Querido Diário, Decifra-me ou…

Escreve-me o que escrevo?

Escreve-me o que escrevo?

O maior desafio de cada pessoa é decifrar os enigmas da própria personalidade. E eles, nossos enigmas, existem e têm impacto sobre nós.

Um grande interessado nesses segredos foi Sigmund Freud, o psicanalista vienense que descobriu os processos inconscientes da mente humana.

Quando descreveu os processos inconscientes, Freud sistematizou informações cruciais à ampliação da nossa capacidade de autoconhecimento.

O autoconhecimento é processo fundamental para nossa felicidade pessoal. Não é por acaso, que é considerado o primeiro requisito da inteligência emocional.

E o pioneiro no estudo da inteligência emocional, Daniel Goleman, defende que desenvolver boa dose de autoconsciência é pré-requisito para o aperfeiçoamento de  habilidades sociais que nos levam à autorrealização e ao sucesso. Ora, sendo o autoconhecimento tão essencial à autorrealização, ampliar os graus de autoconsciência merece nossos esforços constantes e consistentes. 

Mas, como ampliar nossa autoconsciência? Os meios para fazê-lo dependem do estilo, do desejo e das condições de cada pessoa. Cada um de nós, portanto, escolhe caminhos que lhe são mais apropriados.

Rembrandt, por exemplo, pintava exaustivamente autorretratos.

Os desenhos penetrantes que ele fazia da própria fisionomia são expressões da profunda necessidade de mergulhar nos sentimentos humanos por meio de si mesmo.

Sigmund Freud, Pai da Psicanálise, elaborou uma técnica psicológica durante sua autoanálise e era impiedoso consigo mesmo ao expor vulnerabilidades.

Clarice Lispector entregava a pena aos fluxos da própria consciência. E era tão intensa a procura de si, que sua escrita revela  borrões do inconsciente e divide misteriosos aspectos de sua alma com os leitores que os reconhecem como pedaços íntimos de suas essências.

Mas, como vimos cada um tem o próprio jeito de juntar peças desse valioso quebra-cabeça que é a personalidade de cada um.

Dentre todas as maneiras possíveis, há quem prefira escrever diários.

Fazer registros escritos de sentimentos, medos, rotina e fatos significativos em cadernos íntimos. Pessoas que derramando tinta no papel em branco vão rabiscando traços inéditos da sua personalidade.  

Quando lançamos escritos pessoais no diário, a alma quer rabiscar intuições; fixar emoções; registrar dores; gravar arrependimentos; rascunhar vontades incontidas e  pecados pequenos.

Cada um quer deixar pegadas, fixar marcações no mapa que o guia no território da própria intimidade.

E como somos únicos, existem infinitas maneiras de manter um diário. Cada pessoa escreve à sua maneira. Levamos à escrita diária nosso jeito de ser com manias e métodos.

Há quem goste de aproveitar restos de velhos e preciosos cadernos. Há quem escreva em caderninhos ilustrados com capas inspiradoras; existem os que são maníacos por Moleskines práticos e os que não abrem mão de brochuras gorduchas de tantas anotações.

Diários podem ser amigos confidentes ou confessores leais, mas sobretudo, podem ser lugares de autoexpressão e descobertas. As letras que nos escrevem com honestidade, nos enredam, contam o que somos.

A escrita pessoal pode ser prática curativa e exercício de autocompreensão. Escrever nos dá pistas das melhores trilhas pra seguir em frente rumo a desejos e objetivos e, às vezes, pode até nos desviar das dores.

Um diário é um documento expresso da disposição ao conhecimento de si mesmo e firma a vontade de seguir adiante com firmeza e esperança; ou proporciona a lucidez de que, às vezes, é preciso retroceder ou ainda, fazer uma pausa fortalecedora.

Enfim, manter um diário pode ser poderoso auxílio no contínuo aprimoramento pessoal.

 Gravar impressões na pele do caderno....

Gravar impressões na pele do caderno….

Dedico este texto a Joana Benigno, a irmã mais velha e dona de uma letra de caderno de caligrafia. A visão de seus cadernos escolares rabiscou as primeiras impressões do efeito da escrita na minha alma.

10 comentários sobre “Querido Diário, Decifra-me ou…

  1. Simone Pessoa disse:

    Lidu, adorei seu tributo ao diário e a busca do autoconhecimento! Senti vontade de resgatar meu caderno de anotações diárias que está no fundo da minha gaveta de cabeceira, há muito esquecido.

    • Liduina Benigno disse:

      Dagmar,

      Obrigada pela visita. Os autores são Daniel Gerhartz e Caravaggio. Basta passar o mouse sobre as figuras que a identificação fica visível. Nunca deixo de dar o crédito das imagnes. Forte abraço.

  2. Edson Luiz disse:

    Querida Liduína,
    Hoje coloco no meu diário que, ao acordar, te encontrei neste texto tão bem escrito, inspirado e inspirador.
    Vou me repetir, eu sei, mas me repito: que bom, você existe!
    Beijo, com muito carinho.

  3. Vaniza Pinto disse:

    Autoconhecimento é um mergulho sem fim. Quando somos mais jovens preferimos mergulhar nas nossas experiências, quase sempre gregárias. A maturidade nos convida à profundeza das nossas entranhas, em movimento e consciente mudança.

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