Você é Eterno?

Dali(1904-1989)

A experiência sublime nos eterniza

Eternidade, eis uma palavra que provoca inquietação em todo mortal.

E a finitude humana é a razão de tal inquietude. Sendo mortais, aspiramos eternizar, senão a existência, pelo menos o registro de nossa passagem no universo. Daí que há milênios, acalentamos o desejo da existência duradoura.

Nem percebemos, mas todos os dias, algo acontece e nos leva a pensar na mortalidade com alguma vontade de driblá-la.

No dia a dia, os atos cotidianos ou experiências extraordinárias estão sempre envoltos no latente desejo humano de eternidade. Um exemplo? Experimente passar creme hidratante; tomar hormônios; olhar estrelas, amanheceres e jequitibás sem pensar em infinitude e permanência. Você verá que é quase impossível.

A questão da infinitude embala esperanças desde sempre e tem sido pensada por homens inquietos. De Heráclito, passando por Parmênides, Platão e Aristóteles, entre outros, muitos tentaram desvendar a vontade humana de domar a impermanência.

Os filósofos pensaram a eternidade de pontos distintos. A visão de que é eterno algo com duração infinita no tempo é a mais repetida. Aristóteles, entretanto, tem visão singular, pois afasta a noção de eterno do conceito de tempo. Ele diz que eterno é o que não está no tempo e portanto, não é por ele abarcado.

Os místicos, por sua vez, tratam a eternidade como um lugar no qual o tempo não é contado ou sentido. É o lugar místico da permanência como graça ou danação.

Nós, simples mortais, entretanto, podemos imaginar a eternidade não como um lugar ou  uma função do tempo. Podemos concebê-la como qualidade do que se lança adiante com força humana deixando sementes sublimes por onde vai

Um conselho repetido no senso comum é que para firmar marcas, devemos fazer três coisas: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Se atentarmos bem, estas tarefas encerram a noção de semeadura. A planta, semente de nutrição; o livro como semente do saber e um filho como semente de continuidade da espécie.

Como resumo das sementes fundamentais, essas três tarefas fazem sentido. Freud, contudo, também atribuía caráter sublime ao amor e ao trabalho.

Para o psicanalista vienense, essas duas áreas dão sentido à existência e nos unem à civilização. Quando pensamos em amores como os de Romeu e Julieta que atravessam a morte; nos amores felizes que perenizam o romantismo; ou nos amores perdidos, escondidos ou incompreendidos que deixam  marcas de sofrimento, vemos que a força do amor é eterna.

E quando olhamos o painel das realizações humanas, podemos sentir que o trabalho  também arremessa o homem para além, eternizando-o no legado às gerações sucessoras.

De fato, nas tarefas feitas com empenho e no amor vivido  com inteireza, deixamos marcas imorredouras. No entanto, é possível incluir experiências para além do amor e do trabalho, experiências de valor perpétuo pelo que provocam de enlevo sublime ou sentido extraordinário.

Uma ilustração desse tipo de experiência está no filme The Bucket List (Antes de Partir). Carter, personagem vivido por Morgan Freeman, ao descobrir que morrerá em breve, faz uma lista de coisas a fazer antes de partir. Examinando a lista de Carter, percebemos que se trata de tarefas que exigem empenho apaixonado; provocam enlevo ou nos confrontam com sensações de pura adrenalina.

O que Carter, de fato queria, era ser imortal. Sua lista mostra que tocamos a eternidade quando o espírito pulsa com o que vemos, sentimos ou fazemos; quando nos conectamos a algo de beleza inefável; quando a emocionalidade ou o espanto faz nossa alma mortal tremer.

Quem não viaja nas asas da eternidade diante de um mestre que ensina se esvaindo de amor pelo saber; quando escuta uma sonata de Bach, o Noturno de Chopin ou os concertos para piano de Tchaikovsky? Quem não toca o eterno ao ler as tragédias e comédias de William Shakespeare e os poemas de Pablo Neruda? Quem não se transporta à dimensão intemporal quando vê filmes grandiosos como ‘E o vento levou’ ou Casablanca? Quem não prende uma lágrima ao ouvir as composições de Max Steiner, vê um rascunho de Leonardo Da Vince ou  o autorretrato de Renbrandt?

Quem não se conecta à beleza impenetrável da vida ao ouvir o canto de um pássaro, emocionar-se com a lágrima triste de um homem velho ou sentir o carinho aveludado da mão enrugada de uma avó? Quem não sente a alma trêmula unir-se ao infinito, no ato de extrema solidariedade e compaixão?

Em síntese, para eternizar-se não basta falar de tempo e permanência, é preciso imaginar que há em tudo o que é feito e sentido de forma sublime, um germe do eterno.

Só o sublime é infinito como o brilho das estrelas; como a compaixão sentida em carne viva ou como a palavra de amor presa no céu da boca.

Todos nós, em algum momento, somos tocados pelo sublime, todos somos eternos nem que seja por um segundo de eternidade.

the-melting-watch, Salvador Dali

A eternidade dissolve o tempo

4 comentários sobre “Você é Eterno?

  1. Bruno Benigno disse:

    Como diria Kant, um texto belo e sublime . Penso que ao termos consciência da finitude é que podemos fazer coisas perenes, talvez por isso estejamos tão pouco criativos já que muitos de nós não encara a velhice e a morte .

    • Liduina Benigno disse:

      Bruno, seu comentário perspicaz faz eco às minhas palavras. Obrigada pela visita ao blog e comentário generoso.

  2. Lidu,
    Sou seu firme seguidor e sempre me encanto com o conteúdo e com a forma dos seus textos.
    Obrigado pela partilha do seu conhecimento.
    Luciano Reis

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