O poder das paixões

Annabel Sleeping, obra de Lucien Freud.

Não ignorar o que nos afeta

As paixões impactam a forma como reagimos à realidade, daí, o profundo interesse que a temática desperta entre leigos e estudiosos do comportamento humano.

É comum associar à palavra paixão, somente os sentimentos envolvidos no amor-romance em que os amantes se querem loucamente e vão, contra tudo e todos, vivendo um intenso romance. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda são histórias que exemplificam esse amor ao estilo ‘até às últimas consequências’.

Entretanto, a palavra paixão tem sentido mais amplo, uma vez que pode nomear múltiplos tipos de manifestações emocionais e sentimentais.

A Psicologia denomina paixões a todo afeto vivido com intensidade e movido por força de temperamento ou inclinação da personalidade. Amor, ódio, raiva, alegria, tristeza e medo, por exemplo, são objetos assíduos de estudos psicológicos.

As paixões são expressões da afetividade (capacidade geral de afetar e ser afetado emocionalmente) e também das emoções que são respostas subjetivas, biológicas e sociais de caráter adaptativo-construtivo diante das exigências da vida.

Uma vez que no contexto das paixões, as emoções  são vividas de forma intensa, extrema ou desmedida, nos estudos sobre o que seja uma personalidade adaptada, as correntes psicológicas dão grande peso à forma como nas condutas apaixonadas, as emoções e afetos repercutem na estabilidade emocional.

Para a Psicanálise, mais do que forjar personalidades sadias, o domínio dos impulsos passionais tem caráter civilizatório. Assim, na obra, ‘O Mal-estar na Civilização‘, Freud  diz que para criar um mundo civilizado, o homem precisou renunciar ao prazer imediato e canalizar energias passionais para finalidades elevadas.

Segundo Freud, afetos como nojo, asco e constrangimento, por exemplo, funcionam como freios instintivos restringindo comportamentos cruéis e perversões.

Para a Filosofia, paixão ou Phatos designa toda manifestação natural e com força desmedida de afetos, tais como ódio, tristeza, amor, raiva e outras descargas emocionais intensas dirigidas ao objeto que as mobilizam.

Para os filósofos, entregar-se às paixões contrapõe-se ao equilíbrio que instaura a temperança moral.  Entre eles, Platão, Aristóteles, Sêneca, Descartes e Espinosa são  nomes a destacar entre os inquietos quanto ao significado das paixões.

Platão já acenou com a exigência de subjugarmos os instintos visando ao pleno uso da razão; Aristóteles, por sua vez, construiu um conceito de virtude alicerçado no equilíbrio (trilhar o  caminho do meio) para dominar excessos que levam ao desregramento.

Sêneca, filósofo estoico, pensava caminhos para a vida feliz e aconselhava o domínio das paixões para uma vida autodeterminada que para o estoico era condição de felicidade.

Descartes escreveu o tratado denominado ‘As paixões da alma’. Nele, defende que o jeito de lidar com as paixões define se somos pessoas de vontade firme ou seres à deriva dos impulsos passionais.

Espinosa, filósofo holandês, por sua vez, fala-nos que há dois tipos de paixões: as que aumentam e as que diminuem  a capacidade de agir do homem. São as paixões ativas (a alegria, por exemplo) e as passivas (como o medo extremo), respectivamente.

De acordo com o pensamento espinosano, é impossível à razão dominar uma emoção e somente a compreensão pode dar às paixões passivas, o caráter ativo para que usemos as emoções construtivamente e possamos ser ‘causa eficiente de nossa própria conduta’ e não meros reféns das emoções passionais.

Diante de tudo isso, fica a pergunta: como controlar emoções próprias dos estados apaixonados?

Aproveitando um pouco de todos esses saberes, dá para concluir que a questão não é de controle, mas de consciência de que a força das paixões – esses estados de ardor afetivo em relação a algo que nos move ou comove – pode ser canalizada para estilos de ação temperados com bom senso e racionalidade.

Enfim, a tarefa é integrar emoções para que tenhamos um agir pleno dos recursos da potencialidade intelectual, sem deixarmos de pulsar como seres ardentes em sintonia com nossos projetos de autorrealização, rumo a jornadas extraordinárias.

10 comentários sobre “O poder das paixões

    • Liduina Benigno disse:

      Querido Reinaldo, o que você fala de certa forma está contemplado nos três últimos
      parágrafos, só que abre espaço para a autodeterminação. Beijo e obrigada pelo comentário.

  1. Jovina Gomes Benígno disse:

    Lidú, que texto excepcional e apropriado para os dias de hoje, em que um considerável número de pessoas, tão equivocadas, deixam-se dominar paixões exacerbadas pelo, prazer, ter entre tantas outras.
    Obrigada e parabéns, minha talentosa irmã.
    Um beijo

  2. Mauricio disse:

    Lidu, parabéns pelo texto. Só senti falta de uma coisa: mostrar que o domínio das paixões favorece o cultivo e o crescimento das virtudes. Paixão é diferente de amor. A primeira tem sentido é temporal, passageiro; o último, atemporal, definitivo.

    • Liduina Benigno disse:

      Querido Maurício, obrigada pelo seu honroso comentário. Acho que se você
      atentar bem verá que os 10º e 11º parágrafos trazem essa noção apontada
      por você. Sobretudo a visão aristotélica que é inclusive a base da
      tradição teológica do catolicismo. Abraço

  3. Glauber S R Martelli disse:

    Nas paixões encontramos o estranhamento necessário para nos aproximarmos do Belo, a ansiedade para poder encarar o desconhecido e os desejos que nos movem sempre para algum lugar. As paixões são cíclicas e fluídas e sempre nos transformam indistintamente. Dosada com a racionalidade tão almejada pelos filósofos e pensadores através dos tempos é o que pode nos tornar melhores, não nos furtando de nossa natureza de fraquezas, desejos e impulsos mas conscientes dessa humanidade também tão necessária para nossa evolução individual e social.

    Obrigado Lidu pela reflexão instigante e sempre apropriada! Beijão!

  4. Fabricia Junia disse:

    Querida Liduina, um texto que nos permite muitas reflexões pessoais….estive então buscando na memória as paixões que me fizeram perder a razão…e foram tantas vezes rsrsrs. Lembrei da célebre frase escrita em Delfos, na Grecia Antiga: Conhece a ti mesmo. Acredito que é um dos grandes mistérios para a Humanidade encontrar esse equilíbrio por você mencionado. Grata pela oportunidade dessa reflexão.
    Abraço.

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