Há um papel formativo na experiência estética.
O papel formativo da experiência estética.

Além da função primária da arte de provocar nas pessoas certo arrebatamento sensível, qual seria seu papel no processo educativo? 

Os estudos das Ciências Humanas sobre as funções da arte têm levado à percepção da sua força como experiência estimulante com efeito benéfico no processo educativo.

Tanto o deleite estético, quanto a prática e o conhecimento artísticos extraem e fomentam em nós uma potência criadora, uma vez que nos instigam a exercitar as capacidades de representação e expressão que são básicas, estando presentes nos diversos tipos de competências.

Quando examinamos a própria etimologia da palavra educação, percebemos que ela tem origem etimológica dupla ligada a essas duas funções: representar e expressar.

Senão, vejamos. O primeiro significado de educação vem de educare significando a condução do sujeito de um ponto a outro, num movimento que precisa ser feito (representado) para o seu desenvolvimento. O segundo sentido vem do termo educere ligado ao esforço a ser dedicado para expressão do potencial de dentro para fora.

Adotando um ou outro significado, veremos que a arte não é fator coadjuvante na formação humana. A experiência estética condiciona rotas de formação pessoal capazes de instrumentalizar o esforço de autorrealização.

A centralidade da experiência estética para a educação pode ser vista no próprio exame da tradição filosófica ocidental. Em Platão e Aristóteles, é possível verificar obras que já abordam a criação artística como área de estudo no esforço de educar e politizar.

E são tantos os meios para o enriquecimento estético! 

Ir a um museu. Ler prosa ou poesia. Assistir a filmes e peças de teatro. Folhear com disposição analítica um livro de arte, sejam pinturas ou fotografias. Ir a exposições: ver escultura, pintura, arte performática, artesanato. Observar as belezas naturais buscando sua qualidade harmônica. Ampliar o conhecimento sobre a Arte.

São fartos os caminhos. Todos levam ao acúmulo de um tesouro de vivências práticas e sensíveis com ação aglutinadora das demais experiências.

A arte expressa a capacidade organizativa e adaptativa do homem em relação ao mundo, nos põe em contato com a potência humana realizadora. Por isso, a contemplação e experimentação artísticas são reforçadores do senso de valor pessoal.

De fato, desfrutar da arte é um fortificante da autoestima. É quase automático. Quando desfrutamos da arte, ratificamos a capacidade criativa dos semelhantes, firmamos consciência de que fazemos parte do gênero humano e, portanto, somos criadores e realizadores em potencial.

Will Gompertz, editor de artes da BBC de Londres, diz que ‘o homem produz arte para dar forma ao caos e pôr a vida sob controle’. E de fato, a aridez estética é incompatível com a avidez humana por experiências sensíveis.

Em síntese, se pensarmos na amplitude de tipos de manifestações estéticas e o alcance e efeito que elas apresentam sobre a alma e a percepção do homem, é difícil não reconhecer a essencialidade da arte.

A aridez estética é incompatível com a avidez humana por experiências sensíveis.
A aridez estética é incompatível com a avidez humana por experiências sensíveis.

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Quando pensamos em herança, em geral, nos lembramos de fortuna material: imóveis, dinheiro, joias, ações e similares.

Nada mais natural. A constante preocupação dos pais com o que os filhos vão ter traz o desejo de lhes prover segurança material.

Mas avançam os níveis de educação e junto, aumenta a percepção de que é mais substantivo em termos educacionais, pensar em como os filhos vão ser.

Não é o retorno ao dilema ‘ser ou ter’. É buscar o enriquecimento dessas perspectivas pela visão esclarecida de que somos afetados pelo modo como construímos e usufruímos o que temos.

Então, que tal imaginar uma herança como um tesouro cujos bens ajudam na formação de seres conscientes de como seus padrões de consumo e acumulação afetam a comunidade humana?

Imaginemos uma herança de leituras e estudos.

Mas como escolher dentre a vasta produção de conhecimentos um tesouro que resuma a coleção de saberes para o preparo das futuras gerações?

É uma ação complexa. Então é preciso começar para não desanimar da tarefa.

Se eu fosse deixar um legado de conselhos sobre leituras, primeiro firmaria critérios para escolher valores, atitudes e habilidades que levassem minha descendência a ter uma vida com propósitos e princípios.

O legado primeiro seria o da inspiração. Para que as gerações valorizassem o lado sublime da existência, eu deixaria a trilha do encantamento que nos chega pelo contato intenso com a poesia.

Estariam na herança, os poetas épicos com lições de espiritualidade, bravura e senso de missão (Homero, Virgílio, Dante, Milton, Castro Alves); além desses, estariam os poetizadores de alma telúrica, os que ensinam a noção de que somos seres enraizados no natural e que, portanto, é preciso ser simples como um olhar de criança (Walt Whitman, Cecília Meireles, Mário Quintana, Cora Coralina, Adélia Prado, Manoel de Barros). Como o legado de poesias não cabe nas linhas de um texto escrito, a lista não cessa.

Depois, penso que seria essencial, deixar obras de quem nos deu lições de senso prático. Biografias e obras de inventores, filósofos e cientistas que pensaram formas de fazer as coisas, inventaram objetos ou métodos que permitiram a caminhada humana na terra (Confúcio, Benjamin Franklin, Descartes, Bacon). São muitos os homens de espírito prático e inventivo, razão pela qual, essa relação continua….

Estariam também no baú da fortuna imaterial, obras dos que pensaram nos desejos e afetos que nos conferem a condição humana (Sêneca, Freud, Jung, Nietzsche, Schopenhauer, Sartre). Incluiria, ainda, quem soube traduzir em letras os dramas da alma (Shakespeare, Sófocles, Eurípedes, Dostoiévski, Kafka, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos).

Na botija dos saberes, não poderia faltar quem nos mostrou a comunicação como instauradora da convivência e o papel da oratória na projeção de ideias (Plutarco, Cícero, Demóstenes, Rui Barbosa).

Imprescindível assinalar quem transmitiu a visão de que é preciso aprender a usar o  pensamento como ferramenta de compreensão (Sócrates, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Edgar Morin) e entre esses não seriam suprimidos quem praticou a expressão desembaraçada de opiniões, sem perder a leveza do humor e a sabedoria do bom senso (Montaigne, Voltaire, Emerson).

Sobretudo, é preciso destacar quem pensou sobre a prática da justiça e a sede de ser justo (Sócrates, Platão, Hobbes, Locke, Hume, Kant, Montesquieu) e demarcou que é essencial seguir aperfeiçoando a noção de justiça. Lembrando que esses nomes não esgotam essas lições.

O inventário não estaria completo sem os conhecimentos sobre a própria Educação e também, os saberes sobre Política.

A educação alicerça o processo de humanização, então cuidemos das lições de quem a escolheu como área privilegiada de saber (Sócrates, Platão, Aristóteles, a Paidéia dos gregos, Comênio, Confúcio, Rousseau, Vygotsky, Piaget, Paulo Freire).

Também não iria preterir quem pensou as ciências políticas. Elas esclarecem a natureza das relações de poder entre homens e sociedades (Platão, Hobbes, John Stuart Mill, Karl Marx, Rawls); mestres cujos insights podem nos ajudar a exercer poder sem deixar de nos reconhecermos como zeladores de relações justas que assegurem a convivência  pautada na consideração do outro e na cultura de paz.

Sem dúvida, eu incluiria obras que permitissem conhecer as vidas de místicos, espiritualistas e santos com o objetivo de firmar os valores da humildade, da compaixão e da simplicidade, tão contrários à ganância, presunção e frivolidade que, não raro, servem de modelos aos jovens. Deixaria ainda nesse testamento imaterial, biografias de heróis que ajudariam os jovens a compreender que há causas e lutas humanas e que para servi-las é preciso, caráter, coragem e afinco.

Enfim, essa lista está só no começo. Mas é útil, pensar que cada um vai deixar um tesouro muito singular, conforme os valores e prioridades que elegeu como legado à humana descendência.

Aqui vai o primeiro rascunho de um inventário de ideias. Que tal construir a sua?

Retrato de Alberto de Eliseu Visconti