É Preciso Falar Sobre O Medo

Melancolia, obra de Edvard Munch
A melancolia é o choro da alma.

Queremos atingir metas que nos levem direto ao alcance de propósitos que darão sentido às nossas vidas.

Mas há obstáculos que impedem muitas jornadas que poderiam resultar vitoriosas.

Dentre esses obstáculos, o medo, por seu caráter imobilizante, talvez seja o elemento que mais cause transtornos.

O curioso é que o medo é um afeto adaptativo, que, em tese, deveria ser apenas benéfico. No seu aspecto adaptativo, o medo funciona como um alerta para riscos e perigos. Permiti-nos avaliar se seremos atingidos por eventos da realidade.

Isso mesmo. O medo tem função protetiva. Sem ele não formaríamos a percepção de até que ponto, somos capazes de enfrentar desafios. Funciona como um sensor que nos ajuda a retroceder, reavaliar a cena para criar estratégia mais adaptada.

Ocorre que há diferentes níveis de medo. Há o temor patológico, com força inapelável sobre ações e escolhas e que, portanto, precisa ser cuidado.

As diferentes escolas psicológicas atribuem características ao medo, segundo seus referenciais do que seja comportamento e subjetividade.

Segundo a Psicanálise, há o medo de caráter neurótico – que enfraquece e impede a expressão do potencial humano -, fixado em conflitos que nos esmagam, frutos de inadaptações produzidas por algo reprimido.

E os conteúdos reprimidos, segundo os psicanalistas, têm forte impacto na formação de sintomas e reações, pois advêm de forças intrínsecas que nos constituem.

Já para os comportamentalistas, o medo incapacitante decorre de falhas na aprendizagem devidas a cadeias associativas de estímulos e respostas que nos sensibilizaram de forma negativa e nos levaram a reações e modelos de comportamentos inadaptados.

Os existencialistas, por sua vez, atribuem significativo papel ao medo como pano de fundo dos modelos de existência. Segundo eles, o medo comprime nosso ser num apertado espaço existencial, o que nos força a adotar estilos de vida neuróticos que sugam a força criativa e a capacidade de expressar afetos de forma saudável.

E efetivamente, se pensarmos na vida como o espaço no qual nos movemos, veremos que o predomínio incessante do medo nos apequena, pois aniquila a vontade, cessa o gosto pela ação e frustra relações.

E como enfrentar esses medos?

É preciso desinstalar certezas, revisitar visões de si e experimentar a realidade sob novas estratégias.

A primeira medida é buscar autoconhecimento. Descobrir o que alimenta esse monstro aniquilador de iniciativas e esforços. Há inúmeras formas de desenvolver conhecimento de si próprio: a auto-observação, a ajuda terapêutica, a ação reflexiva.

Além disso, são aconselháveis: o convívio com pessoas positivas que contagiem com sentimentos de confiante esperança; abrir-se à experimentação para diversificar vivências; confrontar-se com pensamentos que minam a coragem e trazem abatimento e insegurança.

É preciso associar a essas iniciativas, o ensaio contínuo e progressivo de um agir que leve, passo a passo, à ação realizadora. Cada ação que se enfrente e negue o que fundamenta os receios vai ajudando a substituir o círculo vicioso produzido pelo medo (‘tenho medo, não ajo e, não descubro do que sou capaz de fazer de fato.’), pelo círculo virtuoso (‘faço e descubro o que sou capaz e vou podendo agir de forma mais segura e arrojada’) gerado pela ação baseada na análise racional e equilibrada do que somos ou não capazes.

Ter uma visão positiva de si mesmo e buscar incessantemente a ação realizadora. Eis o caminho. Neste sentido, o ensaísta Ralph Waldo Emerson dizia em um de seus sábios ensaios: ‘Fazes o que tu temes e a morte do medo será certa’.

 

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