Autenticidade – Grife da Personalidade

Mrs Nicholas Monro 1966-9 by Howard Hodgkin born 1932

A coerência é uma conquista da autenticidade…

Quem não gostaria de ser uma personalidade serena, magnética e autêntica? Afinal, os psicólogos da personalidade indicam esses atributos como sendo os mais constantes nas personalidades apreciadas por serem confiáveis, atraentes e marcantes.

A perfeição é tediosa, pois traz em si o aniquilamento do desejo. Entretanto, não seria mau se pudéssemos bailar na festa da vida como pares aceitos, contributivos e espontâneos?

Para entrar nesse baile, talvez seja preciso descobrir o  que distingue esses seres afirmativos e leves; atraentes e fleumáticos.

Comecemos pela serenidade. Ninguém gosta de pressão ou tensão desnecessária. Fugimos de companhias excessivamente ansiosas ou tensas. Talvez por isto, a paz de espírito seja a aptidão mais invejada. E a serenidade é porta de entrada da paz de espírito. Ela é a habilidade emocional dos que têm noção consistente de qual é o seu próprio papel e dos limites de sua ação no campo existencial dos outros.

A serenidade é própria de quem consegue praticar o desapego, escuta, pondera, olha, percebe e opta por ocupar seu espaço existencial sem onipotência. Quem se permite exercitar serenidade sobre si e sobre o ambiente é visto como sendo mais seguro, confiável e, por isso mesmo, agradável. São pessoas vistas como boas parceiras de vida e que costumam agir com maior eficácia em momentos críticos.

E o que seria uma personalidade magnética?

Aqui não nos referimos a aspectos energéticos da atração, mas da capacidade que algumas pessoas demonstram de, mesmo sendo espontâneas, cultivarem uma certa discrição. Elas identificam o que de si próprias é mais caro, têm ‘senso de alma’, se podemos falar assim.

A personalidade magnética não se deixa revelar de forma vulgar e impulsiva. Fernando Pessoa, no ‘Livro do Desassossego’, cita uma arte instintiva de preservar um quê de mistério à nossa existência.Ele diz: ‘organizar a nossa vida para que ela  seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça mais de perto que os outros…’.

Sem exagerar na dose de mistério, pois ninguém consegue conviver bem com enigmas ambulantes, é eficaz preservar riquezas internas, mistérios que fazem de nós, singularidades inteiras e atraentes.

Mas, dentre os três atributos, ser autêntico é um  desafio. A autenticidade  imprime estabilidade, coerência e consistência a atitudes e relacionamentos. Só há serenidade e consciência das próprias riquezas interiores em quem cultiva a autoconsciência. Ou seja, a consciência do centro e da substância  da própria identidade.

Valendo-nos mais uma vez de Fernando Pessoa, no livro citado, há um trecho que fala de quem vive alheio à própria identidade, submetendo-se às pressões artificiais, externas e massificadas para a conformidade. A passagem assim diz: ‘E assim arrasto a fazer o que não quero, o sonhar o que não posso ter, a minha vida, absurda como um relógio público parado’.

Construir autenticidade exige romper a tendência ao conformismo visando  fazer face a aparências ocas que não nos traduzem. Ser autêntico é conhecer obstáculos e pontes internos e firmar-se como identidade real e livre. Capaz de superar a culpa de não ser igual, mas assumindo a responsabilidade de ser semelhante.

O psicólogo Gordon Allport diz que a natureza fez seu grande investimento em individualidade nos seres humanos. Não subestimemos, pois, o potencial de singularidade que nos define.

E, finalmente, sendo a personalidade um processo transitivo, pois em contínua reconstrução, sigamos no esforço de reorganização da nossa identidade para potencializar quem somos e o que podemos nos tornar.

Obra de Howard Hodgkin

A identidade sólida e adaptável
permite-nos a inteireza, mesmo
quando sangramos…

2 comentários sobre “Autenticidade – Grife da Personalidade

  1. Jovina disse:

    Lidu, permita-me transcrever do seu ensaio:

    “Conquistar autenticidade exige romper a tendência ao conformismo para fazer face a aparências ocas que não nos representam. Ser autêntico é vencer obstáculos internos e firmar-se como identidade real e livre. Capaz de superar a culpa de não ser igual, mas assumindo a responsabilidade de ser semelhante.”

    Começo minha pequena mensagem transcrevendo parte de seu tão primoroso texto, porque representam verdades que quero trazer comigo como um mantra;
    Palavras que me põe frente à frente com o que sou e o que desejo ser; seu texto é como um espelho mágico no qual revelam-se nossas imperfeições e onde também descobrimos nossa beleza, às vezes tão óbvias e ao mesmo tempo tão escondidas.

    Beijo grande, Parabéns e obrigada por mais esse presente!
    Jovina

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