Você é Um Anjo

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Invocar proteção é ato propriamente humano

É natural. Nos momentos decisivos, queremos nos manter longe de perigos ou atrair sorte.

Também em horas de tropeços e vicissitudes, queremos acreditar que as coisas voltarão ao normal. E quando tudo dá certo, cremos que fomos bafejados pela sorte ou sustentados por misteriosa força protetora.

Assim, por mais perfeitos que nos consideremos, há em nós, certa consciência instintiva de que somos incompletos e por isso, precisamos de guarda e proteção.

E é essa condição tão própria dos humanos que nos leva a ter a esperança visceral de que existem forças propiciadoras de sorte e que por algum motivo, há um véu de proteção que nos salvaguarda e livra dos laços de ações e escolhas ruins.  

Um verso de Clarice Lispector ensina sobre isso ao dizer: “Ai daquele que cai na tragédia da nudeza de seu véu”.  E há um provérbio que apregoa: ‘aí daquele jogado à própria sorte’.

Tanto o verso de Clarice quanto o dito popular falam dessa intuição que mora recôndita no pensamento e nos alerta de que, talvez, não nos bastemos para realizar nossa força total.

Carl Jung, psicólogo suíço, por exemplo, defendia que  anjos e outras entidades protetivas são realidades psíquicas. Expressões personificadas de realidades inconscientes que propiciam experiências psíquicas de segurança profunda.

É perceptível, então, que não é acaso a crença amplamente disseminada, em seres protetores e a prática comum, em quase todas as culturas, de recorrer a essas forças.

A propósito, a fé em anjos, como seres destinados à proteção individual, é uma das crenças mais difundidas em inúmeras religiões. Na cultura cristã, a hora do anjo (6,12 ou 18 horas) é celebrada com preces e pedidos de proteção por milhões de pessoas.

Certamente, conceber seres vigilantes zelando ações e desejos individuais, mesmo para quem não acredita em mistérios sobrenaturais, é emocionalmente reconfortante e aditivo da autoconfiança.

Mas, e se pensássemos em cada pessoa como um anjo ou ser protetor? E se os anjos não fossem apenas uma legião celeste e remotos à nossa existência? E se houvesse outros anjos, ao alcance da mão? 

Creia. Esse é um sonho possível.

É assim: se cada pessoa exercitar empatia, compassividade, solicitude e assumir compromisso com a grandeza da  condição humana haverá uma legião de seres vigilantes e protetores de si próprios e de seus semelhantes.

E o resultado dessa corrente humana de proteção seria de tal magnitude que o resultado de mil anos de civilização humanitária poderia ser alcançado em pouco tempo, com efeitos benéficos para toda a humanidade.

Assumir a condição de anjos concretos, não alados, mas capazes de fazer voarem fortes as asas da felicidade humana se dá por meio da assunção de três atitudes: proteger-se, proteger, abrir-se à proteção.

Proteger-se. É preciso agir de forma refletida, a irreflexão leva a escolhas equivocadas. Desenvolver consciência do  próprio potencial. Conhecer forças e limites da própria ação para ampliar suas fronteiras ou aceitar limitações com serenidade. 

Boas lições de autoproteção estão nos textos de Santo Agostinho que nas suas ‘Confissões’ diz: ‘o desregrado produz sua própria desventura’ e em Aristóteles que ensinava o caminho da temperança, do bom senso e da reação proporcional aos acontecimentos da vida como fórmula para o viver sábio e feliz.

Proteger. Assumir que somos existências interdependentes. Que nossas ações impactam a vida dos pares humanos; que quando zelamos por interesses para além de apenas ambições individuais; quando exercitamos a compaixão, aprendemos, desenvolvemos habilidades que nos fortalecem como seres autônomos. Portanto, mais capazes de cuidar de si próprios e de ajudar a forjar a grandeza humana.

Finalmente, abrir-se à proteção. Expressar as dores sentidas. Os medos. Receber a cooperação alheia com humildade; admitir que temos momentos vulneráveis; que às vezes, nossa capacidade de julgar e agir está diminuída e incapaz de nos beneficiar.

Abrir-se à proteção favorece a proximidade com os nossos pares e alicerça a confiança dos outros em nós mesmos. Enfim, estabelece relações de parceria.

Nietzsche, o filósofo alemão, no livro: ‘Humano, demasiado humano’, dizia que existe um futuro seguro para a humanidade quando depurarmos da vida tudo o que não seja humano. E nada nos habilita mais como humanos do que a condição de seres cuidados e cuidantes.

O filósofo diz que tudo o que nos afasta uns dos outros são fraquezas humanas. Ele termina o livro com a poesia ‘entre amigos’ que diz assim: ‘É belo calar-se juntos, mais belo rir juntos, sob a ternura de um céu de seda… Rir afetuosamente com amigos, riso claro e mostrar-se mutuamente dentes brancos….’

Os versos do filósofo falam de: reciprocidade, confiança, aceitação mútua, amizade. E não é isso a substância que nos transforma em seres angelicais e poderosos?

 salvador-dali-the-angelus-1935

Ser proteção, proteger-se, proteger

5 comentários sobre “Você é Um Anjo

  1. sara garcia moares disse:

    Os textos levam a uma reflexão mesmo aqueles que são leitores.. assíduos. Interessante quando você escreve sobre as leituras intransponíveis…

  2. Bruno Eduardo Llablet disse:

    Liduína, queridissima de meu coração, hoje entendi porque você insiste tanto em dizer que é uma “Redatora de textos”. Você deve fazer download das esferas celestes, não é mesmo ?Alguém que escreve um ensaio tão encantadoramente magnífico como o que acabo de ler, ou aceita que está entre as mais brilhantes escritoras de todos os tempos ou confessa que recepciona mensagens interestelares e as decodifica para a humanidade. Preciso mesmo, pedir emprestado algumas palavras do Gregg Braden, adaptando-as minimamente, para expressar o sentimento que me proporciona o seu texto, e dizer-lhe assim: ‘Aceitar a consciência do que você escreve, nos proporciona olhar nos olhos uns dos outros com renovado senso de confiança, auto-estima e honra’. Minha cara, o que tu escreves, abre um verdadeiro portal que pode levar a humanidade a união e cooperação. Eu a agradeço e a abraço com todo meu carinho, Bruno.

    • Liduina Benigno disse:

      Querido (ultra) Bruno Eduardo,

      Suas palavras são tão vitais pra minha vontade de continuar pensando nas inquietações de todos nós, humanos, que você não
      avalia o quanto. Obrigada pela gentileza angelical. Amo você sempre e sempre. Obrigada de todo coração. Beijo.

  3. Rena Machado disse:

    Palavras construtivas,altruístas que elevam o nosso pensamento fazendo -nos alcançar o bem estar e a leveza da felicidade. Obrigada Dra Liduina!

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