De onde vem nossa fortaleza interior?
De onde vem nossa fortaleza interior?

Quando nossos limites estão próximos da fronteira e as forças parecem esgotadas, de onde tiramos fortaleza de ânimo?

Nas situações críticas, sejam as exigências do trabalho, as delicadas solicitações do amor ou os momentos em que as decisões sinalizam ameaças, de onde vem a força que nos impulsiona?

O que nos leva a tocar o barco da existência com firmeza e esperança, ao invés de nos lançarmos ao próprio abandono ou à preguiça, quando as tarefas rotineiras parecem sacrificantes e sem sentido, seja por que estamos num dia ruim ou pela descrença no valor desses atos?

Nessas horas, cada pessoa tem suas próprias formas de buscar luz e força para  reacender a chama da disposição e responder aos desafios da existência. Algumas saídas são mais procuradas na busca de vigor e equilíbrio. Há o aconchego familiar, o amparo de amigos, a clarificação pela terapia, o cuidado mais acurado com a saúde, a dedicação primorosa ao trabalho ou o alento da religiosidade.

E, talvez, seja nesses momentos de busca do que nos fortalece, reconhecendo que  estamos enraizados em tudo o que nos rodeia, que vivenciamos com mais força a dimensão espiritual. A palavra espírito significa sopro. Então como vivenciamos a espiritualidade ou cultivamos o sopro que nos impele?

É costume confundir-se religiosidade com espiritualidade.

E é compreensível. A vivência da religiosidade é o aspecto que mais presentifica a consciência de que somos além do que somos. Contudo, a espiritualidade, como dimensão da existência humana pode ser mais ampla.

A espiritualidade se exercita na prática religiosa, mas também, se realiza quando apreciamos a arte; quando nos emocionamos  diante de um crepúsculo; nos momentos em que nos enternecemos com um sorriso de criança, quando nos transportamos ao sublime observando a natureza ou experimentamos um sentimento de conforto ao ouvirmos a cadência de uma prece. Tudo isso exemplifica movimentos de expansão; vivências que nos impelem para além.

Viver a espiritualidade é permitir-se a harmonia com o que existe e com o que sentimos a partir do que existe.

A espiritualidade é a capacidade de reconhecimento da impossibilidade da autossuficiência; é a consciência da profunda conexão entre nós e o que nos cerca. É a faculdade de entrar em contato com o todo e retirar daí os elementos que nos tornarão mais substantivos, capazes de seguir fortes e equilibrados.

Para o religioso, o sopro é a centelha divina e tudo o que advém da experiência mística; para o não religioso, pode ser a prática do cuidado ecológico, a solidariedade ou outras formas de demonstrar o profundo respeito ao mistério que ele credita às forças não divinas.

Contudo, todos esses movimentos evidenciam iniciativas do ser psicológico que somos, que nos lançam para além da noção mais pragmática da existência. Ajudando-nos a agir como seres capazes expandir-se como potência vocacionada ao crescimento.

No exercício religioso, temos as igrejas às quais nos ligamos para abrir caminhos para a força divina, conforme acreditamos. E de certa forma, quando fazemos isso, construímos uma igreja interior, erguemos pilares que sustentarão nosso espírito nos momentos de vulnerabilidade ou impulsionarão novas forças aos atos cotidianos.

Mas, no exercício da vivência espiritual, cada um constrói sua própria ‘catedral’.  Cada pessoa erige sua fortaleza interior, conforme seu desejo de transcendência e de acordo a fome de expansão da própria alma.

A espiritualidade não é, ela ‘está sendo’; é fonte de força, por isso é dinâmica. É busca contínua de expansão rumo ao infinito. E cada um sabe qual o mistério que o intriga, cada qual tem seu próprio encantamento diante do mistério;cada um sabe que cordas o sustentam para que possa caminhar com equilíbrio.

A vivência da espiritualidade reafirma os profundos respeito e zelo pela vida, pela natureza e pelo que conecta tudo isso ao projeto de cada um e ao propósito de todos.

O que fortalece nossas asas?
O que fortalece nossas asas?