Reinventar-se, Reinventar a Existência …

O embotamento dos sentidos é um furto às emoções e às possibilidades criativas da vida ....

O tédio mina a vontade criadora

Quem escapa de, em algum momento da existência, sentir-se entediado?

O tédio é um estado de espírito que merece atenção especial pela frequência com que nos acomete e pelo impacto que traz à nossa capacidade realizadora e ao nosso bem-estar.

Muitas vezes, nem percebemos que estamos entediados, pois não raro, confundimos esse estado de ânimo com outros afetos ou disposições comportamentais.

Não falo aqui do tédio como a experiência de  fastio que sentimos em atividades ‘maçantes’, ou como dizia Pascal: ‘desse incômodo, oposto à diversão, que só passa se algo que nos deleite acontece.

Vamos aprofundar o olhar e pensar no tédio que é fruto do não querer com intensidade ou não sentir em profundidade?

Não falo da depressão que é uma experiência mais emocional. Refiro-me ao tédio como vivência existencial, como imobilismo da vontade. Postura própria dos momentos nos quais, a existência não nos desafia ou que não conseguimos enxergar conexão entre os passos que trilhamos e os rumos capazes de levar à realização dos nossos propósitos.

O tédio fixa suas teias na capacidade de sentir entusiasmo e entramos em profundo desligamento. Sartre, pensador existencialista, chamava esse estado de ânimo de náusea. Um certo modo de ser indiferente às coisas e até a nós mesmos.

Heidegger dizia que o tédio ‘é uma névoa silenciosa, recolhe-se no abismo de nosso existir, comunga homens e coisas, nós com tudo o que há em torno de nós, numa singular indiferença’.

E como contrapor-se a isto? A essa indiferença devastadora?

Cedo à tentação de simplificar a resposta por meio de uma receita. Convido-lhes, então,  à alquimia da criação do sentido. Para isto, proponho misturar três elementos mágicos pelo alcance humano que possuem. São eles:  curiosidade, compaixão e encantamento.

A curiosidade nos  liga ao mundo. A compaixão nos conecta às pessoas e não há mundo existencial para nós sem os outros. E o encantamento nos mantém em profunda ligação com a nossa capacidade de transcender, nosso poder de criar e nos religarmos espiritualmente ao universo.

Platão dizia que a curiosidade é o interesse pulsante pela vida, sendo uma larga Janela para inspirações. A ação criadora é amiga de quem é capaz de inaugurar um olhar descobridor cada vez que olha o mundo.  Fernando Pessoa dizia: ‘O poente é  um fenômeno intelectual’.  Talvez, com essa frase o poeta nos convidava a ter uma curiosidade mais amolada, uma sede de espantos  associada à ávida disposição para decifrar o real.

Para Schopenhauer, a compaixão é a base essencial do amor e da solidariedade e só é possível superar a dimensão dolorosa da existência pela comunhão com os outros homens.

Foi também Platão quem nos fez o convite a enxergar além da matéria. Vermos além da substância imediata que forma a existência e mergulharmos na busca de sentido do que fazemos das coisas, das nossas relações e de nós mesmos. Talvez, tenha sido esse  discípulo de Sócrates quem nos fez o primeiro convite filosófico à trascendência e portanto, ao encantamento.

Caímos muitas vezes no tédio por medo do erro que pode vir da experimentação, do novo e assim, nos lançamos cegamente à rotina. 

De fato, a experiência ilumina o pensamento. Mas, a imersão cega na rotina leva ao automatismo e à mesmice que nos faz esquecer de que somos seres em transformação.

Para agir e sentir com profundidade é preciso arregalar os olhos e ver para além do imediato. É fundamental aprender a lidar com os erros, sem perder a noção de risco, mas conscientes de que fora desse risco, não há renovação.

Se ficamos somente na ação repetida dos dias, o tédio nos cega. É preciso considerar o outro e juntar tudo o que temos: memórias, conhecimentos, lembranças, imaginação, habilidades e fundar a possibilidade do encantamento de reinventar-se, a cada dia.

Escancarar os sentidos, descobrir a beleza que está sempre tão perto...

Escancarar os sentidos

4 comentários sobre “Reinventar-se, Reinventar a Existência …

  1. Jovina disse:

    Lidu
    Seu texto realiza o que a frase do seu blog o define: “O blog de quem deseja chegar là” e vejo o “lá´” como um lugar de mais clareza e onde nos sentimos mais felizes e confortáveis;]
    O texto é todo excelente e destaco especialmente o trecho abaixo:

    “Se ficamos somente na ação repetida dos dias, o tédio nos cega. É preciso considerar o outro e juntar tudo o que temos: memórias, conhecimentos, lembranças, imaginação, habilidades e fundar a possibilidade do encantamento de reinventar-se, a cada dia.”.

    Lembrei nosso querido Pedro Nava, que dizia: ” A experiência é um farol ligado para trás”.

    Parabens e obrigada por tudo o que você nos proporciona..
    Beijo
    Jovina

    • Liduina Benigno disse:

      Jovina

      Suas palavras são um acalanto à minha alma.
      Vou guardá-las como devem ser guardadas todas as palavras de uma doce irmã.
      Beijo.

  2. Milene Fernandes de Oliveira disse:

    Parabéns, amiga Liduína!!! Suas poucas palavras falaram tudo o que a alquimia de curiosidade,paixão e encantamento traz para nossas vidas. Para mim, tédio é um estágio de incapacidade de investir em mudanças.Parabéns!!!

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