Uma Rica Vida Interior

Obra de De Chirico - Orfeu Solitário. 1973

Filtros incorporados para uma vida mais consciente.

Empregamos a expressão ‘vida interior’ como sinônimo da palavra espírito, no sentido de manifestação da espiritualidade religiosa. Entretanto, podemos utilizá-la em sentido mais amplo.

Nos dicionários, somente alguns significados da palavra espírito trazem o sentido místico ou religioso. Na conotação mística, espírito pode ser o sopro emanado do poder divino para constituir a alma imortal ou o nome dado às manifestações  de substâncias incorpóreas como anjos, demônios, almas e  fantasmas.

Entretanto, além do sentido religioso, os dicionários também atribuem à palavra espírito, sentidos filosóficos e psicológicos.

Você deve estar se perguntando: e qual a importância de tomar conhecimento do conceito de vida interior para a Filosofia e Psicologia?

É que, essas correntes, além de aplicarem a noção de vida interior aos seus conceitos,  atribuem a ela, importância fundamental.

Tal valor decorre do impacto da nossa vida interior na forma como vivemos e interagimos com o mundo.

Para o filósofo Immanuel Kant, por exemplo, vida interior é sinônimo da capacidade de raciocinar. Na sua visão racionalista, ele defende que a vida interior define a disposição diante da vida. Ele diz: ‘o espírito é o que nos vivifica’. 

O filósofo empirista John Locke, por sua vez, considera a vida interior um fator preponderante da ação prática. Para ele, o espírito ou vida interior impulsiona a disposição de ânimo para o agir.

Fugindo de conceitos mais carregados da visão filosófica, como poderíamos conceituar vida interior no sentido psicológico?

Podemos dizer que vida interior se refere  à síntese da capacidade de incorporar o mundo e seus conteúdos ao que somos. Ou seja, nossa vida interior corresponde à totalidade do uso das faculdades psíquicas, emocionais e sensíveis que se expressa na forma como nos apropriamos da realidade e a refletimos na vida.

É por esse motivo que é fundamental interagir com o mundo: agir, contemplar, apreciar (no sentido de analisar e julgar), usufruir e sentir – para construir conteúdos internos que serão filtros, guias e parâmetros da nossa ação.

Em suma, esse conjunto de conteúdos internos apreendidos e elaborados na relação com o mundo compõe a riqueza da nossa vida interior.

E o que podemos fazer para cultivar uma rica vida interior ou dito de outra forma, como elaborar mais nosso espírito?

Ora, ficamos mais enriquecidos interiormente quando exercemos faculdades e sentidos para além das funções instintuais, apropriando-nos do mundo com consciência e deliberação.

Há diversos atos e atividades que favorecem o enriquecimento da vida interior. Relacionamentos que buscam mútua edificação, contemplação da natureza, gozo espiritual, apreciação estética, elevação ética e experiência reflexiva são formas consagradas para a promoção de um espírito mais rico. 

São inúmeros os atos e atividades que favorecem a ampliação do  espírito. Enumeremos alguns: refletir sobre as próprias ações; exercitar a compreensão do próximo; cultivar valores elevados; relacionar-se de forma empática; prestar serviços voluntários; realizar práticas cidadãs; meditar; exercitar o corpo de forma saudável; ficar ao ar livre; apreciar as belezas naturais; participar de movimentos humanitários;viajar para ampliar horizontes existenciais; contemplar os recursos naturais; interagir com a vida animal; apreciar as diversas manifestações artísticas; compreender distintos processos criativos; abrir-se à diversidade; ter experiências multiculturais; desenvolver curiosidade pela cultura gastronômica; abrir-se às novidades tecnológicas.

Muitos acham que, para cultivar o espírito é necessário isolar-se, fechar-se como concha. Sem dúvida, é preciso ter consciência do locus interno pela introspecção e buscar a autoconsciência.

Contudo, é na interação que se cultiva vida interior, pois afinal, a introspecção é um tipo de interação consigo mesmo.

Quanto mais rica é a vida interior de alguém, mais essa pessoa será capaz de confrontar construtivamente a realidade objetiva em toda sua concretude com a realidade subjetiva e seus dramas e complexidade.

Há um ditado que diz: ‘quem tem uma rica vida interior nunca estará sozinho’. E parece mesmo que quem busca a apropriação ativa e consciente do mundo consegue extrair a essência da vida e aplicá-la a uma existência compartilhada e mais sábia.

Redon.coquille

Sair da concha e construir vida interior

 

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