O que faz de alguém um ser admirável? (Parte 2)

Admirar, admirar-se ...

Admirar, admirar-se …

A história é pródiga de exemplos de como a proximidade com pessoas admiráveis pode ser benéfica. Mas se é assim, então, porque nos afastamos cada vez mais dessa receita milenar?

O individualismo, a ambição exagerada, a pressa, a ganância por bens materiais e o afrouxamento dos valores têm nos castrado como seres que aprendem pela imitação. Estamos sempre em disputa, por algo concreto ou  pelo simples prazer de competir. E isso parece ter virado hábito arraigado, inevitável e até valioso. Não que a competição seja ruim em si mesma. É que aprendemos um jeito de disputar que exclui o respeito e o reconhecimento do outro. Esquecemos que a competição é apenas uma forma de sociabilidade, mas não a esgota.

Admirar, na sua origem etimológica, vem das partículas ad e mirar. Ad significa aproximação no tempo e espaço. Mirar é originado de mires e quer dizer: digno de contemplação. Então, admirar é se aproximar do que é merecedor de ser visto e contemplá-lo, e apreender o seu  valor. Já a palavra inveja deriva do latim invidus que significa inviso ou que não pode ser visto. Assim, a  inveja é o sentimento de desgosto ou pesar pelo bem do outro que nos impede de enxergá-lo de forma plena.

 A admiração é considerada um princípio da Filosofia. Os filósofos dizem que é impossível construir conhecimento sem admiração. Os homens começam a se interrogar somente sobre o que admiram. Nesse sentido o invejoso é o contrário do filósofo. Ele é incapaz de contemplar a quem inveja. A presença do invejado é sofrida. É duro demais para ele  admitir que  o outro: é mais, sabe mais, tem mais, ama mais, cresce mais ou é mais feliz. A saída que lhe resta é ‘cegar’ (afastar-se ou hostilizar o objeto que inveja).

A questão é que ao fugir da felicidade do outro, ele se condena a não aprender com a sua presença. No medo de confrontar seu poder ao do invejado, ele esquece que pessoas invejáveis são também, em geral, pessoas admiráveis. Fontes de atalhos para obter o que se almeja. E assim, ele vai tateando no escuro atrás de atalhos mais difíceis. Para o invejoso parece haver um elo direto entre o sucesso do outro e o fracasso dele próprio.

Um velho provérbio diz: É mais fácil sentir piedade do coitadinho que reconhecer o êxito do outro”. É duro admitir. Mas como praticamos essa máxima. E como é possível perceber que uma noite estrelada é mais bonita do que uma noite de uma única e ofuscante estrela.

Todos nós em um momento ou outro, em diferentes níveis sentimos inveja. É um afeto inerente ao humano. Mas é preciso ficar atento a como  isso é vivenciado.  Você deve estar questionando: Mas esse ensaio é sobre pessoas admiráveis ou sobre  inveja? É impossível falar de seres admiráveis sem fazer referência ao sentimento de inveja que muitas vezes eles provocam.

E como podemos lidar com esse afeto tão humano, mas que traz repercussões tão negativas? É possível aprender com o seu oposto: a admiração.

É possível fazer pequenos exercícios de admiração que sedimentam  atitudes sábias de humildade e grandeza, como: não afastar pessoas por preconceito;  reconhecer, elogiar os méritos alheios; ter prazer em conviver com a diversidade; ter abertura de espírito para ultrapassar os sentimentos hostis, que às vezes nos acometem por motivos banais; desenvolver o próprio potencial sem considerar uma ameaça o sucesso alheio.

Não somos ilhas autossuficientes. Somos seres realcionais. Seres de poder e desamparo. E é outra vez, a sabedoria instintiva de Clarice Lispector que ilustra essa interdependência tão imanente à nossa condição: ‘Sabia de uma coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salva. E pensaria: eis o meu ponto de chegada.’

Ultrapassar a inveja. Viver a admiração. Perceber o outro como fonte de amorosidade e saber. Este é um ‘passo certeiro’ para ser emocionalmente estimulante, renovador dos próprios afetos e dos que estão próximos. Ser, enfim, alguém admirável.

Invisível ou admirável?

Invisível ou admirável?

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