Com quantos livros se faz um escritor? Ou, quantos livros alguém precisa ler para abraçar a escrita com proficiência?

Certa vez, li um artigo que se propunha a responder tal questão. O texto deixou-me pensativa.

O autor iniciava com uma declaração que dizia mais ou menos assim: ‘Digo a quem pretende começar a escrever agora, que não importa quantos livros tenha lido, já está com um déficit de leitura de pelo menos seis mil títulos’.

Confesso. A aspirante a escritora que habita em mim ficou assustada. Bateu-me um sentimento de raiva. Perguntava-me se o autor não teria a secreta intenção de levar à desistência, todos os que almejavam o ofício da escrita. (mais…)

É impossível ler tudo o que queremos no tempo que almejamos.

São tantas as escolhas possíveis, dentre a massa de títulos que compõem os acervos das livrarias, bibliotecas e sebos que a saída é fixar um itinerário mínimo de leituras que façam sentido na história pessoal de cada leitor.

Talvez este seja o motivo do sucesso das listas de livros recomendados e de publicações do tipo: livros para ler antes de morrer; livros para amar; livros mais lidos pelos grandes escritores. Entre outros títulos sugestivos do que deve ser lido.

E é justo reconhecer que essas recomendações têm valor como indicadores úteis para alcançarmos experiências pertinentes de leitura.

Acontece que cada leitor precisa construir atalhos e realizar percursos que o levem a lugares congruentes com as metas e propósitos pessoais. Essa adequação é o que, antes de tudo, dará sentido e consistência à jornada de cada pessoa como leitora.

O ideal é que o leitor, a partir de seus propósitos, firme um julgamento do que é a leitura e qual a sua finalidade dentro de sua própria história.

Entretanto, apesar de cada leitor ter sua visão particular do ato de ler, há uma base comum de finalidades em cada gênero literário que pede que tracemos diretrizes que dirijam minimamente nossa experiência como leitor.

E essa experiência será delineada conforme os objetivos próprios de cada um. Senão, vejamos. Quando o desejo é aprofundar o conhecimento de áreas técnicas, a opção é investir tempo na leitura de artigos, periódicos técnicos e manuais científicos. Eles fornecem o cabedal de informações que ajudam a manejar ideias teóricas com proficiência.

Se quisermos soltar a imaginação, a ficção é a melhor escolha. Se a ideia é aprimorar a capacidade reflexiva nos temas que nos são valiosos, a pedida é mergulhar nos ensaios que por sua natureza ampla permitem visualizar de forma ampla uma mesma temática.

Caso a leitura objetive o ganho de fôlego na compreensão filosófica, a saída passa  pela leitura de mestres da Filosofia. Se o objetivo é descobrir a própria capacidade de captar e expressar a realidade com sensibilidade, as linhas sensíveis da poesia serão ótima trilha. Mas se a meta é incrementar a capacidade de apreciação estética, os textos de dramaturgia e os livros de arte e fotografia são velhos e sábios amigos.

Finalmente, se você pretende ler para escrever melhor, então, prepare-se. Sua pauta de leitura será mais extensa ainda. Considere tudo, dos clássicos aos últimos lançamentos. Literatura Nacional e Estrangeira – romance, ficção científica, terror. E ainda, correspondências, biografias, viagens, Poesia com ou sem rima, Mangá e gibi.

Seria possível continuar elencando opções, mas paramos aqui.

Antes de finalizar, contudo, é bom recordar que quando se trata de leitura, preconceito não ajuda. Quando for traçar seu itinerário, abra as portas da percepção e diversifique as representações do que seja o valor da leitura. Suas opções serão ainda mais ricas.

É possível imaginar um intelectual sem uma razoável biblioteca? Será plausível que um estudante consiga eficiência se não aliar ao estudo persistente,horas de boa leitura?

Difícil, não é? Os benefícios da leitura para a formação intelectual e o preparo profissional são indiscutíveis.

Mas, que tal olhar outros benefícios da prática de leitura?

Costumamos ver o ato de ler, somente dos pontos de vista útil e pragmático,  enxergando-o apenas como ação mecânica e funcional.

Mas, o ato de ler envolve muito mais. (mais…)

As atividades humanas pedem cada vez mais conhecimento. Tal realidade impõe maciça necessidade de constante atualização

Estamos mergulhados num universo (caótico?) de informações. Há um número infindável de livros, sites e publicações,além de toda a gama de conhecimentos não sistematizados.

Esse cenário faz do planejamento, uma prática cada vez mais indispensável aos distintos segmentos da ação humana e põe a gestão pessoal do conhecimento entre as atividades mais essenciais aos esforços pessoais e coletivos de formação profissional.

Se conversássemos com os leitores mais assíduos, perceberíamos que eles costumam seguir um itinerário de leituras.

Eles sabem de que leituras precisam. Muitos fazem planilhas para planejamento e controle de estudos e leituras. Mas de forma geral, a maioria dos grandes leitores têm uma pauta mínima sobre o que precisam ler em determinado período.

Uma pauta de leitura é uma relação previamente elaborada dos livros e textos (em ambiente físico ou virtual) que, na visão do próprio leitor, devem ser lidos em certo espaço de tempo, conforme fins e critérios definidos.

O leitor pode estar buscando aprendizagem especializada, formação geral, amadurecimento intelectual ou apreciação estética. Independente dos objetivos é impossível alcançá-los, prescindindo de uma jornada de leituras.

Outro aspecto que impõe a necessidade da definição prévia de um roteiro pessoal de leituras é a enorme variedade de lançamentos editoriais e o aumento da oferta de livros, seja em livrarias, sites de e-books, seja por meio de bibliotecas públicas, acadêmicas e sebos.

Algumas atividades exigem mais planejamento de leituras a realizar do que outras.

Exemplos? Os especialistas, cujas atividades profissionais exigem o acúmulo e sistematização contínua de informações em determinada área, costumam planejar com atenção e seguir um cronograma do que precisam ler. Na maioria dos casos, são leituras de cunho técnico-profissional que se confundem com atividades de estudo.

Outro grupo que precisa definir um percurso de leituras a realizar, conforme seus fins e estilos literários são os escritores. Ninguém pensa no vazio. Quem escreve precisa de um background de conhecimentos que o torne apto a explorar diferentes assuntos e hábil na forma de abordá-los.

Além desses fatores, há outro que evidencia a relevância de planejar o que se vai ler. A leitura é uma interlocução. Ao ler, tomamos conhecimento de ideias do autor (uma ideia puxa outra) que o remete a outros autores, ideias, livros e interesses. E esta cadeia só aumenta na medida em que nos tornamos leitores mais assíduos.

Um exemplo? Quem leu a Eneida, do poeta Virgílio, possivelmente vai querer ler A Morte de Virgílio, de Hermann Broch.

Planejar leituras, entretanto, é um método de gestão do conhecimento e não uma escravidão. O leitor é sempre livre para estabelecer o que vai ler e até se vai ler algo ou não. Por tudo isso, uma pauta de leitura não deve ser fixa e imutável. É importante ir acrescentando ou cortando títulos.

Somente, assim, o planejamento será fiel ao itinerário de leituras que se precisa realizar e não constituirá um sacrifício. Acredito que quando enxergamos o ato de ler como dolorosa obrigação precisamos repensar sobre o que ele representa para nós.

Afinal, a leitura é atividade de libertação. Se alguém se sente escravizado por uma pauta rígida  de leituras é só lembrar que a rebelião é sempre possível. Afinal, rebelar-se contra regras que nos aprisionam é o mais digno exercício de autonomia. E Nietzsche já dizia: ‘A nobreza do escravo é a rebelião’.

Mas, a rebelião do leitor já é assunto para outro ensaio.

É impossível alcançar elevação intelectual prescindindo de leituras pertinentes ao crescimento que desejamos obter, seja em conhecimento ou habilidades.

Razão pela qual é inegável o papel da leitura em todo processo de formação.

Seja para fins de desenvolvimento humano ou no preparo profissional, precisamos de leituras que sedimentem competências cognitivas, sensíveis e práticas.

A questão é que nem toda leitura provoca impactos benéficos e duradouros, daí a importância de, de vez em quando, avaliarmos o emprego do tempo dedicado aos livros.

Seja para fins de distração ou visando à extração de informações úteis, o universo de leituras que nos interessa costuma estar reduzido a necessidades imediatas: livros cuja leitura apesar de trazer algum benefício não nos influencia de forma permanente; livros inócuos de conteúdo correto, mas superficial e textos de linguagem pobre que facilitam a leitura, mas não provocam desequilibrações cognitivas construtivas. (mais…)