Criatividade: entre luzes, sombras e …

Enxergar as sombras dá noção de profundidade, mas é preciso luz  para dar nitidez e clarividência ...

Enxergar as sombras dá senso de profundidade, mas é preciso luz para alcançar nitidez e clarividência….

Viventes de um mundo cada vez mais mutável, somos constantemente convidados a direcionar esforços, os nossos ou dos outros, de forma criativa.

Assim, na vida pessoal ou na profissão, há sempre necessidade ou cobranças externas para que atuemos de forma original, resolutiva e transformemos pensamentos em ideias e estas em soluções práticas e melhorias existenciais.

E o que nos faz atuar criativamente? Ser criativo não depende de genialidade ou de dons e aptidões inatas?

Já são bem conhecidas as visões que desmistificam a capacidade criadora como sendo privativa de gênios ou de pessoas assinaladas com algum ‘dom’.  Há muito, pesquisadores, tanto da Psicologia como da Neurociência, vêm falando do papel das atitudes e hábitos como potencializadores de pensamento e ação criativos.

Mas, e as emoções? Como os estados afetivos impactam a capacidade de descobrir e inventar? Que ligação existe entre as emoções e o poder de originar caminhos diferentes para o benefício próprio e o bem de todos?

As emoções são parte do que somos. Nenhuma reflexão sobre o poder de criar estaria completa se as desconsiderássemos. Basta afiar um pouco a atenção para percebermos que os estados de ânimo impactam o que pensamos e o que fazemos.  Quem em algum momento não sentiu seu dia ser dominado por forte corrente afetiva? Quem jamais teve a sensação de ‘acordar com o pé esquerdo’, ou a impressao de que ‘o dia nasceu feliz’?

Seja por questões hormonais, metabólicas ou existenciais, passamos por diferentes temperaturas emocionais.  Em algum nivel, estamos sempre imersos em uma corrente emocional predominante. E os afetos têm diferentes valências que dão tonalidade ao que concebemos e  produzimos, enfim ao que vivemos.

Nos dias sombrios, quando nos sentimos mais melancólicos, tendemos a evitar novidades, a nos fechar ao que vem de fora. E isto pode afastar possibilidades criativas trazidas do ambiente. Nos dias de radiante alegria, por sua vez, a atenção focada fica mais rasa, perdemos em profundidade na capacidade de avaliar ideias e reconhecer aspectos que não estejam diretamente ligados à nossa euforia.

Se tomarmos como exemplo a vida de personalidades altamente criativas como Vincent Van Gogh, Gaugin e Tchaikovski, a tendência será atribuir ao sofrimento mental ou à instabilidade emocional muito do poder de criar. Mas, tristeza e alegria, cada uma com sua própria especificidade, trazem elementos que podem ser ricos ao pensamento criador.

Os momentos melancólicos favorecem a reflexão interna mais profunda e ajudam na exploração de características emocionais aumentando o nível de autoconsciência. E o autoconhecimento ajuda-nos a atuar de forma mais inteligente e original, trazendo enriquecimento da capacidade criativa.

Afinal, quando os grandes criadores, seja na área artística, científica ou técnica, conceberam suas criações, manifestaram profunda compreensão da condição e necessidades humanas, sejam práticas, estéticas ou sensíveis, o que exige em algum nível, uma boa dose de autoconhecimento.

Nos momentos de luminosa alegria, impregnamos nossa percepção de disposição positiva e assim, tendemos a ver situações e imagens da realidade como imagens de beleza. Distanciados das sombras da tristeza que acentuam a importância dos resíduos de mágoas, raivas ou ressentimentos que embotam nossa capacidade de pensar afirmativamente, enxergamos lacunas como possibilidades que podem ser transmutadas em objetos criativos, soluções originais ou reinvenção do proprio estilo de vida.

Ralph Waldo Emerson, filósofo que cultivava o esforço de introspecção visando o autoconhecimento profundo, dizia: ‘a qualidade da criação é fruir e não congelar’. E para fruir, é preciso atentar para as correntes de afeto. Elas podem transformar a disposição criativa em bloco de cimento e fechar caminhos ou fazer brotar um  verde jardim onde podemos nos mover e fluidificar a vontade.

Sombras e luzes sempre trazem possibilidades, depende de como as emoções são percebidas e integradas.

Não há sombra sem alguma luz...

Não há sombra sem alguma luz…

2 comentários sobre “Criatividade: entre luzes, sombras e …

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