Os leitores assíduos, mesmo quando não estão lendo, estão pensando em livros.

Tenho observado o comportamento de pessoas que gostam muito de ler e descobri que muitas delas ‘sofrem’ de uma doce patologia: a leiturice.

A leiturice se manifesta na incapacidade de ficar, pelo menos por um dia, longe de livros. E seus sintomas são evidentes. Primeiro, a pessoa tem dificuldade de parar de ler. Segundo, se estiver impossibilitada de fazê-lo, precisa ter um livro pelo menos à vista.

Observe um leitor acometido de leiturice e perceba como ele fica agitado no ambiente sem livros. Quando verifica que está no deserto (no caso, deserto é um lugar privado de livros) fica agitado. Age como se procurasse ar. Examina o local em detalhes à procura de pelo menos um exemplar que o acalme.

Descobri, também, que ao contrário das outras doenças, a leiturice inventa a própria imortalidade. Explico. O leitor voraz tem sempre uma lista infindável de livros para ler, antes da hora final. Fato que o obrigará a permanecer vivo por pelo menos mais trezentos anos.

Além disso, a leitura é como um condão que pode fazer a mágica de nos transportar do presente ao passado ou voar direto ao futuro. E esses transportes pelo tempo que nos permitem varar milênios em algumas páginas reforçam essa sensação de, nesses momentos, nos sentirmos como seres tocados pela imortalidade.

Enquanto escrevo, olho em volta e vejo o exemplo desse fenômeno nos livros que estou lendo. Nestes, visitei diferentes épocas. Senão vejamos: Memórias de um Editor de Kurt Wolff; A Arte de Viver Ensinada pelos Clássicos de José Paulo Paes e É Isto um Homem? de Primo Levi.

O primeiro livro: Memórias de um Editor de Kurt Wolff nos transporta aos tempos de Kafka e outros escritores; Primo Levi nos leva a testemunhar e ter ainda mais ojeriza dos horrores da Segunda Guerra Mundial e dos campos de concentração e José Paulo Paes carrega-nos por entre a sabedoria de milênios de Filosofia.

Fecho os olhos visualizando o que sinto com esses livros e suspiro. Ler um bom livro é como perfurar o tempo e dominá-lo para caminhar pelos fatos da humanidade num instantâneo sublime

Mas penso, também, que esse é apenas um dos motivos pelos quais as pessoas são ‘contaminadas’ pelo vírus da leiturice e se tornam grandes leitores. Pensando melhor, o título deste texto deveria ser os lados sublimes da leitura.

Em síntese, acho que ‘descobri’ uma ‘doença’ para a qual, espero que jamais se ache a cura.

 

 

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Em tarde ensolarada de novembro, saí para comprar a agenda que usaria em 2020.

Virou hábito. Sempre que o tempo dobra a última esquina para acabar o ano, reservo um dia para comprar minha agenda.

Transformei esse ato numa ocasião anual para refletir sobre os passos percorridos no ano que terminará e sobre como caminharei durante o tempo que se aproxima.

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Será que conseguimos ler quando nos sentimos tristes, desanimados e até descrentes de nós mesmos?

Realmente, é difícil imaginar que nos momentos, em que o estado de ânimo é abalado por dificuldades, a leitura ajudaria a abstrair e trazer algum alívio do peso que sentimos.

A ideia mais cultivada sobre o que nos alivia quando estamos exaustos, fatigados ou vulneráveis é a de que a leitura é tarefa árdua, inócua e ainda mais tensionadora.

A proposta aqui é rever o modelo mental que nos leva a ter essa impressão e descobrir que a experiência de ler nas horas desafiadoras traz forte alento. Nessas horas, ler pode ter o efeito de uma oração; pode ser uma diversão que abrirá um portal para a evasão das ideias obsessivas que teimam em se repetir como espiral insana na preocupação.
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Sendo em novembro, o dia dedicado aos finados, é quase impossível, neste mês, não consumir algum tempo, pensando na finitude humana.

E quando pensamos nessa finitude, é inevitável pensar no cemitério como um lugar triste que só suscita sentimentos de perda e desligamento. Mas se ampliarmos o olhar, veremos que esses lugares também podem propiciar reflexões com potencial de elevação e rejuvenescimento de esperanças.

De fato, o cemitério é o lugar de chorar e lamentar perdas, então é difícil não sentir  certo aniquilamento de expectativas de realização; mas por contraditório que possa parecer, é possível ir a um cemitério nas homenagens a entes queridos, e ver que, estando vivos e pulsantes, somos portadores de potencialidades das quais muitas vezes, nem temos consciência. (mais…)

 

Obra de Salvador Dali

Tem um grito dentro de mim que só cessa quando escrevo.

Ao escrever, sinto que atinjo minha alma em algo intocado. Alguma coisa que incomoda e lateja como uma velha cicatriz que reabre ao mais leve toque.

Foi bem cedo que percebi o clamor interno para a escrita. Meu mundo mágico era um universo de palavras. (mais…)

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A pergunta ‘o que é autorrealização?’ deveria ser a primeira a ser ensinada ao ser humano. E o motivo é simples. A autorrealização é o objetivo primordial e é comum a todos nós.

Autorrealizar-se é realizar o sentido da própria vida, com a firme percepção de que o esforço despendido para vivê-la casa com os desejos e valores que nos movem.
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Obra de Modigliani
Autodeterminação

Tocar a vida com desembaraço exige boa dose de ousadia. Característica tão necessária quanto desconhecida na sua real essência.

O fato é que muitos confundem ousadia com desregramento, impulsividade ou ação destemperada e olham as ações ousadas com desconfiança. Existe até quem cultive certa aversão ao ímpeto e às posturas menos convencionais ou atrevidas.

O resultado é que as pessoas que ousam ou agem de forma mais livre quanto a convenções e rótulos sociais costumam receber crítica ácida e serem alvos de reprovação social e estigmas. Faça um breve exame histórico e verá que os inovadores e pioneiros atraíram muita hostilidade até se notabilizarem por não se prenderem a padrões. (mais…)