Cuidar-se, expressar equilíbrio...
Cuidar-se, expressar equilíbrio…

A aparência é uma forma poderosa de manifestação da realidade. Há profunda relação entre a forma como vemos  as  coisas e os julgamentos que delas fazemos. Talvez por isso, a apresentação pessoal seja considerada condição valiosa  por quem deseja projetar uma imagem positiva do seu  jeito de ser e estar no mundo. E tal valorização não é fortuíta. A forma como percebemos as coisas é forte condicionante do jeito como reagimos às situações e firmamos escolhas.

Você já deve ter ouvido muito as frases: ‘A primeira impressão é a que fica’, ‘O hábito faz o monge’ ou ‘Ninguém tem uma segunda chance para produzir uma primeira impressão’. Elas traduzem a força da aparência como fator de influência nos nossos julgamentos, dizem da interferência do visual  como fator de inserção  e prestígio social.

Existem, inclusive, profissionais que ajudam as pessoas a expressarem uma imagem que as associem a signos de poder, competência e  as levam a transparecer  uma identidade que abra portas para a ampla aceitação social.

E é inútil negar que a aparência que revelamos interfere na forma como nos inserimos socialmente. Somos seres estéticos, somos atraídos por tudo que revela  proporção, equilíbrio e harmonia.

Quem já não viu alguém se arrumar, olhar no espelho e dizer: “Estou vestido para matar!”, “Vou arrasar !” , ou “Com essa roupa, vou conquistar o mundo!”. É isso mesmo. As vestimentas são escolhidas para marcar nossa presença. Firmar território. Estabelecer força ou condição em determinado grupo social. Nas guerras, a farda é fundamental para imprimir respeito ao adversário. No mundo do trabalho os uniformes são declarações de status ou condição de quem os usa.

A força da aparência como forte condicionante da aceitação social, entretanto,  não exclui a necessidade de enxergá-la como fator indissociável da atitude e da existencia de cada um.

Uma aparência de sucesso não se firma e permanece se está aliada a atitudes derrotistas, egoístas ou destrutivas. Nem constitui, sozinha, a base para uma existência significativa, consistente, capaz de dar sentido às nossas vidas.

Na filosofia, o sentido de aparência está irremediavelmente ligado a uma contradição fundante: a aparência é o que revela ou o que esconde a realidade? Para Parmênides, o filósofo pré-socrático que estudava a permanência como condição de verdade, a aparência traz a verossimilhança e assim é portadora da verdade. Platão também admite uma relação de semelhança entre aparência e verdade. Mas para Aristóteles a aparência pode ser tão verdadeira quanto falsa.

Apesar do grande passo dado por Aristóteles no sentido de não termos somente a aparência como critério de verdade, na modernidade, ela ganhou força e se revalorizou. Nesse sentido, Hobbes, filósofo moderno dizia: “De todos os fenômenos que nos circundam, o mais maravilhoso é o parecer”.

Esse breve passeio pelos jardins filosóficos é somente para ilustrar que a aparência não é uma questão simples de ser examinada. E por que a verdade não anda por apenas um caminho é preciso alargar as veredas do nosso percurso para  enxergarmos uma paisagem mais reveladora.

E a reflexão tecida até aqui tem por objetivo, exatamente, elastecer o horizonte para além da aparência sem negar a sua força. A apresentação pessoal compõe nossa presença no mundo, mas não a esgota.  Nossa presença se firma pela associação sinérgica de três elementos: aparência, atitude e existência. E somente atribuindo a cada um desses elementos, sua verdadeira estatura é possível ultrapassar a visão da aparência como algo superficial, definitivo e enxergá-la de uma perspectiva mais integral, ou seja, defini-la como  mais um componente fundamental de nossa presença no mundo, mas que não a expressa em sua plenitude.

Em que espero nos miramos?
Em que espelho nos miramos?