Obra de De Chirico - Orfeu Solitário. 1973
Filtros incorporados para uma vida mais consciente.

Empregamos a expressão ‘vida interior’ como sinônimo da palavra espírito, no sentido de manifestação da espiritualidade religiosa. Entretanto, podemos utilizá-la em sentido mais amplo.

Nos dicionários, somente alguns significados da palavra espírito trazem o sentido místico ou religioso. Na conotação mística, espírito pode ser o sopro emanado do poder divino para constituir a alma imortal ou o nome dado às manifestações  de substâncias incorpóreas como anjos, demônios, almas e  fantasmas.

Entretanto, além do sentido místico, os dicionários também atribuem à palavra espírito, significados filosóficos e psicológicos.

Você deve estar se perguntando: e qual a importância de tomar conhecimento do conceito de vida interior na Filosofia e na Psicologia? (mais…)

Obra de Mike Stilkey
Bibliotecas são plataformas para o futuro

A frequência assídua a bibliotecas traz amplos benefícios à formação, por isto, poderia  ser prática sistemática e aspecto valorizado nos currículos escolares de todos os níveis.

As bibliotecas, por centralizarem um universo ampliado de tipos de livros e autores, permitem sistematizar programas de estudos para o crescimento pessoal. Daí que ir à biblioteca não precisa ter como fim somente as retiradas de exemplares para estudos visando notas.

Quando vamos a uma biblioteca, podemos acessar um universo de informações, experiências e mentalidades que será tanto melhor aproveitado, se adotarmos um regime de ação sistemática e deliberada. 

É assim que vamos compor um lastro de saberes que vai incrementar habilidades e níveis de conhecimentos, que podem fazer diferença no tipo de pessoa que queremos nos tornar.

Personalidades que deram contribuições fundamentais à história humana sabiam do papel das bibliotecas como lugares de conhecimento. Eram verdadeiros ‘ratos de biblioteca’. Freud, Karl Marx, Jorge Luiz Borges e Sartre são alguns exemplos. (mais…)

A verdade é sempre menina e, não raro, está ferida

Desculpas, artimanhas, disfarces, ilusões, falseamentos dos fatos, formalidades encobridoras de sentimentos reais, comentários evasivos e mentirinhas de amor.

Quem está imune a sofrer ou aplicar aos atos humanos, artifícios que, cotidianamente, travestem de verdade pequenas ou grandes mentiras?

Talvez uma das respostas à questão seja que temos consciência de que a realidade tem força sobre nós e define boa parte do nosso destino. Por causa disto, muitas vezes, consideramos cômodo o refúgio em fantasias e ilusões que a negam ou amortecem.

A Literatura ilustra o medo de encarar a realidade inexorável. Um exemplo está em Angústia, obra de Graciliano Ramos, quando, Luís da Silva, o protagonista, diz: ‘Quando a realidade me entra pelos olhos, meu pequeno mundo desaba’.

O embate entre verdade e ilusão e a resistência de encararmos realidades distintas do que concebemos é tão central que é o tema da alegoria da caverna, exposta por Sócrates em um dos diálogos escritos por Platão.

Para entendermos esse eterno conflito entre o verdadeiro e o ilusório é preciso, antes, fazer uma distinção entre o que é a realidade e o que seja a verdade.

Costumamos utilizar os dois termos como sinônimos. Contudo, a realidade ou real é o que está dado. É o fato, fenômeno ou objeto em si. Daí ser sempre indomável e impessoal, pois o real é o que é ou ocorre objetivamente, livre de interpretações e olhares.

Por sua vez, a verdade é um olhar sobre a realidade objetiva, a verdade tem sempre um caráter pessoal, pois é a visão de alguém sobre o real.

Nesse sentido, é ilustrativa a visão de Drummond no seu Poema da Verdade, cujos versos dizem: “Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em duas metades diferentes uma da outra”.

De fato, não tocamos diretamente o real, nos relacionamos com ele indiretamente, a partir da percepção. Daí, que um desafio humano seja traduzir o real, rico e complexo, de forma aproximada e livre de inclinações e interesses.

É impossível sobreviver ignorando o real, razão pela qual, a despeito de ser impossível traduzi-lo perfeitamente, precisamos esgotar os recursos de pensamento, linguagem, afetos e emoções para decifrá-lo.

É desse esforço de tradução do real que nasce a verdade como território coletivo, como união sinérgica de olhares subjetivos movidos pela intenção comum de desvendá-lo de forma honesta e bem-intencionada.

E o trabalho coletivo de construção da verdade não é opção. É exigência humana, uma vez que a convivência, o trabalho e as relações dependem da capacidade de construir a verdade comum da forma empática e benéfica.

A Alegoria da Caverna, exposta por Platão, fala do esforço dos que saem da caverna e veem a realidade que está fora dela, mas fala também da resistência dos que nela permanecem de aceitar uma realidade diferente.

Na Alegoria da Caverna está implícita a pergunta: somos como os homens que só aceitam a verdade da caverna ou somos como os que saem e percebem a multiplicidade do real?

Muitas vezes, somos como aqueles homens acorrentados no fundo da caverna de Platão. Presos a um universo particular, enxergamos a realidade com profundo fechamento de visão para o que é diferente.

Então, vivemos a ‘verdade da caverna’ e nos recusamos a ver a realidade que vem de outros olhares e como nos apegamos apenas à verdade da caverna, nos recusamos a ouvir argumentações que visem à clareza da situação, utilizamos palavras que dão aparência de verdade ao que é apenas um ponto de vista pessoal e, por isto, é reduzido.

Nas discussões, nos apegamos à nossa ideia ou visão e nos debatemos no mero combate, que não raro, resulta de narcisismo ou ardor egoístico de exercer supremacia.

Seguimos esquecidos que o real é indomável e só é traduzível pela verdade presa a muitos e distintos olhares.

Outras vezes, somos como os que sabem que a verdade depende de intenções íntegras, que se materializa na disposição empática de compartilhar e no desprendimento de quem caminha junto, respeitando e abrindo-se às visões do outro para descobrir espaços fora da caverna.

Enfim, na geografia da verdade de cada um, há abismos, terrenos pedregosos e desertos cheios de miragens, por isso, o mais coletivo dos exercícios é percorrer o território da verdade em comunhão.

Pois, ninguém o constrói ou chega lá sozinho.

Alegoria da Caverna.
Alegoria da Caverna – lição da verdade

 

Livros como obras de arte.

Há quem diga que frequenta sebos para comprar livros baratos.

Mas, que tal desinstalar esse conceito e ver mais de perto a experiência de visitar sebos?

Ler é mais que extrair letras de um suporte inerte. Ler é apreciação do livro como objeto rico de sentidos. Mais que experiência táctil e cognitiva, a leitura é vivência emocional e sensível.

Nos sebos, existe uma atmosfera própria com cheiro de passado que inflama a sensibilidade e as emoções, convidando-nos a experiências quase feéricas. Há uma aura que favorece a apreciação do livro a partir de significados mais ricos do ato de ler.

Parece que nos sebos, ficamos mais suscetíveis à captação desse sentido simbólico da realidade: uma velha e pisada escada em caracol no corredor da loja pode ser imaginada como passagem secreta que levará a alguma torre dos castelos encantados típicos dos livros de Tolkien. Uma poltrona gasta jogada num canto, para leitores impacientes ou mais exigentes, nos transporta aos ambientes dos enredos familiares presentes nos livros de Jane Austen, Helena Morley ou A.J.Cronin. (mais…)

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O lugar do mestre

A palavra mestre suscita múltiplos sentidos. Traduz significados heterogêneos, sendo aplicada a contextos variados.

A exemplo dessa pluralidade, podemos elencar seus sentidos mais constantes.

São designados mestres, por exemplo, os pais que criam filhos passando-lhes valores para a formação de caráter e preparando-lhes para assumir papeis sociais de forma consciente. 

São considerados mestres, ainda, os que têm atuado como guias na construção da civilização: os gregos são mestres da Filosofia Ocidental, sendo Sócrates, a figura mais representativa do poder formativo da Filosofia; Confúcio e Buda são mestres orientais que consolidaram o valor da filosofia e da espiritualidade do Oriente.

Também são nomeados mestres as pessoas às quais atribuímos habilidades impecáveis no exercício de funções ou realização de tarefas que requeiram saber específico.

Ainda são designados mestres os companheiros de trabalho que nos passam o aprendizado de serviços e os que exercem sobre nós, algum tipo de supervisão e o fazem com maestria.

Porém, o sentido mais profundo da palavra mestre está relacionado à influência benéfica e duradoura que um educador consegue exercer sobre os educandos.

E o que será que faz de um educador, uma figura que evoca esse sentido magnânimo à palavra mestre?

Há inúmeras respostas para a pergunta, pois há distintas visões do que seja educar, se firmando como guia de notável credibilidade.

Vejamos algumas dessas concepções.

Rubem Alves via o mestre como um ‘fundador de mundos, mediador de esperança, pastor de projetos’, assim, para ele, a interioridade e a subjetividade do educador são dimensões fundamentais que o levam a educar com amor, alegria e zelo.

Paulo Freire, por sua vez, considerava mestre verdadeiro quem educa para a autonomia.

O Patrono da Educação Brasileira criou três grandes princípios dos quais desdobra o conjunto de competências que faz um educador capaz de convidar os educandos a transformar o mundo num lugar melhor. 

Na concepção freireana, é princípio da educação para a autonomia, a consciência do educador de que: não há educador sem educando, ensinar não é transferir conhecimento e ensinar é uma especificidade humana.

Paulo Freire lembra-nos de que o desejo de conhecer é uma vocação humana, portanto, somos todos sujeitos detentores de saberes que precisam ser considerados na prática educativa, que por sua vez deve basear-se no diálogo e respeito ao outro.

Coincide com a visão de Paulo Freire, o pensamento de Dante Alighieri, autor de A Divina Comédia, que elegeu o poeta romano Virgílio como guia definitivo.

Dante dizia que: ‘o mestre e o aprendiz na jornada do aprendizado compartilham a mesma esperança’. É uma linda maneira de dizer que educador e educando se movem pelo ardente desejo humano de conhecer e são parceiros na viagem de construção do conhecimento.

No livro Lições de Mestre, George Steiner faz um apanhado das singularidades da relação mestre – discípulo. E nessa análise, deixa-nos antever sua própria visão de que o mestre prepara o discípulo para continuar sozinho o seu percurso da busca do conhecer.

Ele defende que: ‘o mestre tem nas mãos algo muito íntimo de seus alunos: a matéria frágil e inflamável de suas possibilidades… Ensinar com grandiosidade é despertar dúvidas, treinar para divergir, é preparar o discípulo para partir’

Mas, talvez seja impossível refletir sobre quem é mestre sem voltar à Filosofia grega e reencontrar Platão.

O autor de A República é tido como um perfeito modelo de educador.

Sua influência formativa sobre os discípulos é notável. Aristóteles, o mais brilhante deles,  mesmo firmando posição filosófica divergente quanto às fontes do conhecimento, acaba reproduzindo o empenho formativo de Platão na relação com seus próprios educandos.

Um ponto em comum, tanto para Platão na Academia, como para Aristóteles no Liceu, é a valorização que ambos atribuíam  à presença do educador e à sua capacidade de causar arrebatamento nos educandos pela palavra e pelo exemplo.

Platão ensinava que ‘toda lição bem aprendida em sala de aula, por mais abstrato ou pragmático que seja o conteúdo, tem um efeito imediato na preparação para a liberdade intelectual do educando’.

Segundo ele, ‘a presença do educador é mais decisiva para fixar aprendizagens do que qualquer livro’.

Seria interessante imaginar o que o filósofo de ombros e ideias largas diria do que é ser mestre nos tempos de hoje, um tempo em que o ensino virtual avança e a informação é cada vez mais algorítmica. 

Em síntese, passa o tempo, muda o mundo, mas mestre será sempre quem tem consciência do alcance que sua atuação terá sobre os outros e as consequências individuais e sociais que sua influência pode trazer.

Fontes de saber e exemplos

quixote
Marchar rumo aos sonhos

É quase irresistível. Ao findar um ano, firmamos desejos para o próximo período anual.

Emagrecer, ter mais dinheiro, fazer e manter amizades, encontrar e conservar um amor, esses entre tantos outros desejos presentes na lista de cada um.

Mas, como iniciar aquela dieta e perseverar até se livrar do excesso de peso?

Como alterar hábitos de consumo para equilibrar o orçamento e ter mais recursos para realizar sonhos?

De que forma se relacionar de modo mais caloroso e feliz para fazer e manter amigos?

Como viver uma experiência romântica duradoura?

Essas perguntas encerram alguns desafios, entre os inúmeros que costumam nos separar dos mais acalantados desejos.

Mas e se pudéssemos contar com um conselheiro que nos guiasse até às respostas de questões tão comuns e persistentes?

Mas quem seria esse conselheiro?

Precisaríamos de uma figura exemplar. Teria de ser alguém capaz de se lançar sem medo nos próprios projetos. Alguém destemido, pronto a avançar ante obstáculos e perseverar, mesmo diante de quem considerasse seus objetivos apenas intrigantes quimeras.

E se a escolha recaísse em Dom Quixote? O cavalheiro criado por Miguel de Cervantes, um homem de imaginação pródiga, aficionado em aventuras da cavalaria, embriagado de amor e, talvez o mais importante, defensor intransigente dos próprios valores?

Seria uma escolha fértil. Basta ler Dom Quixote e descobrir que em cada uma de suas aventuras se encerra uma porção de sábios conselhos que podem ajudar a melhorar decisões e ações.

Poderíamos elencar muitos desses conselhos, mas para os fins práticos, aqui propostos, focalizaremos apenas três sábias exortações.

O primeiro desses conselhos refere-se à forma como utilizamos o tempo. Quixote diz o seguinte: ‘O tempo é ligeiro e não há barranco que o segure, portanto, não adies o que deves fazer, pois no tardar é que costuma estar o perigo.’

Nessa primeira exortação, Quixote mostra o valor de planejarmos ações para não desperdiçarmos tempo e usá-lo a nosso favor.

No segundo conselho: ‘Cuida, pois cada um é filho de sua obra’, Quixote convida a dedicar esforço e capricho no feitio dos nossos atos, do começo ao fim, até a conquista almejada.

Esse segundo conselho evidencia a necessidade de nos ocuparmos de atividades relevantes aos nossos fins e perseverarmos até sua finalização. Quantas vezes estamos muito ocupados, mas o que fazemos não nos levará a lugar algum e quantas vezes, simplesmente, desistimos.

É imprescindível escolher um objetivo e diariamente realizar algo, mesmo uma pequena ação, que nos aproxime dele.

O terceiro conselho aborda o lado ético do agir, quando visamos nossos interesses e ganhos próprios. ‘Aja com honra, pois o que mal se ganha, perde-se ele e o dono’. É a advertência do Quixote para não esquecermos de cuidar de interesses preservando a dignidade.

São três curtos ensinamentos, mas que abordam dimensões gigantes da ação humana:  o tempo, o trabalho e a honra.

E não são as nossas ações e o modo como as efetuamos que realizam desejos e assim nos realizam?

Lembre-se disso já no primeiro dia do ano e tire proveito dos benéficos das lições nada quixotescas do nosso bom Quixote.

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Imaginar e agir

Como se mover no jogo da vida?

Para nós ocidentais, temer o futuro é uma tendência arraigada.

É compreensível que certa apreensão quanto ao futuro apareça, pois quando pensamos nas ações e escolhas que o definirão, constatamos que nelas há sempre um elemento de aposta, o que nos impõe sentimentos de incerteza.

Ocorre que diante das incertezas e apostas, costumamos assumir duas posturas: apegamo-nos a ilusões ou fugimos para não nos confrontarmos com receios e temores. (mais…)