Para que serve a gentileza?

A colheita, obra de Cicero Dias (1907-2003)

Somos também o outro em toda relação

Qual o papel da gentileza em um mundo marcado pela pressa e pelo consumo?

Não há saída possível aos desafios da aventura do homem na terra que não passe por algum tipo de laço ou relação.

Então, por que não ser gentil?

Nossas práticas de convivência se define por uma busca de completude egoísta, como se nos bastássemos para resolver todos os problemas e alcançar todos os objetivos.

É como se fôssemos movidos por uma ilusão de autossuficiencia , onde a exclusão dos semelhantes fosse possível.

Essa ilusão não nos ajuda e emperra muito nosso crescimento pessoal.

Os requisitos primeiros da existência é a capacidade de reconhecer-se como membro da tribo humana e ser capaz de viver em comunidade, conectado pelos laços do afeto, da  comunicação e do trabalho.

Mas, reconheçamos. Muitas vezes, essas exigências de agirmos como seres dispostos à interação parece tarefa irrealizável, estamos sempre tentados a considerar o rompimento de laços pela via da agressão e hostilidade como solução para nossas dificuldades de relacionamento.

Acontece que, principalmente, nessas situações críticas, é que é preciso desobstruir a via comunicativa e estender os braços para retomar uma relação mínima pautada  na cortesia.

Somente a civilidade, a cortesia são capazes de manter aberta a vida da compreensão mútua que traz a possibilidade do perdão e da retomada da relação noutro patamar.

É fato que interagir de forma edificante é desafiador. Nossa natureza é ambígua. Reunimos uma dupla condição de seres culturais constituídos também por uma natureza animal. E há, certamente, situações, momentos e pessoas que nos levam à exasperação e nos confrontam de forma nítida com essa dupla natureza.

Então como conjugar nossa natureza múltipla de forma a integrar o que nelas há de melhor?

Como seres capazes de inventar signos e atribuir-lhes sentido, podemos fundar modelos de interação elevada. Podemos  inventar códigos baseados na empatia e na consideração do outro e usar argumentos forjados na consciência profunda de nós e de nossos pares.

Freud dizia que o primeiro homem a preterir o uso da lança e utilizar o argumento para revidar ofensas fundou a civilização. E o psicanalista de Viena sabia o que estava dizendo. É o discurso como capacidade de criar argumentos, que nos funda enquanto sujeitos e institui a interação sustentada pela convivência civilizada.

E o que tem a gentileza a ver com tudo isso?

A gentileza é o código da sensibilidade relacional. Ela exprime senso de alteridade e a disposição de ânimo que deriva da consciência humana de sermos parte de um projeto comum.

Eis a chave: só há uma relação se houver a consideração do outro.

Sartre dizia que ‘o inferno são os outros’. Ele tinha parcialmente razão. É difícil sondar e acessar o semelhante com seus desejos e singularidades. Mas, eles são também parte indispensável do nosso céu. Não há alguém sem o outro para reconhecê-lo e nomeá-lo como tal.

A gentileza, a civilidade, a convivência elevada são os pilares da ponte única que nos leva e eleva em nosso percurso rumo à construção dos significados para uma existência com sentido. E não há felicidade fora desse circuito.

A gentileza permite aproximação sensível, dá estabilidade mínima às relações para que elas possam realizar-se no acolhimento e na compreensão para além dos nós naturais advindos das disputas e incompreensões.

Por volta de 1910, Mary Mercedes, uma freira dominicana, publicou o ‘Livro da Cortesia’ no qual diz: a atitude gentil quando chega aos pesados ambientes hostis traz a luz e a brisa fresca de uma manhã’. Lição valiosa nos dias de hoje quando todos parecem crer que não há mais espaço para gentilezas.

Mas, quanto mais as relações humanas beiram os abismos da indiferença e da hostilidade gratuita, mais precisamos gravar na memória que o espírito da civilidade é atemporal.

E a nós cumpre realizá-lo em qualquer tempo.

Os laços humanos se sustentam pela consideração do outro.

Os laços humanos se sustentam pela consideração do outro.

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