenças, a leiturice inventa a própria imortalidade. Explico. O leitor voraz tem sempre uma lista infindável de livros para ler, antes da hora final. Fato que o obrigará a permanecer vivo por pelo menos mais trezentos anos.

Além disso, a leitura é como um condão que pode fazer a mágica de nos transportar do presente ao passado ou voar direto ao futuro. E esses transportes pelo tempo que nos permitem varar milênios em algumas páginas reforçam essa sensação de, nesses momentos, nos sentirmos como seres tocados pela imortalidade.
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Será que conseguimos ler quando nos sentimos tristes, desanimados e até descrentes de nós mesmos?

Realmente, é difícil imaginar que nos momentos, em que o estado de ânimo é abalado por dificuldades, a leitura ajudaria a abstrair e trazer algum alívio do peso que sentimos.

A ideia mais cultivada sobre o que nos alivia quando estamos exaustos, fatigados ou vulneráveis é a de que a leitura é tarefa árdua, inócua e ainda mais tensionadora.

A proposta aqui é rever o modelo mental que nos leva a ter essa impressão e descobrir que a experiência de ler nas horas desafiadoras traz forte alento. Nessas horas, ler pode ter o efeito de uma oração; pode ser uma diversão que abrirá um portal para a evasão das ideias obsessivas que teimam em se repetir como espiral insana na preocupação.
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