Há sempre alguma escolha entre nós e nossos objetivos…

Escolher não é opção.

Da rotina mais banal ao projeto mais caro, decidir surge sempre como imperiosa necessidade. E toda decisão pressupõe escolhas.

Por isso mesmo, seja para obter benefícios ou minimizar riscos, somos seres condenados a escolhas e sujeitos às suas consequências.

Contudo, apesar do alcance das escolhas em nossas vidas, será que, nos momentos decisivos, dedicamos a necessária reflexão para antecipar resultados, projetar opções e saídas para os acidentes de percurso?

Será que não poderíamos nos livrar de decisões negligenciadas ou apressadas que nos trazem mal-estar e arrependimentos?

É fato. Não é incomum aligeirarmos escolhas e firmarmos resoluções impulsivas, frutos de ponderação rasa. Seguimos o caminho, esquecidos de que ao decidir, podemos exercitar aspectos superiores da inteligência e extrairmos informações que podem embasar o êxito de etapas futuras.

Naturalmente, nos momentos decisivos somos acometidos por certo nível de ansiedade, mas vale a pena ultrapassar a apreensão inicial e investir no controle mais racional dessas ocasiões.

Montaigne, filósofo francês, devotou muito de seu pensamento ao que está envolto nas escolhas humanas. Em um de seus ensaios, ele afirma que o ‘espírito indeciso’ é, muitas vezes, fruto do hábito de negligenciarmos o papel da reflexão como insumo para escolhas consistentes.

Com o ceticismo próprio de seu estilo irônico, Montaigne certamente exagerava quando dizia: ‘Se com idêntica necessidade de beber e comer, um espírito indeciso fosse colocado diante de uma garrafa e um presunto, não teria provavelmente outra solução senão morrer de fome’.

Exageros à parte é plausível constatar dificuldades implícitas nas escolhas humanas. Obstáculos que poderiam ser minimizados pela prática da reflexão como condição para embasar momentos decisivos em critérios sólidos.

A ação humana inclui atos e consequências, mas no comum, agimos como se estas não nos alcançassem.

Sobre o assunto, é útil lembrar as lições de Bertolt Brecht. O dramaturgo alemão alertava para o fato de que somos nós que pagamos a conta das decisões tomadas, então, segundo ele, é preciso calcular e tirar a prova das situações enfrentadas, sob a pena de prejuízos existenciais de difícil resgate.

Nas decisões refletidas, instala-se um círculo virtuoso que nos ajuda a extrair dados de cada escolha e a crescermos em consciência e preparo.

O contrário também é real. Agindo com menor consciência, recaímos em negligência, dissipação de esforço e inteligência. O resultado é sofrermos consequências que não previmos ou não almejávamos.

É quase fatal. Quanto mais negligenciamos o que define uma escolha, menor clarividência. E menor clareza leva a escolhas empobrecidas.

Entretanto, é possível basear processos decisórios no senso de realidade forjado pelo exame cuidadoso das situações, pois nas esquinas da vida, há sempre uma escolha à espreita.

Nem sempre é nítido, o caminho que nos leva à melhor decisão...
Nem sempre é nítido o caminho que leva à melhor decisão…

Uma lista para a pauta... livros para a pauta …

Quando interrogados sobre os livros prediletos, é comum revelarmos a lista que deixará no ouvinte, a melhor impressão quanto ao nível da qualidade de nossas escolhas como leitor. A situação é similar ao processo de divulgação de fotos pessoais, escolhemos as que  revelam os melhores ângulos.

Não há nada de errado quanto às duas situações. Em relação aos livros, apenas vamos passar uma imagem um pouco incompleta quanto ao tipo de leitura que realizamos. Mas, é uma questão pessoal.

O próprio Freud admitiu que a lista que forneceu como sendo de seus livros favoritos, na realidade, era composta por autores que ele considerava esplêndidos, mas não continha, necessariamente, as obras que lhe deixaram as mais fortes lembranças.

Ainda segundo o psicanalista vienense, se partisse do critério da agradabilidade, talvez aquela relação fosse alterada para incluir Emile Zola, Gomperz e Mark Twain, além de outros. Fica evidente que Freud não tinha muito do que lamentar da qualidade de sua lista, digamos ‘secreta’.

Mas, para os ‘simples mortais comedores de letras’ como eu, a história não é bem assim. Admito que quando sabatinada sobre preferências, também sou  seletiva. Costumo declarar as leituras às quais atribuo alto valor literário, grande poder informativo ou pelo inestimável valor humano do seu conteúdo.

Percebo que na lista não aparecem livros que me arrebataram pelo tipo de leitura fácil e prazerosa. Talvez devido a certa responsabilidade quanto às influências que posso imprimir nos outros, excluo, até injustamente, algumas experiências de leitura.

Assim, muitas vezes, deixo de declarar o quanto senti prazer, por exemplo, ao ler: O Perfume  de Patrick Suskind; A Cidadela de autoria de A. J. Cronin; O Vale das Bonecas de Jackeline Susann; Servidão Humana de Somerset Maugham, A Boa Terra de Pearl S. Buck e Pássaros Feridos de Colleen McCullough, entre outros inesquecíveis pela forma que prenderam minha atenção, sem esforço e com muito prazer.

Esses títulos, realmente, produziram em mim, grande arrebatamento e fluxo confortável de leitura. Puro deleite de leitor que buscava apenas, momentos de evasão.

O que motivou essa reflexão é certa inquietação que sinto quanto à estreiteza de critérios, na seleção de leituras, que muitas vezes impomos a nós e aos outros. Mas, o valor da leitura, não está apenas no livro em si, está também nas emoções e impressões que nos provoca.

Por isso, mesmo quando nossa pauta de leitura estiver atrasada ou com grandes lacunas, não devemos nos privar de, de vez em quando, nos lambuzarmos com uma leitura deliciosa que faça tremer a alma, sorrir da graça solta ou nos deixe bisbilhotar uma história frívola sem muito peso dramático ou valor literário.

É como pegar uma panela de deliciosos brigadeiros e, de vez em quando, fugir da dieta de pão integral e hortaliças. Vale a pena abandonar a atenção ao ímã dessas leituras. Deixar-se levar por obras que proporcionam momentos de  intimidade com  autores que adoram seduzir e inebriar.

Victoria de Henri Fantin-Latour Livros para as pausas…