De certos livros, a leitura nunca cessa

Com quantos livros se faz um escritor? Ou, quantos livros alguém precisa ler para abraçar a escrita com proficiência?

Certa vez, li um artigo que se propunha a responder tal questão. O texto deixou-me pensativa.

O autor iniciava com uma declaração que dizia mais ou menos assim: ‘Digo a quem pretende começar a escrever agora, que não importa quantos livros tenha lido, já está com um déficit de leitura de pelo menos seis mil títulos’.

Confesso. O aspirante a escritor que habita em mim ficou assustado. Bateu-me um sentimento de raiva. Perguntava-me se o autor não teria a secreta intenção de levar à desistência, todos os que almejavam o ofício da escrita.

Na continuidade da leitura, porém, refeita da emoção inicial, percebi que o moço expressava profunda consciência dos desafios da escrita e, apenas queria reforçar a exigência de extensa e contínua agenda de leitura e cuidados na formação do escritor.

Passados mais de dez anos, desde que deparei aquele texto, admito que, de vez em quando, reavivo na memória aquelas recomendações. Afinal, quem busca esmero sabe que toda prática requer emendas e recortes que a aproxime da perfeição possível.

Manter-se vigilante é indispensável para não cair em fórmulas superadas ou enferrujar o estilo que precisa ser polido constantemente. Vigilância para manter hábitos edificantes da escrita eficiente.

Quem escreve, por exemplo, precisa ter bom domínio do idioma pátrio. A língua é o continente de onde retiramos os recursos expressivos, daí que o primeiro cuidado a observar seja a manutenção de íntima amizade com dicionários, gramáticas e livros didáticos de Linguagem, Literatura e Crítica Literária.

A propósito, há autores que dominaram tão magistralmente a língua que foram aclamados com a paternidade de seus idiomas. A exemplo, Camões, Shakespeare, Goethe e Dostoiévski são chamados pais das línguas portuguesa, inglesa, alemã e russa, respectivamente.

Quem escreve também precisa acumular olhares, experiências, conhecimentos e para tal necessita abrir janelas da realidade para esquadrinhar mundos, enxergá-los com nitidez, visando à construção de uma biblioteca interna de conteúdos  que serão expressos pelas lentes de sua visão particular.

É da biblioteca interna de vivências e visões que são retirados os conteúdos ou sedimentos da escrita. Ivan Turgueniev não descreveria a paisagem russa com tamanha acuidade se não fosse um observador cuidadoso do que viveu na infância aristocrática naquele país. Tolstói não faria retratos tão sensíveis de almas atormentadas se não usasse o olhar misericordioso como filtro criativo. Machado de Assis pintaria retratos menos precisos das características psicológicas das personagens, não fora um observador agudo e reflexivo do que ocorria na sociedade.

Por último e não menos importante, vem o modo de leitura profunda. Um jeito de ler que pretende extrair do texto sua intenção, argamassa e estrutura. Prática que exige a leitura de autores diversificados que nos ponham ao alcance da construção textual com a palavra exata e do parágrafo que tece sinteticamente a trama expressiva da escrita.

Para essa finalidade, as possibilidades de escolha recaem sobre autores e estilos inumeráveis: nacionais e estrangeiros; clássicos e contemporâneos: técnicos e ficcionais; prosa e poesia; populares e eruditos; consagrados e neófitos.

É a esse leque de escolhas que o autor daquele texto de que falei no início se referia. A riqueza de que podemos lançar mão para escrever melhor.

Finalmente, depois de algum tempo, penso que quando Jorge Luís Borges dizia que para ele o paraíso era uma espécie de biblioteca, falava mais de si mesmo como escritor e menos como leitor, mesmo tendo sido o amante da leitura.

E acho que tudo bem, pois o escritor talvez seja a melhor metamorfose do leitor.

Com quantas leituras se faz um escritor?

 

 

Há um sorriso recôndito em cada mulher

Há um quê de riso em cada mulher.

No seu mais íntimo recôndito, há uma energia alegre represada.  E, mesmo diante do abismo do sofrimento, há nela um suprimento de esperança triunfal prestes a eclodir.

É intrigante a persistência feminina, aliada à capacidade de manter os olhos acesos e a vontade amolada, para lançar-se com ânimo e vontade de acertar em tudo o que faz.

É como se as mulheres fossem seres feitos em camadas. E mesmo sob o peso do cansaço ou desilusão da camada mais externa, houvesse uma reserva de paciência heroica, de força interior e disponibilidade ao comprometimento. (mais…)

O Pequeno Príncipe - Obra dos Gêmeos
Onde foi que largamos o desejo de crescer?

Outro dia, fiz mais uma de minhas insistentes releituras de ‘O Pequeno Príncipe’, livro de Antoine de Saint-Exupéry, e tive a impressão de sempre.

É que os leitores costumam ver essa obra como sendo destinada ao público infantil e acabam subestimando o potencial reflexivo que ela encerra.

O Pequeno Príncipe é um livro, cuja leitura pode suscitar diferentes reflexões e, entre elas, destaca-se o questionamento sobre como, sob o peso de rótulos do que seja ser um adulto, as pessoas tornam-se rígidas e infelizes. (mais…)

Jim_Warren-ma_Warren_Painted_worlds_The_intellect
As ideias não nascem do vazio

‘Eu realmente preciso ler?’

Já ouvi muito essa pergunta. E, pasmem, até de alunos de cursos de pós-graduação.

Certa vez, um rapaz que acabara de concluir a graduação, confessou jamais haver lido um único livro. Perguntado sobre como cumprira a lista de leituras exigidas no vestibular, respondeu-me que havia lido resumos emprestados de uma colega.

O exemplo é desolador quanto às possibilidades de construção de formações profissionais sólidas e confiáveis, mas o fato é que há estudantes que não consideram a leitura, mesmo remotamente, uma atividade necessária.

E o mais angustiante é o fato de tal realidade ser mais corriqueira do que se possa imaginar.

É impossível não lamentar os prejuízos advindos desse cenário para o desenvolvimento de competências essenciais. Sem leitura é impossível aprender a manejar conceitos; elaborar ideias; exercer criticidade com fundamentação; construir teias de pensamentos lógicos e coesos; expressar-se fluentemente e argumentar de forma consistente.

Quando pensamos no processo de formação de qualquer pessoa, ignorar os poderes que derivam da leitura é como garimpar pedras preciosas descartando os melhores veios. Por isso, é preciso não perder oportunidade de levar até nossas crianças e jovens o valor da leitura e seus benefícios para a vida.

E os caminhos que levam a isso não passam pela coação, por exortações morais ou coisa parecida.

Os leitores precisam ser atraídos, seduzidos para os encantos e benefícios da leitura. Crianças e jovens adoram mistérios, histórias de encantamentos e poderes mágicos. E que atividade encerra mais esses predicativos do que uma boa leitura? É preciso aproveitar esse potencial mágico para aproximar jovens e livros, criando oportunidades de expor as vantagens da leitura e dar exemplos dos doces frutos do hábito de ler.

O escritor Alberto Manguel diz no livro ‘Uma História da Leitura’, que ‘Quando nós aprendemos a ler é como se adquiríssemos um novo sentido, além dos cinco que possuímos’.

Sábio e oportuno argumento, quando precisamos aproximar os jovens com o mundo dos livros. Teatro, jogos, televisão, contação de histórias, fantoches, leitura grupal, leitura dramatizada e mímica, podem funcionar muito bem nas primeiras aproximações. No caso dos jovens e universitários, os educadores precisam deixar nítida a função formativa da leitura e sua ligação indissociável com o preparo para a profissão

Para além, da formação escolar, a leitura teve e tem para muitas pessoas, até certo caráter redentor. Quantas pessoas viviam presas a realidades restritas ou de grande vulnerabilidade e, tornando-se leitores mudaram suas vidas.

Não faltam exemplos desses casos. Personalidades literárias, políticas e históricas relatam como a leitura operou transformação impressionante nas suas histórias. Machado de Assis e seu apego aos livros ilustra esse fenômeno de forma significativa.

Mas não precisamos nos distanciar tanto para comprovar o valor da leitura. Basta começar agora. Pegar um livro, chamar um amigo, o filho, um educando ou qualquer pessoa que esteja distante dos livros e convidá-lo a voar junto nas asas da leitura para bem longe do tédio que há em um mundo pobre de livros.

A leitura tem asas que nos levam para longe do vazio.

Fixidez não é autenticidade

Ser autêntico. Agir conforme os próprios credos, preferências e valores.

Eis a busca universal de cada indivíduo.

Não é à toa que Saramago dizia sobre ser autêntico, que a verdadeira felicidade consiste em caminharmos rumo a nós mesmos.

E quem, de fato, não tem extraordinária satisfação ao perceber que suas obras e condutas reproduzem tudo o que acredita ser autenticamente? (mais…)

Sonhar com o futuro é tarefa de sempre
Sonhar com o futuro é tarefa de sempre

O que você quer ser quando crescer?

Que menino ou menina jamais ouviu tal pergunta?

E a pergunta provoca as mais variadas respostas.

As crianças menores querem ser astronautas para ‘brincar na lua’ ou se tornarem pipoqueiros para ‘comer todas as pipocas’. As mais velhas, por sua vez, têm desejos mais pautados no real. Elas querem ser médicos para curarem o mundo e ‘ninguém mais sentir dor’ e há quem deseje se tornar veterinários para ‘cuidar dos bichinhos’.

Entre os jovens, as projeções são mais genéricas e começam a ser realistas. Eles querem trabalhar para ajudar os pais, ter o próprio dinheiro ou ficar ricos. (mais…)

 

Leituras que nos formam

É impossível alcançar elevação intelectual prescindindo de leituras pertinentes ao crescimento que desejamos obter, seja em conhecimento ou habilidades.

Razão pela qual é inegável o papel da leitura em todo processo de formação.

Seja para fins de desenvolvimento humano ou no preparo profissional, precisamos de leituras que sedimentem competências cognitivas, sensíveis e práticas.

A questão é que nem toda leitura provoca impactos benéficos e duradouros, daí a importância de, de vez em quando, avaliarmos o emprego do tempo dedicado aos livros. (mais…)