A viagem é a soma do proveito das experiências ...
A viagem é soma proveitosa das experiências …

Se alguém disser que adota a prática do contentamento será taxado de Pollyana.

Pollyana é a protagonista do livro de mesmo nome de autoria de Eleanor H. Porter. Publicado em 1913, a obra conta a história de uma garota de onze anos que fica órfã e vai morar com a tia e é confrontada com uma realidade distante da atmosfera amorosa do antigo lar.

E é para enfrentar a nova realidade que Pollyana adota o ‘jogo do contente‘.

O ‘jogo’ consiste em enxergar sempre o lado positivo dos acontecimentos, mesmo quando eles se apresentam injustos ou cruéis. A atitude de Pollyana, apesar de servir como inspiração de muitos leitores, é, também, objeto de crítica ácida por outros tantos que a consideram, no mínimo, ingênua.

Mas o que é o contentamento?

Etimologicamente, contente vem do latim – contentus e continere – estando ligada a dois significados: satisfação e conteúdo. E de fato, a palavra contentamento remete a ambos os termos, uma vez que a satisfação extraída das experiências é indissociável do que somos capazes de suportar ou aproveitar do conteúdo dessas vivências.

Podemos dizer que o ‘jogo do contente’ utilizado pela personagem de Eleanor Porter é uma versão ingênua e juvenil da prática do contentamento. Esta constitui uma estratégia comportamental útil para fazer face às vicissitudes e valorizarmos o lado positivo das batalhas diárias.

A prática do contentamento é exigente quanto à força atitudinal de cada um, talvez por isso, muitos prefiram lançar-se às queixas e à amargura que além de não resolver problemas, sugam valiosa energia emocional.

A prática do contentamento não se confunde com a atitude do famoso personagem Cândido, criado por Voltaire, para satirizar a visão otimista de Leibniz, o filósofo alemão.

Cândido adotava uma visão ingênua e exageradamente otimista, ignorando os obstáculos reais. Ele justificava as ações, usando o argumento de que sempre que agimos por opção própria, tudo depende de nós. Agindo assim, Cândido seguia a máxima do livro que diz que ‘tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”, ignorando implicações e condicionantes da realidade.

Ocorre que o mundo não é ficção. Há arestas e obstáculos a ultrapassar. A ação humana é sempre povoada de fantasmas: as dificuldades próprias da realidade; os impulsos que nos afastam das metas; os descomedimentos que nos distanciam da temperança. E há ainda, os medos: de não ser perfeito; de não estar pronto; de estar ultrapassado; de ter de lidar com fracassos e frustrações. Só para citar alguns.

Contudo, é, exatamente, por existirem tantos obstáculos que é preciso aproveitar o potencial para aplicarmos o melhor de nossa capacidade e disposição para realizar o que precisa ser feito, mantendo disposição de ânimo que nos impulsione na direção das metas.

É certo que há muros intransponíveis. Mas toda construção se move pela convicção de que a despeito de tudo e de todos, é possível recriar realidades e mover obstáculos.

Contentar-se é ir na direção do futuro com a perseverança de atletas de alto rendimento em treinamento; é tecer a rotina com paciência e perícia da aranha que trabalha na teia perfeita; é cultivar a tolerância à frustração do monge que sabe que para se conectar ao sagrado, precisará suportar o isolamento e os sacrifícios da frugalidade.

Pode-se resumir o que é contentar-se, dizendo que o contentamento é próprio dos que escolhem um objetivo e vão, diariamente, aproximando-se dele pela realização de tarefas coerentes, por menores que elas possam parecer em confronto com a estatura dos objetivos traçados.

Enfim, contentar-se é saber ao fim de cada dia, que a boa luta foi praticada e que só se vive um dia de cada vez.

Chegar é somente parte da viagem…

Obra de Fongwei Liu,
Transportar-se para territórios inusitados …

Ler é viajar. 

Essa afirmação tão corriqueira, certamente, refere-se às sensações de afastamento da realidade e prazer evocadas na experiência da leitura. Mas, se repararmos com atenção, é possível ver que a leitura em si é apenas um transporte. A viagem é obra do viajante, no caso, o leitor.

Cada leitor é um peregrino alado. Suas asas são a imaginação e a curiosidade. Asas que nos alçam às alturas da compreensão e sensibilidade que a leitura proporciona.

Todo viajante precisa de um plano de viagem, sendo leitores, precisamos de um ‘plano de voo’.

É impossível ler tudo o que queremos no tempo que almejamos. São tantas as escolhas possíveis, dentre a massa de títulos que compõem os estoques de livrarias, sebos, e bibliotecas. A saída é buscar atalhos que nos ajudem a abreviar esforço e tempo. Talvez, este seja o motivo do sucesso das listas de livros recomendados e de publicações do tipo ”livros para ler antes de morrer”, ‘livros para amar’ , ‘livros mais lidos pelos grandes escritores’.

E é justo reconhecer que essas ‘recomendações’ têm valor como indicadores que podem ser úteis para alcançarmos formas mais produtivas e prazerosas de ler.

Acontece que cada leitor precisa fazer viagens que o levem a lugares congruentes com as suas metas de médio e curto prazo ou com seu propósito de vida. E essa congruência é o que, antes de tudo, dará sentido e consistência às leituras.

Cada leitor, a partir de seus propósitos, firma um julgamento do que é a leitura e qual a sua finalidade.

Glustave Flaubert dizia que a gente lê para viver. Ele atribuía profundo sentido existencial à leitura. Franz Kafka dizia que a gente lê para fazer perguntas. Ou seja, o criador de ‘Metamorfose’, via a leitura como estímulo à capacidade crítica. Alberto Manguel, autor de ‘Uma História da Leitura’, explora a amplitude do ato de ler quando afirma: ‘Ler as letras de uma página é apenas um dos muitos disfarces da leitura.”

Apesar de cada leitor ter uma visão singular do valor e utilidade da leitura, há uma base comum de finalidades em cada gênero literário que permite traçar orientações que podem ser ponto de partida de bons ‘planos de voos’.

Vejamos algumas.

Quando o desejo é aprofundar o conhecimento de áreas técnicas, a opção é investir tempo na leitura de artigos, periódicos técnicos e manuais científicos. Eles fornecem o cabedal de informações que ajudam a manejar ideias teóricas com maior desembaraço. Se quisermos soltar a imaginação, a ficção é a melhor escolha. Se a ideia é aprimorar a capacidade reflexiva nos temas que nos são valiosos, a pedida é mergulhar nos ensaios que por sua natureza ampla permitem visualizar uma mesma temática sob múltiplos prismas.

Caso a leitura objetive o ganho de mais fôlego na compreensão filosófica da vida, então não há saída que não passe pela leitura de mestres da Filosofia, dos Socráticos aos Contemporâneos e Pós-modernos. Se o destino final é aumentar ou descobrir a própria capacidade de captar e expressar a realidade com sensibilidade, as linhas sensíveis da poesia são ótima trilha. Por último, se quisermos incrementar a capacidade de apreciação estética, os textos de dramaturgia e os livros de arte e fotografia são velhos e sábios amigos.

Agora, se você quer ler para escrever melhor, então, prepare-se. Sua pauta de leitura pode ser infinita. Considere tudo, dos clássicos aos últimos lançamentos. Literatura Nacional e Estrangeira – Romance, Ficção Científica, Terror. E ainda, Correspondências, Biografias, Viagens, Culinária, Poesia com ou sem rima, Mangá e gibi. Vai escrever ficção? Então, ler crítica literária é fundamental. Quer ser um bom ensaísta? Não há outro jeito a não ser mergulhar nos artigos, ensaios e críticas. Enfim, não há e não deve haver restrição, simplesmente leia com vontade de desembaciar suas lentes ou como dizia Marcel Proust de ‘Olhar para o seu mundo com os olhos do escritor’.

Seria possível continuar elencando opções, mas paremos aqui. Antes de finalizar, entretanto, nunca é demais lembrar que quando se trata de leitura, preconceito não ajuda. Quanto mais abrimos as portas da percepção e diversificamos a leitura, mais o ato de ler traz benefícios. Nada mais saudável do que, de vez em quando, deixar o ‘plano de voo’ de lado e entregar-se a um desses livros que de repente nos chegam às mãos.

Afinal, nada acontece por acaso, especialmente, quando se trata da magia de ler.

Obra de Iman Maleki
O leitor é um ser alado …

Querer ver ou cerrar os próprios olhos para ....
Ver ou cerrar os próprios olhos para ….

Se a comunicação permite as conexões pela via do entendimento, por que tantas vezes, ela parece ser mais uma barreira do que uma ponte para a compreensão? Por que sendo um processo para conectar pessoas, não raro, causa rupturas e condena relações?

É certo que comunicar-se não é simples.

Todo ato comunicativo é encontro de subjetividades, por isso, reflete um emaranhado de processos complexos. Mas dentre os desafiadores processos comunicativos, expor opiniões parece sempre ser o mais arriscado.

A resposta talvez esteja no que está em jogo quando nos comunicamos, sobretudo, no que diz respeito a emitir opiniões.

Descartes filosofava nas suas Meditações que ‘os imediatismos de nossos interesses nos levam a defender posições antes de analisar as situações com suficiente zelo, por isso é preciso confessar que a vida do homem está sujeita a falhar assiduamente pela incorreção e debilidade de suas opiniões’.

E o filósofo tem razão. Costumamos falhar não somente pelo ímpeto da imposição cega de opiniões, mas, inclusive, pela ausência de uma reflexão prévia sobre os fundamentos de nossas certezas e pelo descuido quanto ao que nossas ‘verdades líquidas e certas’ podem deflagrar.

Dificilmente, as opiniões são expostas com o simples objetivo de demonstrar diferentes perspectivas de um mesmo fenômeno. Quando opinamos, queremos também influenciar o outro na direção do que pensamos, uma vez que tendemos a considerar correto e coerente tudo o que coincide com nossas certezas.

Comunicar-se não é apenas dar fluxo a um conjunto de palavras. O ato comunicativo é, antes de tudo, uma situação de troca, por isso, envolve, além de aspectos relacionados à linguagem e à emoção, algum nível de exercício de poder pelos interlocutores. Quando dizemos algo, além de afirmar o que pensamos, revelamos também um pouco do que somos.

Podemos dizer que no ato comunicativo há sempre afirmação de identidades e talvez seja esse o fator desencadeador de certa vontade de exercer supremacia na situação comunicativa para que nossa verdade prevaleça.

O psicólogo Gordon Alport dizia que o meio mais infalível para obscurecer a verdade é querer possuí-la por inteiro. E há mesmo, quem deixe aberto apenas o portal da própria opinião, fechando os ouvidos a qualquer visão diferente.

E quanto mais fechamos a porta da escuta e da tolerância mais deixamos de descobrir possibilidades infindas da prática comunicativa para  ampliar compreensões, conquistar e reconstruir  relações. Talvez, isto seja o nó da teia das trocas comunicativas em geral.

Quando esquecemos que comunicação é linguagem e troca e focamos no exercício do poder, deixamos aberta apenas a via para o trânsito de interesses imediatistas, ideias preconcebidas, fundamentalismos, ortodoxias obtusas, radicalismos arrogantes, além de dar margem à emergência de outras formas paranoicas de impor percepções.

Se antes da revolução digital esse fenômeno ficava circunscrito a nível mais restrito, com o advento da rede mundial de computadores e das redes sociais, isso ganhou escalas inimagináveis. As opiniões destilam crueldade, arrogância, sarcasmo. A negligência quanto a direitos humanos, maledicências e ataques grassam a via comunicativa virtual.

Se, Descartes no século XVII, já estava preocupado com a forma como negligenciamos a comunicação, imaginem se ele pudesse ver como as opiniões são lançadas nas redes sociais. Certamente, ficaria perplexo com o triste reflexo da ausência de compreensão sobre o peso ético e o papel humano da comunicação.

Somente a compreensão do que está em jogo na prática comunicativa pode levar-nos a retirar barreiras à comunicação genuína e fomentadora de encontros e vínculos.

Não podemos esquecer que a comunicação íntegra é fruto da conexão íntima e inteira com o que somos e com os outros. É, sobretudo, afirmação de princípios e consciência.

Quando deixamos aberta a porta do reconhecimento do direito alheio de também exercer consciência e livre-arbítrio colocamos tijolos consistentes para a sustentação do que nos constitui como seres de linguagem, pensamento, e valores. Criadores do mundo para si e para todos.

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Trocar opiniões é lançar diferentes olhares sobre o mesmo objeto.