Fazer-se admirável ...
Fazer-se admirável …

O que faz de uma pessoa um ser admirável?

Há tantas respostas para essa pergunta quanto existem tipos de pessoas e preferências na terra. Mas podemos resumir essa variedade em um núcleo comum de aspectos que na história humana, tem feito de seus detentores seres que causam admiração: amor, beleza, conhecimento, felicidade, fortuna, sabedoria, saúde e sucesso.

Em cada época, esses aspectos são expressos de diferentes formas. Mas parece não haver dúvida de que eles são capazes de atrair a cobiça humana. E as pessoas detentoras de alguns desses “dotes” serão, possivelmente, mais admiradas pelos que mais valorizam o que elas possuem.

O objetivo de todos é ser aceito. Na base da aceitação social está implícito algum nível de admiração. Razão porque, todos, de um modo ou de outro, procuram ser pessoas admiráveis.

Não existem fórmulas mágicas que nos transformem em um ser admirável. Há sempre algum esforço ou investimento pessoal. Mas será que não existem atalhos para ir direto ao ponto certeiro? A vida é provisória, os obstáculos, numerosos e queremos muitas coisas. Por isso, buscamos atalhos.

Em ‘Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres’, Clarice Lispector diz da personagem Lóri, que busca ser amada: ‘Não era à toa que ela entendia os que buscavam caminho. Como buscava arduamente o seu! E como hoje buscava com sofreguidão o seu melhor modo de ser, o seu atalho…’

Quem sabe somos semelhantes à Lóri. A diferença é que uns buscam amor como a personagem de Lispector; outros procuram dinheiro, outros anseiam por sucesso, outros mais perseguem a sabedoria, o vigor físico ou a saúde. E aí vamos vida afora. Uns mais perdidos, outros mais orientados. Mas, de um jeito ou de outro, o que nos marca como seres com histórias em comum é o desejo de ser aceito no clube das pessoas admiráveis ou, pelo menos, das não rejeitadas.

Um bom atalho  para ‘entrar no clube’ é observar pessoas admiráveis. Nos aproximarmos, reconhecê-las com humildade. Sem medo de parecer inferior diante de alguém considerado ‘grande.

E a receita é antiga. Na Idade Média os aprendizes “colavam” nos mestres de ofícios para aprenderem sua arte e até superá-los. Os alunos de Hipócrates, o pai das artes médicas, não desgrudavam do hábil professor. Os discípulos de Sócrates o rodeavam como andorinhas em volta do entardecer. E as jovens mulheres do Oriente observavam suas mães e avós na arte de seduzir e manter um esposo conforme os costumes. Já os jovens chineses acompanhavam os pais para se tornarem exímios plantadores de arroz…

Continua na parte 2

Base ou topo? Ou ....
Base ou topo? Ou ….

Admirar, admirar-se ...
Admirar, admirar-se …

A história é pródiga de exemplos de como a proximidade com pessoas admiráveis pode ser benéfica. Mas se é assim, então, porque nos afastamos cada vez mais dessa receita milenar?

O individualismo, a ambição exagerada, a pressa, a ganância por bens materiais e o afrouxamento dos valores têm nos castrado como seres que aprendem pela imitação. Estamos sempre em disputa, por algo concreto ou  pelo simples prazer de competir. E isso parece ter virado hábito arraigado, inevitável e até valioso. Não que a competição seja ruim em si mesma. É que aprendemos um jeito de disputar que exclui o respeito e o reconhecimento do outro. Esquecemos que a competição é apenas uma forma de sociabilidade, mas não a esgota.

Admirar, na sua origem etimológica, vem das partículas ad e mirar. Ad significa aproximação no tempo e espaço. Mirar é originado de mires e quer dizer: digno de contemplação. Então, admirar é se aproximar do que é merecedor de ser visto e contemplá-lo, e apreender o seu  valor. Já a palavra inveja deriva do latim invidus que significa inviso ou que não pode ser visto. Assim, a  inveja é o sentimento de desgosto ou pesar pelo bem do outro que nos impede de enxergá-lo de forma plena.

 A admiração é considerada um princípio da Filosofia. Os filósofos dizem que é impossível construir conhecimento sem admiração. Os homens começam a se interrogar somente sobre o que admiram. Nesse sentido o invejoso é o contrário do filósofo. Ele é incapaz de contemplar a quem inveja. A presença do invejado é sofrida. É duro demais para ele  admitir que  o outro: é mais, sabe mais, tem mais, ama mais, cresce mais ou é mais feliz. A saída que lhe resta é ‘cegar’ (afastar-se ou hostilizar o objeto que inveja).

A questão é que ao fugir da felicidade do outro, ele se condena a não aprender com a sua presença. No medo de confrontar seu poder ao do invejado, ele esquece que pessoas invejáveis são também, em geral, pessoas admiráveis. Fontes de atalhos para obter o que se almeja. E assim, ele vai tateando no escuro atrás de atalhos mais difíceis. Para o invejoso parece haver um elo direto entre o sucesso do outro e o fracasso dele próprio.

Um velho provérbio diz: É mais fácil sentir piedade do coitadinho que reconhecer o êxito do outro”. É duro admitir. Mas como praticamos essa máxima. E como é possível perceber que uma noite estrelada é mais bonita do que uma noite de uma única e ofuscante estrela.

Todos nós em um momento ou outro, em diferentes níveis sentimos inveja. É um afeto inerente ao humano. Mas é preciso ficar atento a como  isso é vivenciado.  Você deve estar questionando: Mas esse ensaio é sobre pessoas admiráveis ou sobre  inveja? É impossível falar de seres admiráveis sem fazer referência ao sentimento de inveja que muitas vezes eles provocam.

E como podemos lidar com esse afeto tão humano, mas que traz repercussões tão negativas? É possível aprender com o seu oposto: a admiração.

É possível fazer pequenos exercícios de admiração que sedimentam  atitudes sábias de humildade e grandeza, como: não afastar pessoas por preconceito;  reconhecer, elogiar os méritos alheios; ter prazer em conviver com a diversidade; ter abertura de espírito para ultrapassar os sentimentos hostis, que às vezes nos acometem por motivos banais; desenvolver o próprio potencial sem considerar uma ameaça o sucesso alheio.

Não somos ilhas autossuficientes. Somos seres realcionais. Seres de poder e desamparo. E é outra vez, a sabedoria instintiva de Clarice Lispector que ilustra essa interdependência tão imanente à nossa condição: ‘Sabia de uma coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salva. E pensaria: eis o meu ponto de chegada.’

Ultrapassar a inveja. Viver a admiração. Perceber o outro como fonte de amorosidade e saber. Este é um ‘passo certeiro’ para ser emocionalmente estimulante, renovador dos próprios afetos e dos que estão próximos. Ser, enfim, alguém admirável.

Invisível ou admirável?
Invisível ou admirável?