A dor da perda e a perda da dor… (Parte 1)

A presença é eterna ....
A presença é eterna ….

Uma leitora pediu-me um texto sobre o sentimento de pesar. Ela passava por grande perda e queria ampliar a compreensão do luto.

O pedido mobilizou meus mais caros sentimentos, mas trouxe um desafio: como explorar essa angústia humana fundamental? O que escrever sobre a travessia do luto e tudo aí envolvido?

No esforço de compreender o assunto, focalizei dois pontos. Primeiro que é impossível passar pela vida sem contabilizar alguma perda. O segundo é que as perdas trazem além do sofrimento, elementos de promoção do crescimento humano?

A vida é tecida na alternância de ganhos e perdas. São duas faces da moeda da existência e nos movemos entre elas. E as duas ocorrências exigem transformações, acomodações enfim, aprendizagens. Mas aqui, vamos andar pelo terreno das perdas, procurando enxergar frestas de luz para além do sensação de vazio.

Há diferentes tipos de perdas. Frustração, prejuízo, desilusão e a perda mais profunda, a que exige a travessia do luto e cada uma dessas experiências é vivenciada de forma singular para cada pessoa.

Cada  perda é vivida sob o foco da percepção de quem a sofre. Assim, perder o emprego do qual depende a sobrevivência trará transtornos, mas a estatura e o modo como isso será vivenciado serão tão distintos quanto impressões digitais.

E a despeito do caráter devastador de algumas dores, a perda definitiva de entes queridos é o episódio que mais suscita sentimentos de desamparo e tristeza profunda. Pode haver um torvelinho de sentimentos que vão desde a perplexidade, passando por uma mistura de aflição, agonia, revolta, culpa e remorso. E cada um lida com esse processo com suas ferramentas afetivas e emocionais.

Não raro, há pessoas que na intolerância da experiência de perda, combinam autoagressão a certa descrença quanto ao valor da própria vida e muitas delas precisam de ajuda profissional para superar o momento.

Algo que se repete é a sensação de desamparo que parece estar na base das reações presentes no  luto, é uma sensação que nos faz sentir como se tivéssemos sido arrancados de tudo que que nos fazia sentir seguros e daí advém o desespero. Ou seja, acreditamos que não temos mais nada a desejar e, portanto, não podemos esperar mais nada.

Quando perdemos um ente querido, realmente sentimos como se não pudéssemos desejar nada além da restauração de sua presença. O sentimento de perda da ligação  profunda que tínhamos é tão alto que sufoca qualquer coisa que pudéssemos almejar.

O amor nos faz temer a morte; mas, também, religa-nos de volta à vida. Por mais profundo que seja o sofrimento que se abate sobre a pessoa enlutada, algo parece alimentar seu desejo de  buscar sentidos, para além da  existência de quem se foi. E esse algo é  a  necessidade  que os entes queridos que não partiram continuam sentindo do nosso amor e os apelos que vêm dessa  carência. A necessidade de partilhar  amor  não morre com aquele que perdemos, por mais essencial que fosse sua presença. E é a  consciência  absoluta dessa carência que vai suavizando a dor e  permitindo a transformação. A dor vai transmutando-se em vida nova.

E é essa transição de afetos que ressignificará a dor da perda. São essenciais as trocas afetivas nas famílias ou grupos que se mantém unidos e  confortando-se mutuamente. Esses intercâmbios afetivos favorecem a superação com mais saúde e menor mal-estar. É o exercitar desse amor que vai nos levando a perceber que a presença dos que amamos é eterna e independe da existência física.

Continua na parte 2

A dor é densa, mas transforma-se ...
A dor é densa, mas transforma-se …

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1 Comment

  1. “O amor nos faz temer a morte; mas, também, religa-nos de volta a vida “. Muito profunda essa frase!…

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