Os Livros Intransponíveis

Mallarmé por Edouard Manet, 1876

Mirar, apontar e transpor a leitura até a vitória final

O que é um livro intransponível?

É todo livro célebre que gostaríamos de ler, mas desistimos da leitura, por falta de disposição para ultrapassar as centenas de páginas que nos separam do seu ponto final.

E a razão para que os leitores rotulem os livros de intransponíveis é a crença de que um livro é volumoso por causa de problemas que apresenta e não pela sua importância.

É como se o livro extenso fosse automaticamente maçante. Como se, ao invés de anunciar o preparo ou criatividade do autor, denunciasse sua prolixidade e incapacidade de escrever com estilo vibrante.

Mas o que fazer para ‘embaçar’ essa visão? Como redimensionar o olhar e mudar as crenças que nos afastam da leitura?

Talvez a lembrança de autores, cujos livros são frequentemente tachados de intransponíveis, ajude-nos a enxergar os malefícios de relegar obras ao esquecimento. O estigma de intransponível não poupa ninguém: Cervantes, Dostoievski, Eça de Queirós, Goethe, Guimarães Rosa, Hermann Broch, Homero, Montaigne, Marcel Proust, Ohran Pamuk, Neruda, Somerset Maugham, Thomas Mann, Victor Hugo, Tolstoi, Zola.

Mas, seriam eles as vítimas desse estigma?

Essa lista incompleta dá um panorama do empobrecimento da prática de leitura que os rótulos provocam. Além disso, a evocação de seus nomes pode ajudar a firmar consciência de que as  vítimas reais dessa negação não são os autores, mas nós, os leitores.

De certa forma, essa tendência a isolar os livros de muitas páginas é compreensível. Ler não é ato simples. Exige concentração, esforço, raciocínio. Então, a perspectiva de precisar ler mais de 300 páginas leva muita gente a bater em retirada.

Mesmo escritores consagrados já admitiram dificuldades para transpor a leitura dos livros ‘grandalhões’.

Por exemplo, Ruth Rocha, autora brasileira de clássicos infantis, certa vez, declarou dificuldade para concluir a leitura de A Montanha Mágica, de Thomas Mann.

A propósito, Thomas Mann é autor de dois livros, costumeiramente, apelidados de intransponíveis. Além de A Montanha Mágica, sua outra obra prima, Doutor Fausto com suas mais de 700 páginas também sofre com o estigma.

E ao escritor alemão, Nobel de 1929, juntam-se Leon Tolstói e o seu indefectível Guerra e Paz; Crime e Castigo, O Idiota e Irmãos Karamazov de Fiodor Dostoiévski; A Capital de Eça de Queirós. A lista não termina aqui.

E você? Há algum livro intransponível na sua lista?

Caso haja, a solução é vencer os receios e começar. Tente imaginar a leitura de cada livro como uma moeda de ouro que você acumula no seu tesouro de saberes.

A recompensa é incalculável. Quanto mais um livro é visto como intransponível, provavelmente, mais a sua leitura valerá a pena.

Inicie a primeira página sem pensar na quantidade delas e siga firme até o ponto final. Pense nos benefícios que a leitura trará e como você chegará enriquecido ao ponto final.

Depois, vá escolhendo títulos sem ligar para o número de páginas. Leia sem pressa e data para terminar. Você verá que nunca mais haverá um livro intransponível.

Pelo menos pra você.

Baudelaire 1848 por Gustave_Courbet_033

A leitura extensa aprimora a capacidade do leitor

 

 

Um comentário sobre “Os Livros Intransponíveis

  1. Maria Gerineide de Sousa Medeiros disse:

    Excelente tema. Realmente a cada dia eu vejo ao meu redor pessoas abandonando os livros. É uma pena! Eu coloco em prática a dica de ler a primeira página sem me importar com a quantidade de páginas e então, derrepente, a leitura acaba. O meu livro intransponível é a Divina Comédia, já comecei mas nunca fui adiante não pelo volume da obra mas pelo conteúdo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s