Depois do nunca mais …

A dor dos que ficam pode ser transformada

A dor dos que ficam pode ser transformada

Há pouca reflexão sobre os sentimentos que a morte provoca.

Vivemos esquecidos do momento inevitável.

Do ponto de vista psicológico, o fenômeno é compreensível. A vida se liga à morte mais por antinomias. Por isso o ‘esquecimento‘ funciona muito como se fora uma defesa. Ele nos mantém mais conectados ao que é próprio de estar vivo: ao desejo, à ação, ao pulsar.

Mas a vida é provisória e por isso, como diz  Soren Kierkegaard, ela se traduz também pelo desespero. E não é a morte e sua inevitabilidade o evento que mais nos confronta  com a desesperança?

Cecília Meireles tem versos líricos para falar dessa inevitabilidade:

“…Semeia, colhe, perde, canta,
que a cavalgada leva seu destino.

Ferraduras ígneas virão
procurar onde estás, na hora que é tua.”

Mas, este texto não é poético, teórico ou filosófico. É um escrito testemunhal. Vivendo a experiência do luto, resolvi fazer o esforço da autoconsciência e nele expressar  o que sinto na alma.

O luto começa com o desespero do nunca mais. Em seguida, o vácuo cede lugar a uma sensação viscosa que não larga a gente. Um quê de saudades com gosto de vazios. E a gente vai se debatendo entre sensações que firmam a ausência da pessoa querida e imagens que nos vêm como  caleidoscópios de momentos alegres e tristes. Manchas de arrependimentos misturadas a uma vontade de quero mais.

Durante o dia, a gente se apega à dor – que parece a única coisa que restou -, como quem, quase caindo num abismo, se agarra a arbustos num paredão de rochas.

Adormecer custa, pois a existência está se realinhando e são muitos os espaços a preencher.

Acordar dói. A gente teima com as pernas imóveis para conseguir levantar-se e enfrentar a rotina. Quem sou eu diante desse dia que nasce sem aquela existência?

E eis o que nos iça para a pulsação da vida: o calor do conforto na hora propícia, a própria luz do sol, a brisa, as folhas verdes, o cantar dos pássaros que se confundem com os agrados e sussurros carinhosos dos familiares mais próximos –  companheiros do cotidiano -, a lembrança de abraços amigos; a beleza da música e da poesia. Manifestações de vida, amor e harmonia.

E assim, hora a hora, vamos recompondo o que somos sem aquela pessoa que se foi, que nos ajudava a ser o que pensávamos ser.

E então, descobrimos que continuamos a ser quem éramos. Fomos apenas acrescidos de uma presença indelével que firma a certeza de que não caminhamos sozinhos. Convicção trazida pelas mãos da ternura e da saudade. Sentimentos que nos tornam seres capazes de amar e de enfrentar a absoluta impossibilidade do homem de ser só.

Existimos por nós, mas somos por causa de todos. Eu explico. A palavra existir vem de ‘ex-sistere’ com o significado de estar fora. O filósofo Huberto Rohden diz que essa expressão indica que saímos de um todo maior, mas somos existências lançadas à solitude que só é superada pela comunhão com os outros existentes. Aqui ou na eternidade.

São ainda os versos de Cecília Meireles que traduzem com perfeição essa ambiguidade do que somos: finitude e eternidade.

“…  São mais duráveis  a hera, as malvas,
que a minha face deste instante...

Mas posso deixá-la em palavras,
gravada num tempo constante…”

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Dedico este texto com todo o meu amor à minha mãe Isabel Leilá. Mulher excepcional, artista singular, mãe de amparo e alma generosa cujo alimento nunca foi tão pouco que não fosse suficiente para a partilha e cuja casa sempre podia se estender para acolher a quem precisasse.

  • O consolo fraterno, o O abraço amigo nos lembra que nossa existência continua...

    O consolo fraterno nos lembra que a existência segue.

24 comentários sobre “Depois do nunca mais …

  1. Geraldo Hoebert disse:

    Mais uma vez você nos surpreende. Até mesmo na dor você consegue ser poética, uma virtude que raras pessoas possuem. Experimentar estes sentimentos é inevitável, mas é preciso que não nos entreguemos ao desamparo e à desolação. Sempre me lembro do que meu pai me disse ao voltar de um dos seus três infartos: “acredito que daqui a algum tempo eu vou, mas você tem que ficar forte porque ainda existe muita vida pela frente para você caminhar sozinho”. Grande e fraterno abraço
    Gerald(inh)o

  2. Irani de Paula disse:

    Lidu, querida, só você para traduzir tão lindamente até a dor da perda…que profundidade e que linda homenagem à sua mãe! Receba meu carinho e meu abraço, amiga. Irani

    • Liduina Benigno disse:

      Irani,

      minha linda e querida amiga,
      Como é sempre tão bom receber suas palavras
      no meu coração.

  3. Erika Foresti disse:

    querida amiga,

    Escrever é transformar pensamentos e sentimentos, traduzi-los, dar forma, incorporar e prosseguir mais sábia e fortalecida.
    Ler é conhecer, aprender e compartilhar sabedoria dos outros.
    Grande presente do simbóiico para nós.

    obrigada e um grande abraço bem forte,

    erika

  4. Francisco Benígno disse:

    É verdade, mana, quando.vou lá em casa sinto um grande.vazio por falta de minha mãe e meu consolo é q meus irmãos q lá moram trazem sempre a lembrança quase física dela, como se ela estivesse lá em algum cômodo e de repente surgiria nos falando algo, Gde. abraço.

    • Liduina Benigno disse:

      Querido mano,
      Essa sensação que você sente é realmente consoladora.
      Um abraço bem caloroso e fraterno.
      Amo você. Beijo.

  5. Maria da Conceição Andrade disse:

    Querida Lidu,

    Admirável sua capacidade de transformar luto em arte.
    Bela reflexão e uma homenagem linda!!! Parabéns!!!

    Grande abraço,

    Lula

  6. Norma Matos disse:

    Lindo, também perdi pessoas queridas como minha mãe e meu filho de 28 anos. Sinto exatamente como você escreveu, nosso sentimento somente pode ser sentido por alguém que já viveu esta experiência.

  7. Maria Helena disse:

    Lidu, texto perfeito. Quem já passou por uma perda igual, sente- se “traduzido” por suas palavras…. Beijo grande, amiga.

    • Liduina Benigno disse:

      Gabriel,
      Seu comentário é muito importante pra mim. Sei que você é uma pessoa sensível e de bom gosto, então, muito obrigada.

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