Biblioteca de Escritor

Algumas perguntas são recorrentes nas entrevistas a escritores: ‘Qual o livro mais marcante’? ‘Que livro teve maior influência no seu estilo’? Que livro você recomendaria para quem deseja se tornar escritor?

Se examinarmos a memória dessas conversas, perceberemos que as respostas dos escritores, para esse tipo de questão, quase nunca são fluídas ou espontâneas. Há certa pausa; os entrevistados ou não respondem ou o fazem de forma reticente e esquiva.

Por que será?

Tenho algumas hipóteses. Primeiro, os escritores precisam ler muito e é realmente difícil nomear poucos, dentre os títulos lidos. Segundo, muitas vezes, o próprio escritor não sabe conscientemente enumerar os livros que contribuíram na sua formação.

Poderíamos continuar elencando razões, pois há tantas delas, quantos motivos para alguém se tornar escritor. Contudo, penso que dentre essas motivações, prevalece o fato de que revelar o que se lê é, sobretudo, revelar-se. O que pode não ser confortável.

O caminho para a escrita proficiente tem percursos e atalhos pessoais que nem sempre o escritor quer ou consegue declarar. E as leituras expõem essa jornada; dizem muito de como foram desenvolvidas habilidades e aprimoradas aptidões. Enfim, escancara um segredo precioso.

Entrar na biblioteca de quem escreve é acercar-se um pouco do que vai à sua alma. O acervo de exemplares que compõe as prateleiras da biblioteca e o repertório de arquivos no Kindle dizem quem é aquele leitor e este, no limite, revela o escritor.

As leituras realizadas ao longo da existência vão formando nossa biblioteca interna, repositório invisível que concorre para a formação do estilo; influencia a escolha de temas e conteúdos que serão a argamassa da personalidade literária de quem escreve.

E é a isso que nos referimos quando falamos da biblioteca do escritor. Ao conjunto das elaborações cognitivas, sensíveis e espirituais extraídas de suas vivências e da experiência de leitor. Esse conjunto é a base  da capacidade de produzir escritos proficientes e com identidade própria, seja do ponto de vista, técnico ou sensível.

É essa base que proporcionará ao escritor, a plataforma de capacidades que o levarão a elaborar ensaios, tecer enredos e imaginar histórias. Aspectos que o firmarão como personalidade literária.

Por todos esses fatores, convido-lhes a, na próxima vez em que ouvirem alguma entrevista a escritor, ficarem atentos às respostas sobre sua biblioteca pessoal.

Elas podem revelar tesouros.

 

 

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