Existem falsos leitores?

A tentativa de responder se há ou não falsos leitores precisa considerar, antes, o que seria um leitor.

Há inúmeros critérios que definem quem pode ser considerado um leitor. Para o senso comum, o leitor é alguém que pode ler e faz uso dessa faculdade quando tem vontade ou necessidade.

Mas, há critérios técnicos para conceituar um leitor. Os institutos e clubes de difusão da leitura costumam ter parâmetros quantitativos para estabelecer suas próprias definições. O Instituto Pró-Livro, por exemplo, adota um critério quantitativo e considera leitor toda pessoa que leu pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos três últimos meses.

Entretanto, se sabemos que o leitor é quem lê certa quantidade de livros, o que seria um falso leitor?

É costume rotular de falso leitor, alguém que se esforça em aparentar maior dedicação  à leitura  do que a que realmente pratica.

E não é raro identificar pessoas com tal hábito.

Quem não conhece alguém que basta escutar o nome de um clássico ou best-seller e já vai declarando ser íntimo conhecedor da trama, do conteúdo ou do autor?

São os leitores, cujas leituras se limitam a prefácios, apresentações e  orelhas de livros. O seu objetivo é mostrar competência, erudição ou cultura geral e com isso angariar prestígio social ou profissional no seu grupo.

Não há dúvidas de que essa leitura, mesmo limitada, traz conhecimento. Entretanto, se a finalidade é dominar certa área de conhecimento, essa experiência parcial será sempre problemática. Além disso, quando tenta infundir a crença inverídica sobre a própria experiência de leitura, o leitor corre o risco de perder credibilidade.

Mas, apesar desses aspectos, será que para definir o que é um leitor, não seria possível valorizar  a curiosidade e o sonho de ler e abraçar a todos nós num conceito amplo de leitor?

Partindo dessa visão, podemos criar o conceito de leitor universal.

E a razão é simples, a leitura nasce do desejo de ler, do sonho por livros e da curiosidade do leitor. Quem de nós, mesmo entre pessoas iletradas, não cobiçou um livro? Quem não se imaginou lendo um livro? Quem não se extasiou diante de vitrines imaginando o que estaria guardado no miolo daquelas obras?

A leitura é um ato autoral, pois antes de iniciar a leitura, imaginamos o conteúdo do livro, inventamos cenários, projetamos desfechos. Quem ainda não experimentou a sensação de intimidade com um livro, mesmo antes de tê-lo lido?

Li o Dom Quixote, muitas vezes, antes de realmente fazê-lo. Tenho o meu Cavaleiro da Triste Figura e meu Sancho Pança forjados no recôndito do pensamento, a partir das minhas experiências de pré e pós-leitura de Cervantes.

Hoje, existem os livros-brinquedo com imagens e texturas. E um bebê manuseando seu livro é um leitor. Uma pessoa iletrada, olhando a prateleira da livraria, viajando nas capas convidativas dos livros expostos, está imaginando um livro, portanto está lendo para além do ato mecânico da leitura. Esses são exemplos do que seria um leitor universal.

A barreira que separa leitores de não leitores nos afasta dos livros. Pessoas que declaram aversão a ler, não raro, desdenham um ato para o qual se consideram incapazes. No fundo, os ‘anti-leituras’ têm a intuição de que ler é um privilégio. De fato, eles consideram os leitores assíduos, pessoas mais preparadas e com autonomia de pensamento.

Nas obras sobre livros, estão registradas histórias de diferentes experiências de leituras. Lá, fica evidente que há leitores de todos os tipos. Há, inclusive, figuras célebres pela relação singular que tiveram com suas bibliotecas: São Jerônimo, Dom Quixote, Jorge Luis Borges, Jean Paul Sartre são alguns deles.

É preciso ampliar a noção do que seja um leitor para aumentar as chances de que a experiência de leitura se realize de forma mais plena.

Só assim, os leitores universais se sentirão convidados a ler plenamente e quem sabe,  poderão fazer parte dos manuais de história do livro como leitores cujos hábitos tiveram impacto significativo em suas vidas?

Enfim, aproximar leitura e leitor. Criatura e criador. Estranha criatura essa com tal poder de transformar seu próprio criador.


2 comentários sobre “Existem falsos leitores?

  1. sara garcia moares disse:

    Gostei e me considero uma leitora….tenho lido muiiiiiiiiito…..
    Refletir sobre o leitor universal…..e pensarmos que até o bebê que olha um livro….já está nesse contexto!

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