Pintura do acervo de SOPHIE ANDERSON JOHN EVERETT

Um dia eu era criança e o meu olhar trazia a espreita de encantos.

E tudo o que eu via era arte e assombro: a chuva caindo como riscos de céu, o entardecer que prometia muitos dias brincantes e a noite que descia sobre mim como magia de estrelas.

E só havia o medo das sombras mas, de repente, meu pai movia as mãos contra a parede e o escuro virava coelhos, cisnes ou uma moça saltitante até que eu só tivesse gargalhadas no adormecer.

Um dia eu era criança e tudo era possível na ponta dos meus lápis de colorir: uma casa feliz com chaminé fumegando delícias; um jardim onde havia sol; pessoas de mãos dadas em eterna ciranda e um portão aberto para horizontes azuis.

Um dia eu era criança e ela trazia uma luz que até hoje ilumina minha vontade de amanhecer.

 A primeira vez que entrei num centro cultural foi um assombro. Fiquei encantada. Como poderia existir um lugar com tanta arte sem ser um museu? Lembro-me de que havia uma exposição de bucólicos casarios pintados por vários artistas em um salão e, no outro, uma mostra de arte efêmera. Aquilo pulsou em mim com a força de uma pincelada de Rembrandt.

Depois desse dia, virou hábito. Quando chego a uma cidade, é o primeiro local que tenho vontade de ir. Não sei se o desejo vem da atração ampla e difusa que a arte exerce sobre todos nós; ou por minha vontade de ver as particulares manifestações artísticas de tempos e pessoas distintas. Sei que aos meus olhos tudo pulsa. Seja numa peça ou numa complexa instalação; seja numa pintura. Pode ser até numa crônica sobre o poder da arte. Não importa, é sempre experiência de arrebatamento e saio acrescida de algo que me faz sentir parte da civilização.

Tem gente que deixa de ir a eventos artísticos alegando só frequentar parques verdes e locais ao ar livre. Esses programas são, de fato, momentos em que nos confraternizamos com a mãe natureza tão maltratada. Mas será que isso exclui a chance de visitar uma casa de artes?

Eu, particularmente, acho que há um consórcio inseparável entre natureza e arte. Nesta, de repente, pode haver, como numa gota d’água, a junção perfeita entre proporção e equilíbrio na divina manifestação de caos deliberado que move a mão de todo artista.

Talvez por isso, diante de obras de arte, sinto-me sempre como se estivesse ao ar livre; pisando em folhagens num dia dourado que estende o tempo até que a tarde se torne lívida e caia uma noite estrelada pintada pelo próprio Van Gogh sob meu olhar feliz.