A traição dos livros …

Deixar voar o pássaro da curiosidade ....

Deixar voar o pássaro da curiosidade ….

Um dia, acontece.Você pega um livro que esteve ali, ao alcance da mão, ignorado todo o sempre e começa a ler.

Por que a leitura foi tão adiada? Motivos para o leitor retardatário não faltam. Se pudéssemos ouvir as desculpas, escutaríamos alegações do tipo:

– ‘ O livro é ‘muito grosso’, dá preguiça só de olhar’.

– ‘A capa é pouco atraente, não combina com um conteúdo legal’.

– ‘Eu nunca ouvi falar do nome do autor, então, o livro não deve ser bom’.

– ‘O autor é meu conhecido, pessoa comum. O livro, grande coisa não deve ser’.

– ‘O escritor é um filósofo do século XVIII, tem cara de velho angustiado. O que ele escreveu já deve ter perdido a validade’.

E entre desculpas, vamos deixando os livros na estante. Objetos para leitura usados como enfeites. Inúteis, não cumprem uma função nem outra. E eles? Imóveis. Nem se dignam a nos espreitar. Permanecem silenciosos, como costumam fazer os sábios, quando todos falam tolices.

O que esquecemos é que os livros podem ser traiçoeiros. Para além das aparências e de fantasias, eles podem nos surpreender com sortilégios do saber, feitiçarias do assombro. Encantos da arte de desvendar. Tudo escondido, às vezes, em folhas empoeiradas pelo esquecimento.

Aconteceu comigo. Talvez tenha acontecido com você. Algum livro laça-nos e dá um nó em tudo o que dele esperávamos.

A leitura da Odisseia, por exemplo, talvez tenha sido a grande lição sobre o atraiçoar dos livros. Eu que sempre imaginara a tal obra apenas como leitura para obtenção de cultura geral, de repente, vejo-me diante da mais definitiva aula sobre nobreza humana e soberba arte. Quem dera todos os educadores começassem a formação pelas lições extraídas dos poemas épicos de Homero. Certamente, as aulas teriam encanto próprio, pois trariam visões magnânimas de quem com versos ensinava a arte de ser humano.

Não podemos nos iludir. A qualquer hora, um livro catado ao acaso ou resgatado da prateleira sombria, pode trazer-nos a informação que alargará a percepção; o poema que revelará a ferida não sarada por que não conseguimos enxergá-la; ou nos permitirá voar nas asas da metáfora, truque linguístico para compreender de uma vez por todas, algo que parecia inalcançável ao entendimento.

O leitor é uma abstração. Só existe leitor em absoluta conexão com um texto. E é o encontro entre leitor e escrito que permite a experiência perfeita de voar juntos – leitor e autor – no tapete escrito de palavras. Por isto, todo livro deve ser olhado com a curiosidade e a consideração que rompem a indiferença e levam ao mistério escondido nos saberes e ao mergulho no lago do discernimento.

Livros mal escritos ou páginas definitivas para a compreensão humana? Só a leitura responderá. Por isso, devemos estar atentos à doce traição dos livros. Folheá-los com asas da curiosidade prontas para alçar o voo da leitura que alimenta a inteligência e traz o desvendar da realidade.

Às vezes, a aparente aridez esconde tesouros

Às vezes, a aparente aridez esconde tesouros

12 comentários sobre “A traição dos livros …

  1. Elieuza Sampaio disse:

    Muito bom, Lidu. Algumas obras nos surpreendem, sim. Noutras, que leio por conta da curiosidade, concluo a leitura, se chego a concluir, com a sensação de ter perdido meu tempo.

  2. Sérgio Remaclo disse:

    Lidu querida,

    Ler é um grande exercício para a imaginação: quem não me deixa mentir é o Bachelard. Segundo ele, inclusive, toda leitura só é uma boa leitura depois da segunda leitura.

    Beijão,

    Serginho

  3. Geraldo Hoebert disse:

    Lidu, minha Guru (não era pra ser rima, mas tornou-se)
    Já vivi essa experiência várias vezes nos últimos 2 anos pois fui revisitando minha estante com vários livros que comprei para ler quando eu tivesse tempo (que nunca chegava). Vivi uma experiência ímpar com “Crime e Castigo” e, a partir daí, não parei mais. Então peguei um papel e fiz uma lista de preferências para ler (ou até reler) e, constantemente, vou me encantando e trocando a ordem da lista que fiz…
    Você tem uma arte incrível para falar as coisas óbvias de uma maneira tão poética que só aumenta minha admiração por ti.
    Obrigado pela oportunidade de refletir e falar…
    Beijos

  4. Rodrigo disse:

    Que texto lindo e provocativo. Fiquei pensando……. deixa para lá……. vou já para minha estante achar um livro que me espera.

  5. Sanderlene disse:

    Muito bom Lidu!!!! Estou criando um Blog para compartilhar com amigos coisas boas e penso em divulgar seu Blog por lá, pode ser?? Assim que estiver “no ar” avisarei você! Beijos! Sanderlene

  6. Edson Luiz disse:

    Coincidência(?) ou não, este fim de semana (re)visitei um dos meus sebos preferidos. Encontrei ali nova versão da Ilíada e da Odisseia. E (re)comecei a ler, (re)encantado. Abraço, Lidu. Outra vez, expresso minha admiração e carinho por você. Parabéns pelo belo texto.

  7. Afonso Celso Agrello disse:

    Como tenho inúmeros livros não lidos ou lidos pela metade, o que disse Umberto Eco é significativo: “…A todos os que têm em casa um número bastante de livros, já aconteceu passar anos com o remorso de não ter lido algum deles, os quais durante anos nos espiam das prateleiras como para nos recordar nosso pecado de omissão”.

    • Liduina Benigno disse:

      Querido Mestre Afonso,
      Humberto Eco é realmente um grande exemplo de formador de leitores e dedicação à leitura.
      Obrigada pelo comentário.

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