O que é um livro intransponível?

É todo livro célebre que gostaríamos de ler, mas desistimos da leitura, por falta de disposição para ultrapassar as centenas de páginas que nos separam do seu ponto final.

E a razão para que os leitores rotulem essas obras de intransponíveis é a crença de que um livro volumoso é necessariamente tedioso.

É como se o livro extenso ao invés de anunciar uma grande obra proporcionada pela genialidade do autor, antecipasse sua incapacidade.

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Em 2021, eu olharei para o tempo como alguém que olha para o par perfeito de mãos estendidas diante de si; descansarei depois de cada justa e inevitável luta; abraçarei as gentes todas que a vida me presenteou e presenteará. Sem elas não há rumo ou ar.

Enxugarei as lágrimas sempre que, mesmo me consolando, elas teimarem em banhar meu rosto que não se rende a tristezas vãs.

Em 2021, avançarei, apesar do que me atingir e ficarei embriagada de felicidade quando eu puder construir algo, ajudar alguém, pensar, escrever, ver um dia nascendo cheio de promessas ou simplesmente saber que qualquer ato ou palavra minha esteve a serviço da felicidade de alguém ou pelo menos ajudou a amenizar um fardo.

Esse ano quero honrar cada vez mais os rostos amigos que estão perto de mim, meus companheiros mais próximos de minha jornada na terra.

Em 2021, eu quero. E espero que minha vontade seja alegre e justa. Não apenas para mim, pois tudo que é bom pode ser compartilhado.

Enfim, olharei para 2021 como quem olha para um tempo de fé e ressurreições.

Contagem regressiva para acabar 2020.

Três dias para a virada. Penso no cansaço do que vivemos em 2020 e espreito o que o novo ano trará de esperança.

Acho que 2020 também está cansado. Exausto como um moribundo de muito sofrimento e pouca esperança.

Mas quero acalantar em minha lembrança esse ano pandêmico, quero consolar-me de viver nesse país que além de enfrentar os desafios sanitários, ainda está sob tutela tão negligente e muitas vezes desvairada.

Então, reafirmo que apesar do que foi difícil, eu acalanto e consolo 2020 e digo-lhe: vai tempo, segue seu caminho, afinal você não tem culpa se infectamos suas horas.

Ficaremos bem, pois ainda existem as crianças, as boas almas e os que enxergam quando todos perdemos a visão. Ainda temos salvação, pois por boa sorte, ainda contamos com as pessoas que plantam; as que curam; as que limpam; as que salvam as florestas e os bichos incendiados pela ganância.

Ainda bem que nos restam ainda, para nossa fortuna, as pessoas que ensinam e as que rezam sem apego a diferença de religiões, mas com o tempero da fé que abraça, acolhe e respeita.

Ainda bem que ainda existem os artistas que criam sonhos para sonharmos acordados e há, sobretudo, os poetas que não deixam a beleza morrer. Sim, 2020, você pode ficar ainda o que lhe resta de reinado.

Agradeceremos o presente de 365 dias e procuraremos aprender de suas lições.

Mas, depois segue, respira e deixa 2021 com a ousadia, a coragem e a boa fé próprias dos jovens e o discernimento da velhice. Deixa 2021 chegar e, principalmente, deixa-o ser um tempo de oxigênio e bondade.

Sigmund Freud, o criador da Psicanálise, atribuiu poder terapêutico às palavras. Ele dizia que elas fazem mágicas na vida diária. Para ele, no início da história humana, emitíamos sons para atrair parceiros sexuais, mas a fala foi ocupando cada vez mais espaço na vida, principalmente no amor e no trabalho.

O método terapêutico do célebre psicanalista dá um lugar central à fala e é chamado de Associação Livre, por liberar o paciente da autocensura até que ele ache nos trajetos que a palavra faz – o caminho da cura.

Para além do divã, no entanto, na prática do dia a dia,   a fala é mais que emissão vocal. Tudo o que contribui para o ato comunicativo – gestos, olhares, entonação, movimentos corporais deve ser compreendido para que a comunicação faça pontes que nos levem a conexões humanas mais ricas.

O passo inicial para uma comunicação com resultados felizes é a consciência de nossas intenções ao comunicarmos; além da necessária sensibilidade para considerar os outros, ou a pessoa para quem se dirige o esforço comunicativo. Situar-se quanto ao ambiente e com noção de tempestividade da mensagem também são fatores de eficiência.

Você já deve ter ouvido alguém dizer que não adianta pregar no deserto. De fato. Para ser ouvido e construir entendimento é preciso aproximar-se e contextualizar-se. Tomar a dianteira e jogar conversa em terreno desconhecido não é um bom começo.

Dispensável dizer que tentativas impulsivas ou desleixadas de aproximação geram aversão logo na primeira troca de ideias. A comunicação contextualizada evita antipatias, minimiza rejeições e permite antecipar reações do ouvinte.

O silêncio pode ser muito benéfico para a comunicação, portanto: escute, não tenha pressa para jogar respostas; elabore um pensamento para responder depois de escutar. Se o que você escuta é valioso, peça ao ouvinte um tempo para pensar e depois volte a conversar. Não se espante pela inclusão do silêncio como elemento da conversa, assim como a música é a união da harmonia sonora com o silêncio, o bom discurso resulta da associação da fala e do silêncio em boa proporção.

Orfeu Solitário, obra de De Chirico

Você já pensou nas palavras que diz e escuta todos os dias?

Saiba que esse é um exercício de autoconhecimento muito útil.

Entre nós e a realização dos nossos desejos, estão as palavras ditas por nós e pelos outros. Portanto, aprender a manejá-las pode poupar esforço no percurso.

O homem não prescinde das palavras. Ditas, escritas ou representadas por sinais e gestos, elas nos pronunciam diante do mundo e nos incluem ou excluem no jogo das trocas humanas.

Incontáveis vezes, escutamos o seguinte pedido: ‘Por favor, me deixa vender meu peixe.’. A razão disso é que em toda fala há alguma negociação, cujo efeito pode eliminar ou criar barreiras à materialização de nossos projetos.

A mitologia, as histórias das religiões e das guerras apontam o manejo das palavras como sendo inesgotável fonte de poder. A força definidora do que dizemos é bem ilustrada no provérbio milenar: ‘A flecha lançada e a palavra dita jamais voltam atrás’.

Nos passes de mágica –‘abracadabra –, nos rituais que dão capacidades notáveis aos super-heróis – ‘Shazam’ – ou na ação devastadora de seres míticos – ‘Decifra-me ou te devoro’-, há sempre uma fala propiciadora de poderes a quem a pronuncia.

Um exemplo fácil de lembrar é o da expressão ‘Abre-te Sésamo’. Bastava dizê-la para ter acesso à caverna com os tesouros de Ali Babá e seus ladrões. No caso, uma simples expressão propicia bens incalculáveis.

É certo que as fábulas contadas nas ‘Mil e Uma Noites’ são traduções da fantasia humana sobre experiências e poderes almejados para auferir fortuna ou conquistar amores, mas na vida real é tão diferente assim?

Será mesmo que não precisamos achar palavras mágicas nas horas exatas para acessar tesouros, conquistar pessoas ou ultrapassar obstáculos?

Imagine se nos momentos cruciais, pudéssemos ter a palavra certeira na direção do coração do ser amado; ou para virar o jogo da vida profissional ou conquistarmos os tesouros da amizade?

Pois a consciência de como nos expressamos e com que objetivo o fazemos é o caminho para o eficiente aproveitamento das palavras como recursos poderosos. Elas têm forma, gosto, cor, textura e brilho. Mais do que exprimir ideias, elas entregam afetos, confessam intenções, gritam dores, firmam vontades, berram revoltas, vociferam pragas ou distribuem bênçãos.

Portanto, ame as palavras, cuide de cada expressão que irá dizer. Saiba o que lhe motiva a se expressar, conscientize-se do que diz e como costuma dizer. Somente assim sua expressão falará bem de você, pois soará como a harpa que, soprando firme e suave, executa a mais tocante melodia.