Saber-se parte…

Reunião de trabalho. A empresa não consegue articular o pessoal de vendas com o da produção. O gerente  tenta mais uma vez integrar as pessoas. Propõe a formação de equipes mistas. A reação não é boa. Poucos estão dispostos à aproximação.

O que as duas situações têm em comum? As dificuldades de conviver, sobretudo, conviver com as diferenças.

No primeiro episódio, temos um agravante: pessoas  se ‘preparando’  para trabalhar como gestores e que serão credenciadas a intervir  em processos humanos para os quais se mostram insensíveis.

Sem dúvidas, os desafios da boa convivência estão postos desde sempre para a humanidade. Mas será que temos olhado para essa dimensão humana da convivência com o carinho que a questão merece?

É certo que os óculos da ingenuidade não nos ajudarão a enxergar muito longe. O modelo econômico baseado no consumismo, na acumulação e na competição desenfreada estende seus signos para outras esferas da vida. E o resultado são relações recortadas pelo exacerbado predomínio de interesses individuais e econômicos em detrimento dos valores coletivos e humanos.

É, ao que parece, não conseguimos aprender ou esquecemos a lição primordial: conviver, tendo presente a necessidade de cuidarmos solidariamente do projeto do homem de construir-se como humanidade .

Freud, o descobridor do inconsciente, dizia: “o primeiro homem que  ao ser ofendido revidou com argumentos em vez de usar a própria lança fundou a civilização”. Nessa frase, ele sinalizava a importância de encararmos nossos conflitos usando a linguagem e a compreensão. Aspectos que nos diferenciam dentre os animais. Mas ao que a realidade nos indica, ficamos no rascunho daquela primeira  lição indicada pelo Pai da Psicanálise.

O século XXI abriu seu portal. E em que condições ingressamos nesse novo tempo? Que realidade aguarda as gerações que herdarão a civilização? O cotidiano mostrado nos noticiários, as guerras, a solidão, os padrões de consumo e sociabilidade praticados mostram um horizonte não muito solar. Há muitas sombras que anuviam o entendimento humano. E se não encararmos os desafios, sobretudo os da sustentabilidade e os da convivência fraterna e pacífica, às futuras gerações restará maldizer uma herança nada auspiciosa.

Hoje, vivemos num mundo em transição. Convivemos com explosão demográfica, movimento migratório intenso, mercados multiculturais e diversificados. Se antes, as diferenças entre povos ficavam restritas aos  limites geográficos, hoje, a multiplicidade de idiomas, credos, visões políticas e expressões culturais precisa dividir, cada vez mais o mesmo espaço. Nesse cenário, a pouca disposição à convivência respeitosa é ainda mais trágica. Tais fenômenos, ao tempo em que expandem a humanidade, aumentam os riscos advindos da intensificação forçada do convívio.

Para o florescimento de padrões de convivência mais humanos, precisamos aprender novas lições baseadas na fraternidade, no respeito ao viver coletivo. Precisamos vestir o avental do aprendiz e começarmos o beabá de competências sociais nunca aprendidas ou já esquecidas.

Carlos Drummond de Andrade professa nos versos de ‘Mundo Grande’: Na solidão de indivíduo, desaprendi a linguagem com que os homens se comunicam“. É realmente preciso reaprender a linguagem da compreensão e da fraternidade. Sem fraternidade não há paz.

Sensibilizar-se para a convivência coletiva e fraterna é a saída possível para o desafio da diversidade. O grande filósofo espanhol José Ortega Y Gasset dizia: a civilização, acima de tudo, é a vontade de viver em comum. E realmente, sem essa vontade, não seremos capazes de desenvolver competências sociais básicas necessárias ao interagir e comunicar-se com humana compreensão do que somos e porque estamos juntos.

Ser ou não ser... humano
Ser ou não ser… humano