As Aparências Enganam?

Iman Maleki - Shahrad Malek Fazeli by Catherine La Rose (17)

A forma como percebemos as coisas é forte condicionante do jeito como reagimos a elas e firmamos escolhas.

Em consequência, a aparência é uma forma poderosa de manifestação da realidade, definindo em muito, a forma como nos posicionamos diante do mundo.

Não é por acaso que a apresentação pessoal, por exemplo, seja tida como aspecto valioso quando se quer projetar uma imagem positiva do nosso jeito de ser e estar no mundo.

Você já deve ter ouvido muito as frases: ‘A primeira impressão é a que fica’, ‘O hábito faz o monge’ ou ‘Ninguém tem uma segunda chance para gerar uma primeira impressão’. Elas traduzem a força da aparência como fator de influência nos julgamentos, dando indícios da interferência do visual no nível de prestígio social obtido pelas pessoas.

Existem, inclusive, profissionais que ajudam as pessoas a expressarem imagem que as associem a signos de poder e competência e  as levam a transparecer  uma identidade que abra portas amplas para a aceitação social.

E é inútil negar que a aparência que revelamos não interfere no modo como nos inserimos socialmente. Somos seres estéticos, somos atraídos por tudo que revela  proporção, equilíbrio e harmonia.

Quem já não viu alguém se olhar no espelho e dizer: ‘Estou vestido para matar!’, ‘Vou arrasar!’, ou ainda, ‘Com essa roupa, vou conquistar o mundo!’.

E essas pessoas sabem o que dizem. As vestimentas marcam nossa presença. Firmam territórios sociais e afetivos. Estabelecem força ou condição em determinado grupo social.

Nas guerras, a farda é fundamental para imprimir respeito ao adversário. No mundo do trabalho os uniformes são declarações de status ou condição de quem os usa.

A força da aparência como condicionante da aceitação social, entretanto,  não exclui a necessidade de enxergá-la como fator indissociável da atitude e da existência de cada um.

Uma aparência de sucesso não se firma e permanece se está aliada a atitudes derrotistas, egoístas ou destrutivas. Nem constitui, sozinha, a base para uma existência significativa, consistente, capaz de dar sentido às nossas vidas.

Na filosofia, o sentido de aparência está irremediavelmente ligado a uma contradição fundante: a aparência é o que revela ou o que esconde a realidade?

Para Parmênides, o filósofo pré-socrático que estudava a permanência como condição de verdade, a aparência traz a verossimilhança e assim é portadora da verdade. Platão também admite uma relação de semelhança entre aparência e verdade. Mas para Aristóteles a aparência pode ser tão verdadeira quanto falsa.

Apesar do grande passo dado por Aristóteles no sentido de não termos somente a aparência como critério de verdade, na modernidade, ela ganhou força e se revalorizou. Nesse sentido, Hobbes, filósofo moderno dizia: ‘De todos os fenômenos que nos circundam, o mais maravilhoso é o parecer’.

Esse breve passeio pelos jardins filosóficos é somente para ilustrar que a aparência não é uma questão simples de ser examinada.

E a reflexão tecida até aqui tem por objetivo, exatamente, ampliar horizontes para além da aparência sem negar sua força.

A apresentação pessoal compõe nossa presença no mundo, mas não a esgota.  Uma presença se firma pela associação sinérgica de três elementos: aparência, atitude e existência.

E somente atribuindo a cada um desses elementos, sua verdadeira estatura é possível ultrapassar a visão da aparência como algo superficial, definitivo e enxergá-la de uma perspectiva mais integral, ou seja, defini-la como  mais um componente fundamental de nossa presença no mundo, mas que não a expressa em sua plenitude.