A dor da perda e a perda da dor… (Parte 2)

Deixar aflorar sentimentos ...

Deixar aflorar os sentimentos …

A travessia. É fundamental não castrar expressões de luto. O lamento é um exercício de intimidade com  a dimensão espiritual, com Deus ou qualquer força que consideremos maior do que nós. O lamento, seja como choro, prece, queixume, ou qualquer outra  manifestação de inconformismo traz alívio à dor. Contribui para a recuperação de estado emocional mais próximo de como nos sentíamos antes da perda.

Freud, em ‘Totem e Tabu’ reafirma o papel curativo do luto. Ele nos diz : “o luto tem uma função psíquica de desligar dos mortos as lembranças e esperanças dos sobreviventes.”. Para o Pai da Psicanálise, quando há a elaboração satisfatória do luto, os mortos se transformam em doces lembranças, em ancestrais ou entes reverenciados para os quais dedicamos não apenas carinho, mas aos quais nos voltamos, inclusive, por meio de pedidos de ajuda, direção e alento em horas difíceis. Para Freud, a adequada elaboração do luto afasta-nos do remorso e da autocensura que costumamos nutrir por continuarmos vivos, após a partida de quem éramos parte.

De qualquer forma, viver a ausência do ente querido em perspectiva alentadora cria atmosfera de conforto. A expressão conforto significa “com-força” e é propícia à compreensão das atitudes a cultivar na dor. Kierkegaard ainda dizia que ao desespero só é frutífero confrontar o amor e a fé. E de fato, quando visualizamos os mortos de uma perspectiva distanciada da morte como  signo de ausência absoluta, tendemos a sair mais inteiros da paralisia emocional que se instala nessas horas obscuras.

Há distintas formas de viver o luto. Há quem sublime a dor e a transfira para longe do sentido de sofrimento, vivenciando-a como experiência elevada de dedicação a causas humanitárias. Há os que  se voltam à espiritualidade. São formas que o espírito humano encontra para lidar com o sofrer. E todas terão repercussão no que seremos dali por diante. Mas nenhuma expressão que busque a dignidade na dor será menos sublime.

C. S. Lewis, autor das  Crônicas de Nárnia, diz que a saudade é uma incandescência quase invisível. O escritor achou uma linda forma para tratar da saudade eterna. Ele sabia de que sentimento falava, pois viveu o luto de forma intensa, ao perder  a esposa. Ele registrou esses sentimentos no livro: A  anatomia de uma dor – Um luto em observação. O livro foi o jeito encontrado para expressar  o lamento pela perda de sua alma gêmea.

No filme Nada é para sempre (A River Runs Trough it), de 1992, a temática das perdas também é tratada com sensibilidade e lirismo. Na película, o pai que perde um dos filhos  (talvez o mais querido) diz uma frase que resume sua  compreensão de que além da tristeza que atravessa, a presença do filho estará sempre em sua vida: “Em algumas rochas há gotas de chuva eternas”. É um lamento poético que mostra a sabedoria de quem já aprendeu a encontrar sentidos para as próprias perdas.

Reacender a vida. Sartre dizia que somos condenados à liberdade, sinalizando que sempre há escolhas possíveis em qualquer situação, mesmo diante da morte. Mas, talvez, seja possível afirmar que nós, seres humanos, somos condenados também às perdas; sejam as trazidas pelo tempo, pelas partidas ou até pelas incompreensões que nos distanciam uns dos outros (mesmo em vida).

E exatamente por esse aspecto inapelável do risco de perdas é que é possível lidar com elas de forma construtiva. Perceber que tudo é eternizado nas lembranças dos momentos que montam nossa história já é um ótimo começo. E isso só será possível se não deixarmos de lançar um olhar compreensivo sobre nós mesmos. Não nos culparmos ou nos mortificarmos. Se apenas mantivermos aceso o farol do amor e do desejo para realizar a travessia sem danos adicionais às cicatrizes.

É preciso lembrar que a presença sobrevive à existência e que os entes queridos serão sempre chamas acesas em nossas vidas.

Varrer a angústia e deixar o coração limpo para os recomeços...

Varrer a angústia. Deixar o coração limpo para os recomeços…

Um comentário sobre “A dor da perda e a perda da dor… (Parte 2)

  1. Lucia disse:

    “Há distintas formas de viver o luto. Há quem sublime a dor e a transfira para longe do sentido de sofrimento, vivenciando-a como experiência elevada de dedicação a causas humanitárias. Há os que se voltam à espiritualidade. São formas que o espírito humano encontra para lidar com o sofrer. E todas terão repercussão no que seremos dali por diante, mas nenhuma expressão que busque a dignidade na dor será menos sublime”.

    Meu pai sempre diz: cada dor tem a sua intensidade particular; uma é a dor da perda dos pais, outra é a dos filhos, outra a dos amigos e outra a do companheiro…”

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